[LIVRO] Meus Queridos Estranhos: um romance sobre a solidão materna e a impossibilidade de comunicação entre mulheres

[LIVRO] Meus Queridos Estranhos: um romance sobre a solidão materna e a impossibilidade de comunicação entre mulheres

Quantas mulheres não se encontram com o completo vazio quando o ideal do casamento acaba? Como preencher uma identidade quando o que a sustentava vai embora em busca de outras coisas? São esses não-lugares de uma mulher sem um homem que Livia Garcia-Roza explora em seu romance “Meus Queridos Estranhos”.

Meus Queridos Estranhos provoca uma sensação agridoce, em que ao mesmo tempo que expõe esse vazio de uma personagem sem nome que se projeta quase que completamente em sua relação com os homens, não oferece respiro ou resposta que possa substituir a marcada ausência masculina. Não há motivo ou razão sem Manuel, e a própria filha, fruto desse relacionamento, nada mais é do que outra estranha em relação à mãe.

Manuel é o norte da narrativa e quem guia até as fantasias oníricas da personagem. São pontos incômodos: o primeiro deles é o completo apagamento da identidade feminina quando situada na família tradicional. Nossa protagonista não tem nome, e ao mesmo tempo que guia a narrativa, não é o foco da mesma. Uma esposa que vê o marido ir embora sem explicação e é deixada com a filha adolescente com quem tem pouco diálogo. Sem explicações sobre a súbita separação e logo em seguida, lidando com a morte prematura do ex-marido, a protagonista mergulha em ondas depressivas e crises ansiosas, se afastando a cada desentendimento da filha Mariana.

Mariana, assim como o ex-marido, Manuel, preenchem o sujeito da narradora, que muitas vezes expressa sua inabilidade em lidar com a vida sem a presença do marido antagonizando as atitudes da filha. Mariana e Manuel são os motivos formadores da identidade da protagonista, que vive a vida em reposta e à disposição emocional dessa família. Sozinha com a filha, a protagonista parece vazia em relação às expectativas de Mariana e incapaz de acompanhá-la em seu amadurecimento. Mariana por muitas vezes representa a jovem rebelde, dependente emocionalmente da mãe ao mesmo tempo que a reprime e despreza suas tentativas de proximidade.

Mesmo diante da possibilidade de um novo amor, a protagonista apenas transfere o vazio de Manuel para Xavier. O musicista colega de trabalho que vê na protagonista uma boa companheira, tem acesso à poucas camadas da complexidade da narradora. E distância não parece ser problema para esse novo marido, que se tranca em sua zona musical e se mantém além dos problemas psicológicos de sua nova esposa.

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Na dança dos títulos, a protagonista é esposa, ex-esposa, mãe, namorada e sogra, mas seu nome além de não revelado, não parece necessário. Seu emprego em orquestra também não revela muito sobre sua personalidade, apesar do clarinete ser um instrumento de grandes nomes da música. A música que essa mulher toca não produz identidade.

É sintomática a forma como a protagonista se relaciona com outras mulheres: diferente da empatia e gratidão que demonstra com seu passado com Manuel e com a nova figura amorosa que aparece em sua vida, Xavier, a protagonista parece incapaz de formar laços sinceros com outras mulheres. Mariana é uma incógnita inconveniente, a mãe é um fantasma que revive desgraças, a nova enteada, filha de Xavier, uma desaprovação em forma de pessoa. Mesmo em suas buscas desenfreadas para desmascarar a infidelidade do ex-marido falecido, as figuras femininas aparecem apenas como pronunciadoras de más notícias.

O abuso de calmantes e ansiolíticos da protagonista faz parte de um longa cultura de esposas de classe média retratadas na literatura, a busca pela dormência e anestesia da própria consciência que beira o vício acompanha a narradora, se agravando em seus momentos de pico neurose. A depressão e ansiedade podem ser amenizadas com o consumo de substâncias, mas a sensação de descontrole e desespero a aguardam como uma sombra, esperando a próxima crise para saírem da penumbra e se manifestarem como os maiores medos da protagonista: a infidelidade do falecido marido e as informações que ele levou consigo em sua morte.

É fatídico o destino de Mariana, que da mesma forma que a mãe, vai atrás do sonho romântico de casamento ainda jovem, para repetir o ciclo do vazio e se tornar no futuro a mãe sem conexão que ela mesma abandonou. E sem um desfecho que assinale uma mudança, Meus Queridos Estranhos mostra o começo, o meio e o fim do que é uma história comum entre as mulheres casadas da classe média: o mergulho no outro como forma de sobrevivência ao próprio apagamento.


Meus Queridos EstranhosMeus Queridos Estranhos

Livia Garcia-Roza

152 páginas

Companhia das Letras

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Imagem destacada: arte por Jessica Bandeira.

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Feminista Raíz
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