Os melhores livros de romance que falam sobre classe social
Os melhores livros de romance que falam sobre classe social

Os melhores livros de romance que falam sobre classe social

Você gosta de um romance com uma pitada de crítica social? Então essa lista é para você! Aqui você encontrará alguns dos melhores livros de romance escritos por mulheres que abordam questões de classe social em contextos e épocas distintas.

Garota, mulher, outras – Bernardine Evaristo

Garota, mulher, outras - Bernardine Evaristo

Considerado pelo jornal britânico The Guardian o romance da década, além de ser um dos livros favoritos de Barack Obama, Garota, Mulher, Outras, da escritora britânica Bernardine Evaristo, foi vencedora do Booker Prize, considerado o mais importante para a literatura de língua inglesa, tornando sua autora a primeira mulher negra a receber o prêmio.

Publico no Brasil em 2019 pela Companhia das Letras, o livro é dividido em cinco grandes partes, em que as quatro primeiras contêm as narrativas de coletivos de personagens que protagonizam o romance e a quinta traz um evento em que todas elas se encontram, além de um epílogo. Garota, Mulher, Outras retrata as vivências e histórias de doze personagens, imigrantes ou descendentes de imigrantes de países africanos e caribenhos, no qual a fluidez é a principal marca da maneira em que a autora busca romper com o discurso colonial.

A obra busca dar voz à 11 mulheres e uma pessoa não binária, trazendo certa ênfase nos relacionamentos entre mães e filhas, ou as filhas e suas amigas, relacionamentos estes que são cheios de complexidades e bastante reativos, nos quais muitos dependem de um equilíbrio delicado, prestes a se romper.

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Além da relação bem distinta e marcada por altos e baixos entre os personagens, que são bastante plurais, há uma diversidade gigantesca entre os temas tratados ao longo dos capítulos, que vão desde representatividade artística, a subjetividade das mulheres árabes, imigração, a organização dos movimentos feministas, entre muitos outros.

Para representar essas camadas sociais a autora se vale não apenas de uma narrativa única e irreverente, mas de um estilo narrativo inovador. O texto interpõe-se em versos ao mesmo tempo que se trate, de fato, de uma prosa, e em seguida ainda brinca com textos em bloco. Não se sabe se considera-se uma prosa poética ou um livro que não se encaixa em nenhuma categorização.

Dessa forma, Garota, Mulher, Outras é um livro extraordinário, não apenas inventivo em sua linguagem ou estilo narrativo, mas que preocupa-se em mostrar a sociedade como ela é: diversa, múltipla, cheia de contradições e marcada por movimentos sociais e políticos. Há aqui uma preocupação da autora em retratar a atual sociedade inglesa, mas também como se apresentou historicamente, marcada pela luta direta e por vezes silenciosa de milhares de mulheres, e pelas estruturas de gênero, raça e classe.

Norte e Sul – Elizabeth Gaskell 

livros de romance

A romancista britânica Elizabeth Gaskell publicou seu primeiro livro, Mary Barton, em 1848, anonimamente. Tal obra foi um dos primeiros romances com autoria de pessoas de classe alta que retratou a vida de indivíduos pobres. Essa tendência, contudo, acompanhou os trabalhos seguintes de Elizabeth, culminando em seu livro mais famoso, Norte e Sul, publicado no Brasil pela Martin Claret.

Mesmo tratando sobre assuntos relevantes para a época e ainda importantes hoje, onde se discute sobre precarização do trabalho, as histórias de Elizabeth Gaskell são pouco consumidas pelo público brasileiro. Apesar disso, a autora foi uma influência importante não somente por retratar personagens das classes populares, mas por abrir caminhos para que mulheres pudessem escrever sobre o que quisessem.

Norte e Sul apresenta a narrativa de Margaret Hale, forçada a mudar para a cidade de Milton (local fictício inspirado em Manchester) quando seu pai decide deixar de ser pastor. Lá ela se choca com a realidade da cidade industrializada e se compadece com a situação dos trabalhadores, ao mesmo tempo em que começa a construir uma relação conturbada com John Thornton, um dono de fábrica. Com ares de Orgulho e Preconceito, o casal desenvolve uma relação cheia de conflitos que culmina em amor.

A diferença central entre Mary Barton e Norte e Sul é a mudança da classe do núcleo principal. Em Mary, quase todos os personagens são trabalhadores pobres, que vivem diariamente as explorações capitalistas. Já em Norte e Sul, Margaret é construída na figura da observadora, pois ela chega a fazer parte da burguesia como filha de um dono de fábrica, mas também não sente na pele a vivência do proletariado.

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Apesar disso, Margaret também é uma personagem feminina independente, que bagunça o que era esperado de mulheres na época. Hale, contudo, questiona as condições sociais existentes na cidade, além de bater de frente com Thornton por conta das condições que seus trabalhadores vivem.

Mais uma vez a personagem feminina representa os ideais de Gaskell, agora possuindo um ponto de conflito direto com seu par romântico, que representa os ideais capitalistas. Essa dualidade é trabalhada em toda a história e por isso o título Norte e Sul a representa tão bem.

Gaskell, dessa forma, trabalha as diferenças entre norte e sul, modernidade e tradição, trabalhadores e capitalistas. Através desse livro, ela se consolida como uma autora que retrata as condições da Inglaterra, colocando suas personagens femininas na trama central, além de uma mulher preocupada com as questões sociais de seu país.

Importante destacar que, mesmo sendo de classe alta, Elizabeth enfrentou barreiras ao colocar suas histórias no mundo e sua coragem foi imprescindível para abrir caminhos para diversas outras mulheres. A equidade de gênero ainda é um sonho distante, porém autoras como ela foram peças chave para criar oportunidades. Gaskell jamais deverá ser esquecida.

Pessoas Normais – Sally Rooney

Pessoas Normais - Sally Rooney

Publicado em 2019 pela editora Companhia das Letras, Sally Rooney explora em Pessoas Normais uma história de amor que vai muito além do romance romântico. Sarcástico, com consciência de classe, abordando assuntos tão dolorosos e que são pouco falados, como o abuso familiar, problemas psicológicos, o machismo e a maternidade solo, a obra dá um novo ar para as velhas histórias românticas envolvendo adolescentes e adultos.

A obra conta a história da relação conturbada e peculiar entre Marianne e Connell, durante o final do ensino médio e suas vivências na universidade. Mas mesmo tratando de uma história dentro do ensino médio de uma maneira inicial, que parece tão lugar-comum de filmes e livros, Sally faz com que o leitor fique imerso na história e traz à tona a discussão de diversos temas complexos e essenciais.

A família de Connell é pobre e possui diversos históricos de reputações ruins e problemas com a sociedade como um todo. Por isso, Connell sempre procura fugir desse estigma que carrega, seja tentando ser um astro dos esportes na escola, tirando notas boas, relacionando-se com pessoas de classes superiores economicamente. Ele, principalmente, tenta não se envolver com uma pessoa vista como “inferior” socialmente, como a Marianne na época da escola.

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Através do comportamento de Connell, que a todo momento procura ser uma pessoa “boa” para com os outros e, principalmente, popular, a autora aborda essa falsa necessidade que sentimos de criar máscaras e verdadeiras personas para agradar a todos ao seu redor, muitas vezes adequando-as a cada momento em específico. Isso reflete diretamente como vivenciamos as redes sociais hoje, pois esse complexo se intensifica ainda mais. Para além disso, vemos que essa necessidade do personagem ser popular e estimado pelo corpo social, seja da escola ou seja da universidade, reflete muito uma condição de classe.

Essa é uma escolha muito inteligente da autora, pois ao transicionar entre escola/faculdade vemos que esses papéis hierárquicos transformam-se. São tirados dos lugares. Marianne, agora, é tida como popular, estimada socialmente, enquanto Connell não. A mudança de seu papel o impacta profundamente, sobretudo na forma como ele se enxerga e lida com os seus sentimentos. Essa metamorfose ocorre em concomitância à mudanças sociais em suas vidas: há um processo de desenraizamento em relação ao interior/cidade grande e o local onde moravam/onde moram.

Apesar de ser voltado ao público jovem, a escrita de Rooney toca em assuntos relevantes para todos os públicos. Isso torna a leitura imprescindível para os tempos atuais, principalmente para nós, brasileiras, que vivemos uma situação política e social conturbada e difícil.

Esse texto foi escrito em conjunto pelas autoras Gabriela Holanda e Inês Alves.

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