CRÍTICA | The Handmaid's Tale - 2x07: After - DELIRIUM NERD
CRÍTICA | The Handmaid’s Tale – 2×07: After

CRÍTICA | The Handmaid’s Tale – 2×07: After

O episódio anterior de The Handmaid’s Tale terminou de forma impactante. Aqueles que acompanham a série foram deixados com uma incógnita: o que aconteceria depois? Estaria Gilead caindo finalmente? Ou teria sido um movimento de resistência em vão? Então After é lançado, abordando o que veio logo depois. As mortes seguintes, mas também as mortes do começo, daqueles pessoas que foram perdidas logo após a tomada de GIlead. Fala de como as pessoas agem depois que perdem pessoas próximas. Fala dos nomes por trás das pessoas.

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Sob a mira do governo

O atentado ao novo centro Rachel e Leah, instaurou um clima de ameaça em Gilead. 26 oficiais e 31 aias mortos. Seria obra de um grupo terrorista? Talvez o mesmo em função do qual as medidas protetivas de Gilead foram instauradas. Entre os feridos, o comandante Fred Waterford (Joseph Fiennes), o que deixa a casa de Offred (Elisabeth Moss) sob o comando de Serena Joy (Yvonne Strahovski).

O ataque durante o discurso de Fred, seguido de sua sobrevivência e unido ao desaparecimento de Offred poucos meses antes, desperta a dúvida em outros membros do governo. Por esse motivo, Ray Cushing (Greg Bryk) decide ir à casa dos Waterford e conversar com Offred.

Em um regime de violência, nem mesmo o status é segurança quando pode por em risco toda a lógica de um sistema. Ray Cushing não se importa com a posição de Waterford quando o evento enfraquece Gilead, e não se cansa em buscar provas de que ele tem alguma participação na fuga de Offred. Afinal, como uma aia conseguiria sair sozinha de um governo tão controlador?

Handmaid's Tale

O começo de uma aliança?

Qualquer um pode ser a próxima vítima. Uma empregada inocente. Uma aia suspeita. Um comandante corrupto. Qualquer resposta pode ser suficiente para uma incriminação. Mas, para a sorte de Offred, Serena Joy também tem essa consciência. O desejo de manter a sua situação é maior do que o respeito pelas instituições de Gilead, de modo que ela se une à aia para pôr um fim à ameaça de Cushing.

Offred, Nick e Serena se unem para, na ausência de Fred, estabelecer medidas em prol de sua própria proteção. As divergências permanecem. Não se pode ignorar que Offred ainda é uma subordinada de Serena. Mas no distanciamento do marido, que ainda se recupera do atentado, elas, mulheres, assumem o comando.

Isto nos leva a pensar em como seria a realidade da própria Serena, se não fosse dominada pela ideia de superioridade dos homens. Evidencia mais uma vez, portanto, que ambas são vítimas de um sistema de opressão, ainda que uma colabore para ele. Sem Fred, as duas podem trabalhar em conjunto, o que concede alguns benefícios a Offred também.

Este pode ser o começo de uma retomada, na medida em que quem ela era antes tornar a aparecer. Serena precisa das habilidades de June, não da submissão de Offred, para conseguir colocar em prática o que deseja. O papel e a caneta cedidos a Offred podem representar mais do que a única forma de sobreviver ali. Podem representar o início de uma liberdade maior. No entanto, apenas os episódios futuros dirão o que de fato esse momento significa em um contexto maior.

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Depois do caos, a morte

Enquanto isso, o atentado repercute no exterior de Gilead. As mortes são reveladas àqueles que ainda nutrem alguma esperança de reencontrar pessoas próximas. Entre eles, Luke (O-T Fagbenle) e Moira (Samira Wiley). A cada notícia, a apreensão de que June possa estar entre as inúmeras vítimas de um regime de opressão. Nomes e mais nomes rolam por fotos, mas muitos ainda permanecem sem identidade. Isso porque, para Gilead, não importa quem vocês foi antes. Se você não está em posição de poder, você é apenas mais um. Um rosto sem nome depois da era de Gilead.

Para alguns, manter-se na ignorância é mais agradável. É o caso de Luke. O marido de June prefere acreditar que ela continua viva, ainda que sob a violência. Mas Moira não possui tal sorte em relação à pessoa que ela amava. O episódio revela que Moira tinha um interesse romântico antes de Gilead, assassinada em algum momento posterior.

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Memórias enterradas

Odette (Rebecca Rittenhouse) ela se chamava. Classificada como uma não-mulher e enviada às colônias, ela morreu como se fosse ninguém, em circunstâncias que Moira não poderia dizer. Sem ter certeza da morte dela, Moira não conseguia vivenciar o luto, não podia dizer adeus de forma adequada. Mas tudo muda quando ela encontra uma foto.

Descobre-se, no episódio, que Moira foi barriga de aluguel no regime pré-Gilead. Ainda solteira, viveu a maternidade para poder pagar seus estudos. Fica nítido, porém, um sentimento de solidão que a dominava. Enquanto outras mães e, inclusive June, tinham apoio durante a gravidez (mesmo que o apoio de seus companheiros fosse parco naquele momento), Moira estava apenas por si. Até que ela conhece Odette.

Odette era sua médica e aos poucos as duas desenvolvem um relacionamento, interrompido pela violência de Gilead. Angustiava Moira não saber se Odette teria morrido sozinha ou o grau da violência com que morrera. Uma angústia normal a qualquer um que se preocupe com alguém. Gilead não lhe retirou apenas uma pessoa amada, mas também o direito de sofrer pelas pessoas que amava, de cuidar e também de superar a morte, obrigando-a a viver na incerteza.

Conforme as notícias chegam ao lado de fora, os parentes podem enterrar seus mortos, vivenciar o luto da forma como preferirem e enfim seguir em frente. Mas seguir não sem lembrar daqueles que se foram. Seguir em frente, com a memória de que eram as pessoas, mais do que apenas corpos ou apenas nomes, pessoas que foram ignoradas por uma sociedade.

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Rostos sem nomes

Uma tática de dominação é retirar a identidade dos dominados. Pessoas sem nomes são pessoas sem passado. Offred, Ofglen, Ofwarren, entre tantas outras, são apenas rostos femininos sob capas vermelhas, que mudam conforme os interesses daqueles que as definem. No início da temporada, Offred/June afirmou para si que ela era June Osborne. Nomes não são apenas palavras, mas também resumos de tudo o que veio antes. Nomes carregam histórias.

Offred viu suas companheiras serem levadas para as colônias, assassinadas nas ruas de Gilead ou mortas em atentados da resistência. Viu rostos desaparecerem antes mesmo de saber seus nomes. Porém, saber seus nomes importava. Do mesmo modo que importa para as famílias saber o que houve com algum membro, se está vivo ou morto, se sobreviveu como Fred ou se morreu como Odette. Reviver a história de cada uma/um e retomar o controle sobre a identidade é também uma forma de resistência, algo que Offred já tinha se dado conta no início, mas retoma neste momento.

Quando o número de aias decai por conta do atentado, aias das colônias são trazidas de volta a Gilead. E Offred não pode perder a oportunidade de conhecê-las pelas mulheres que elas foram um dia, ocultadas por suas longas capas. June, Emily, Janine, Alma, Brianna, Dolores. Todas aias, todas mulheres, rostos com nome e história, pessoas que não podem ser esquecidas.

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Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
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