Nós: a primeira distopia da ficção científica

Nós: a primeira distopia da ficção científica

Primeiramente, a melhor resenha que você pode ler sobre esta obra já se encontra nela – é a crítica feita por ninguém menos que George Orwell. Nós, do russo Yevgeny Zamiátin, escrita em 1920/21 e publicada em 1924, é considerada a primeira distopia da ficção científica. Podemos dizer que é também a mais corajosa, pelo seu contexto histórico – imaginem só: uma severa crítica ao Estado Único e à coletivização, escrita apenas 4 anos após a Revolução Russa (que em 2017 completa 100 anos)!

Sinopse oficial de Nós:

Nós é um romance distópico escrito entre 1920 e 1921 pelo escritor russo Yevgeny Zamyatin. A história narra as impressões de um cientista sobre o mundo em que vive, uma sociedade aparentemente perfeita mas opressora, e seus conflitos ao perceber as imperfeições dele, ao travar contato com um grupo opositor que luta contra o “Benfeitor”, regente supremo da nação. O livro só adentrou legalmente a pátria-mãe do autor em 1988, com as políticas de abertura do regime soviético, devido à censura imperante no país.

Na sociedade desta distopia, os cidadãos não têm nomes próprios (também não são chamados de cidadão, mas de “números”). Cada número um recebe um código formado por uma letra e números. O protagonista é conhecido como D-503. É um matemático, um cientista que trabalha na construção da “Integral”, uma nave espacial. Conhecemos o mundo pelos olhos de D, que é uma pessoa extremamente comum, que já absorveu todas as regras, deveres e condutas exigidas pelo Estado Único e as segue cegamente, sem contestação ou dúvida.

Tudo é regrado: a hora de acordar, de comer, de descansar, de estudar, de ler e de dormir. Há também um momento do dia chamado ”Hora Pessoal’’, onde o número pode fazer o que bem entender. Todos usam a mesma roupa, chamada Unif (de uniforme). As casas das pessoas são de vidro transparente – afinal ninguém faz nada de errado e não precisa se esconder. A Hora Pessoal é o único momento do dia em que qualquer pessoa pode descer cortinas sobre suas paredes de vidro e ter uma hora exata de privacidade.

Geralmente essas horas são utilizadas para encontros sexuais. Cada número tem direito a um encontro sexual em sua Hora Pessoal, com quem quiser. Basta preencher um cartão e enviar previamente para a pessoa, requisitando o encontro. Caso essa pessoa não aceite, ou não compareça, ela pode ser denunciada aos Guardiões (a força policial do EU). Então a pessoa sofre a penalidade, que é a destruição total através de uma máquina que dizima totalmente, deixando apenas uma poça de água. E mais: isso acontece na presença de todos os demais números, para que sirva como exemplo do que está reservado a quem desobedece qualquer regra que seja. Importante dizer que nesta distopia a igualdade de gênero pouco importa. Há, de fato, uma plena igualdade, mas isso não é algo bom. Todos e todas são igualmente oprimidos e alienados.

Nós
No EU, todo cidadão/número tem direito a um encontro sexual com outro número. E isso não pode ser negado, sob pena de morte.

Como dissemos acima, D é uma pessoa comum. Vive sua vida alegremente, pois, como diz o EU (Estado Único), a alegria é o oposto da liberdade. Ter uma função na sociedade e cumprir com todos os deveres, só isso traz felicidade plena. Durante suas horas pessoais, D se encontra com O, uma mulher que realmente gosta dele e sempre quer se encontrar.

Ele passa também a se encontrar com a misteriosa I. Ao longo do livro, O se mostra o estereótipo da mulher “comum”, que quer ser amada e ter filhos. Já I é a melhor personagem do livro. Ela é a antagonista. Juntamente com seu grupo rebelde, I luta contra o EU e planeja uma revolução. D ainda não sabe disso, vai descobrindo aos poucos, ao mesmo tempo que é levado a participar como uma peça chave dessa revolução. Por ser uma pessoa comum e totalmente condicionada à rotina do EU, D fica confuso, com dúvidas sobre o que fazer e como agir. E é a partir daí que a história se desenvolve de fato.  

Há outros pouquíssimos personagens. Entre eles, o poeta R (um poeta que tem a função de escrever palavras que enaltecem o EU e o Benfeitor) – que infelizmente é retratado de maneira extremamente racista. É conhecido com o de “lábios negroides”, que fala cuspindo e, em certa passagem (p.197) é descrito como “[…]furioso[…], asqueroso e astuto como um gorila’’. Poderíamos dizer que é uma obra de ficção, que é antiga, mas isto pouco importa. Não há desculpas. O fato da obra ter sido escrita há quase 100 anos em nada diminui a decepção e repúdio que tais descrições causam. Esse é, de fato, o maior defeito do livro.

Como podemos ver nas fotos abaixo (clique na foto para aumentar), a Aleph tem se superado a cada lançamento. O livro se destaca em qualquer estante e é um objeto que dá gosto de ter. Com capa dura e lombadas coloridas, a obra tem design e acabamento final impecáveis.

O Estado Único e a URSS, O Benfeitor e Stalin

Zamiátin correu um sério risco ao escrever Nós. O livro não foi publicado em russo, mas versões traduzidas foram publicadas em outros países, isso na mesma época em que Stalin chegava ao poder. É impossível não traçar uma comparação entre o Estado Único e a URSS, entre o Benfeitor e Stalin. Nesse sentido, uma severa crítica ao EU poderia ser entendida como uma severa crítica à URSS. E na época, o destino de artistas reacionários era a morte ou a gulag.

Com o tempo, o autor passou a ter todos os seus trabalhos rejeitados por editoras – mesmo os trabalhos feitos para enaltecer o Estado. A perseguição estava cada vez maior e, temendo o pior, Zamiátin escreveu uma tocante carta a Stalin, onde pede permissão para se auto exilar por alguns anos. A carta, hoje importante documento histórico, está presente ao final do livro, na íntegra.

A figura do Benfeitor é semelhante a Deus. Sua palavra é a ordem e a mínima contestação leva à morte. Nos anos seguintes, a conduta de Stalin – com sua sistemática e paranoica perseguição a todos “inimigos do Estado” – se assemelha bastante ao personagem de Nós. Nesta época, porém, o autor de Nós já tinha morrido. Do contrário, não temos dúvida de que ele seria encontrado e punido por causa de sua obra, considerada altamente subversiva – tão subversiva que ela só adentrou a Rússia em 1988, após a perestroika e glasnost de Gorbachev entrarem em ação – o que aumentou a liberdade de expressão e o livre comércio na Rússia.

No Estado Único, a única leitura (e produção literária) permitida é a leitura técnica ou de obras poéticas feitas em homenagem ao EU. Sabemos que no regime soviético muitos artistas foram perseguidos, presos e até mortos por suas criações consideradas subversivas. Ou o artista criava para o Estado, ou era proibido de criar qualquer coisa. E assim foi até o fim do regime. Ainda há título do livro – Nós. Ao longo da obra é tecida uma crítica ao coletivismo que descaracteriza a identidade e a individualidade de cada número. Mas há ainda muitas comparações possíveis entre o Estado do livro e o Estado Soviético.

A rotina de um número no EU. Qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência?

Nós

No Estado Único não existe indivíduo, não existe imaginação e não existe liberdade. Tudo é feito em conjunto, como peças de uma máquina que se unem em engrenagens para que tudo funcione sempre de maneira impecável. Assim, não há identidade pessoal e nem idiossincrasias ou qualquer tipo de particularidade individual.

A imaginação é considerada uma doença, um grande defeito que deve ser sanado o mais rapidamente possível e a liberdade é algo ruim, é o contrário de felicidade. Ao privar os números da liberdade plena, o EU proporciona alegria e segurança. A restrição é tamanha, que há um muro que cerca a cidade. O céu é fechado por uma redoma e há muros que impedem que qualquer forma de fauna ou flora adentre as imediações do EU. Tudo o que é livre, selvagem, subversivo, sujo e errado está além dos muros – isso é o que todos acreditam. Essa separação entre natureza e uma sociedade altamente industrial é um ponto chave para a trama, portanto não prosseguiremos com spoilers.

Tudo muda na vida de D quando ele visita uma casa antiga. Uma casa da longínqua época onde todos eram livres, ignorantes e selvagens – a nossa época. Sempre que alguém se refere a esse período, veem as artes, a religião e a política como coisas pré-históricas e totalmente desnecessárias, quase infantis. Isso mostra o nível de alienação totalizante em que todo cidadão aparentemente se encontra no EU.

Orwell, em sua resenha, diz que Nós é melhor que “Admirável Mundo Novo” – que se inspirou muito em Nós – porque Zamiátin tem essa pegada política e revolucionária, o que falta na outra obra. Mesmo que não seja um clássico absoluto da literatura russa e que não chegue aos pés dos maiores escritores daquele país, Nós é um livro que merece ser lido por muitos motivos. Seja para conhecer a literatura sci-fi russa, para fins de comparação histórica ou simplesmente como entretenimento, é uma leitura altamente recomendada. Entre as passagens mais memoráveis, destacamos duas: quando Zamiátin explica os conceitos de entropia e energia, que desde então foram utilizados em  milhares de obas sci-fi, e o diálogo em que a frase da foto abaixo é dita.

De um modo geral, Nós é sobre o ser humano, sobre sua mente inquieta, sua recusa em ser dominado, sobre o poder da liberdade, da imaginação e de como nenhuma revolução é uma revolução final.


Nós

Nós

Autor: Yevgeny Zamiátin

Editora Aleph

344 páginas

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Fundadora e editora-chefe do Delirium Nerd. Revisora. Apaixonada por gatos, café, cinema do oriente médio, quadrinhos e animações japonesas. Ouve muito Harry Styles e cantoras melancólicas.
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