Top 10 melhores álbuns femininos lançados no primeiro semestre

Top 10 melhores álbuns femininos lançados no primeiro semestre

A ideia para este post surgiu há mais de um mês. Com alguns títulos já em mente, parecia relativamente fácil montar um top 10 melhores álbuns femininos lançados no primeiro semestre. Um pouco menos desafiador que selecionar os melhores álbuns de todo um ano, ao menos.

Em uma breve pesquisa, porém, descobre-se a surpreendente quantidade de trabalhos lançados por mulheres musicistas entre janeiro e junho, mesmo em um ano atípico como tem sido 2020. E ainda bem! Porque a arte é o que mais tem nos ajudado a passar por este momento turbulento. 

De uma lista inicial de quase 40 álbuns — que, acredite ou não, já resultava de uma curadoria rápida — chegamos à seleção final após quase três semanas de muito estudo e ponderação. Confira: 

10) Heavy Light – U.S. Girls | Pop experimental

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O sétimo álbum de Meghan Remy (aka U.S. Girls) é ao mesmo tempo pessoal, político e notavelmente parabólico. Com direito a referências a Patti Smith (“Born to Lose”) e Martin Luther King Jr. (“4 American Dollars”), algumas de suas letras abordam questões existencialistas, perpassando traumas de infância e juventude e apresentando conselhos a um eu adolescente numa colagem de interlúdios em “Advice to Teenage Self”; outras refletem questões de gênero, o nascimento da humanidade e seu subsequente impacto sobre o meio ambiente. Aos que ainda não conhecem o trabalho da artista, “Heavy Light” é uma boa opção para começar.

9) Future Nostalgia – Dua Lipa | Pop; electropop

melhores álbuns femininos de 2020

Provavelmente o mais conhecido desta lista, “Future Nostalgia” é certeiro em seu título: o segundo álbum de Dua Lipa explora o disco-funk e o dance-pop dos anos 80.

Embora a temática amorosa sobre relacionamentos e ex-namorados ainda se faça presente na maior parte do álbum, o conceito de “female alpha” apresenta-se na faixa-título e na própria capa do disco, enquanto “Boys Will Be Boys” aborda questões como assédio e o medo compartilhado por tantas mulheres, além de tecer uma crítica ao machismo.

Divertido e dançante, “Future Nostalgia”, em uma perspectiva geral, cumpre bem o papel que a própria Dua a ele designou: oferecer-se como escape a uma realidade cada vez mais difícil.

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8) Mundo Novo – Mahmundi | MPB; pop alternativo 

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Quase um EP, o delicioso “Mundo Novo” é o terceiro álbum de estúdio de Marcela Vale, a Mahmundi. Com canções sobre autoconhecimento e reflexões sobre a vida, amor e relações interpessoais, o lançamento é resultado de um trabalho colaborativo: a artista interpreta canções de Dadi e Jorge Mautner (“No Coração da Escuridão”), Paulo Nazaré (“Convívio” e “Mundo Novo – Intro”) e Frederico Heliodoro (“Vai”), além de dividir os créditos com Felippe Lau em “Sem Medo” e com Castello Branco em “Nova TV” e “Nós de Fronte”.

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Em entrevista à Rolling Stone, Marcela — que é também produtora do álbum, junto a Frederico Heliodoro — afirma não querer sucumbir ao “sistema padrão” mercadológico ou “ser gado do entretenimento”. De fato, Mahmundi é Mahmundi. Consistente, ela mantém sua identidade. 

7) Forever, Ya Girl – keiyaA | R&B

melhores álbuns femininos de 2020

O álbum de estreia de keiyaA é um trabalho independente. Ela própria compôs — letras e instrumental — todas as canções, com assistência do rapper MIKE na fase de produção.

A solidão da artista em seu processo criativo fez parte de um processo de cura após sua experiência em ambientes educacionais (inclusas instituições de educação musical), que, como ela mesma relata, são hostis, danosas e traumáticas para pessoas negras. O resultado é um álbum emocional, muitíssimo singular, repleto de sintetizadores dissonantes e arranjos excêntricos que muito reforçam sua particularidade.

6) Só – Adriana Calcanhotto | MPB; funk

melhores álbuns femininos do primeiro semestre de 2020

Definido pela própria Adriana Calcanhotto como um “disco emergencial”, seu novo álbum, “”, nasceu do desejo de contribuir de alguma forma no contexto da pandemia e de aproveitar criativamente o tempo ocioso do período em isolamento. O apressado processo de concepção do álbum é novidade para a artista, que normalmente não poupa tempo em seu curso criativo.

Além das já costumeiras canções de amor, há também aquelas sobre o período em quarentena (“O Que Temos”; “Ninguém na Rua”), além da experimentação com funk em “Bunda Le Lê”, música com participação de Dennis DJ. “Só” é dedicado a Moraes Moreira, que faleceu recentemente. A renda do disco será revertida para iniciativas como Redes da Maré, Rocinha Resiste, Ação Cidadania, entre outras. 

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5) SAWAYAMA – Rina Sawayama | Pop; nu metal

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Em pleno 2020, “SAWAYAMA” recria e reinterpreta o nu metal com talento e excelência enquanto explora, ainda, o pop e o R&B, misturando gêneros para transmitir emoções e trazendo um som ao mesmo tempo novo e repleto de influências nostálgicas que remetem à década de 90 e ao início dos anos 2000 — de Limp Bizkit, Korn e Evanescence a Britney Spears e Christina Aguilera.

As letras são profundamente pessoais, relembrando tempos da adolescência da artista e explorando questões como o sentimento de culpa pelo afastamento de um amigo, a dor causada pelo divórcio dos pais, o racismo sofrido ao longo de sua vida, além do manifesto apreço pela comunidade LGBTQ+, a qual ela considera uma família. 

4) Punisher – Phoebe Bridgers | Folk; alt-rock 

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Sincero, intimista e sentimental, “Punisher” destaca a engenhosidade lírica de Phoebe Bridgers, com suas costumeiras narrativas em primeira pessoa,  sempre muito descritivas, e peculiar visão de mundo.

Em suas canções, ela reflete sobre o passar do tempo, a mutabilidade das coisas; sobre amor, términos e o sentir-se entorpecida, partindo de um desejo de se desprender da realidade, além das variadas referências musicais — a própria música que dá título ao álbum é sobre Elliott Smith, um de seus maiores ídolos.

Mesmo aqueles a quem não agrada tamanha melancolia talvez valha a pena dar uma chance ao novo álbum de Phoebe Bridgers, ainda que somente pelo seu tão sóbrio eu lírico. 

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3) Women In Music Pt. III – Haim | Alt-rock; indie pop

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O terceiro álbum de estúdio das irmãs Haim carrega notável variedade de ritmos e gêneros: da já característica influência clássica de nomes como Joni Mitchell e Tom Petty à experimentação com UK Garage e R&B.

Em “Women In Music Pt. III”, Danielle e Alana pela primeira vez compartilham questões particulares a cada uma delas e à relação que mantêm entre si, explorando temas como depressão, luto e os desafios impostos por uma indústria musical ainda tão machista e hostil principalmente àquelas que “se atrevem” a aventurar-se pelo rock.

Maduro nas letras de suas canções e experimental em seus arranjos musicais, “Women In Music Pt. III” é sobretudo um álbum multidimensional.

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2) What’s Your Pleasure? – Jessie Ware | Disco; electropop

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O glamouroso novo álbum de Jessie Ware remete ao Disco de fins dos anos 70 e início dos anos 80, revisitado e reformulado. É possível visualizar o ambiente da discoteca, com o tão característico globo espelhado, a decoração neon e a artificial neblina da máquina de fumaça.

Por vezes lembrando o som de Anita Ward e Donna Summer — além de  Fern Kinney com sua “Love Me Tonight”, citada por Jessie como uma grande influência para o álbum —, “What’s Your Pleasure?” é ousado, sedutor e contagiante, uma mistura de disco e electropop, ao mesmo tempo que se mantém emocional e dramático, como é costumeiro nas letras da artista.

1) Fetch the Bolt Cutters – Fiona Apple | Alt-rock

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Fetch the Bolt Cutters” é o retorno de Fiona Apple após um hiato de oito anos. Mais uma vez, a primazia da compositora é evidenciada em letras afiadas e incisivas que versam sobre questões existenciais, como o passar do tempo e o sentido da vida, ou temas como depressão, bullying, autoestima, amor, abuso (sexual; relacionamentos abusivos), masculinidade tóxica e uma sociedade patriarcal. Ao mesmo tempo forte e vulnerável, Fiona Apple narra experiências pessoais com riqueza de detalhes e expõe visões de mundo que enfatizam sua lucidez e senso crítico.

Entre gritos e sussurros, é um álbum denso, de muitas camadas e texturas — o que muitas vezes envolve uma percussão improvisada ou uma colagem sonora com palmas, sons de respiração ou latidos de cachorro, gravados na própria casa da musicista.

Classificado como uma obra-prima pela crítica especializada, “Fetch the Bolt Cutters” é livre, honesto, e sui generis. Fiona Apple já havia manifestado seu desejo de que o álbum fosse para o ouvinte uma experiência catártica. Ela conseguiu.

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Bônus

+5 álbuns para conhecer:

Ouça a nossa playlist com indicações de músicas dos álbuns listados neste artigo:


Edição, revisão e arte em destaque por Isabelle Simões.

Escrito por:

11 Textos

Laysa Leal é bacharel em Cinema e Audiovisual com foco em roteiro, direção de arte e crítica especializada. Apaixonada por artes visuais, tem formação profissionalizante em fotografia e atua também como fotógrafa. Não dispensa uma boa música e está sempre pelo circuito de shows e festivais, uma das poucas ocasiões em que prefere o frenesi à quietude de museus e galerias de arte ou ao conforto de salas de cinema.
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