"Poetas Negras Brasileiras" apresenta escritoras plurais
“Poetas Negras Brasileiras” apresenta escritoras plurais

“Poetas Negras Brasileiras” apresenta escritoras plurais

A ideia de Jarid Arraes era ousada. Reunir a obra de mulheres negras de todo o Brasil em uma coletânea, sem distinção entre novatas e experientes, agrupando diferentes estilos e temas. Mesmo que parecesse arriscado para alguns, assim nasceu Poetas Negras Brasileiras. Lançado este ano, o livro organiza o trabalho de autoras diversas, refletindo sobre muitos temas e que provam o que já se sabe: mulheres negras são múltiplas.

Com o espaço da experimentação oferecido pela poesia, as autoras exploram assuntos que vão desde sexualidade à autoestima, passando por racismo, questões de gênero, amor e a própria prática da escrita. Os poemas variam nos temas e nas formas, com a presença de poemas tradicionais e também poemas concretos, com variação de tamanho e inovações.

Nas suas pouco mais de 100 páginas, Poetas Negras Brasileiras apresenta o trabalho de 74 poetas, organizados por ordem alfabética, com destaque a Conceição Evaristo que abre a obra. O livro também conta com poemas da própria Jarid e da autora Mel Duarte. Cada texto é acompanhado da cidade de origem das escritoras e ilustrações. O livro é uma materialização potente da capacidade das mulheres negras fazerem o que quiserem, desde que exista a oportunidade.

A vez da diversidade

Poetas Negras Brasileiras é uma antologia organizada por Jarid Arraes e lançada pelo selo Ferina.
Poetas Negras Brasileiras é uma antologia organizada por Jarid Arraes e lançada pelo selo Ferina.

A pauta em torno da diversidade tem crescido cada vez mais nos últimos anos. Muitos movimentos se organizaram para pedir por uma melhor representação de gênero, sexual, racial, física em diferentes produções. Já é possível perceber os primeiros efeitos desses pedidos, ainda que tímidos. Mesmo assim, a presença de mulheres negras em vários níveis de diferentes produções ainda é bastante limitada.

São poucas escritoras, diretoras, roteiristas mulheres negras, isso quando se pensa apenas no universo da indústria cultural. É provável que seja possível contar em alguns dedos as poetas famosas que também são mulheres negras. Já está mais do que evidente que essa segregação acontece por conta do racismo e a falta de oportunidades, não a ausência de talento dessas mulheres.

Poetas Negras Brasileiras está mais uma vez apresentando o óbvio que precisa ser repetido. Mulheres negras existem, resistem e são sim talentosas. Além disso, o livro traz uma poeta negra em sua organização, tendo de fato a diversidade como um ideal do projeto desde o início.

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A autora Mel Duarte | Imagem: divulgação

O livro apresenta o desejo de construção de um mercado editorial que de fato olha para o Brasil, que abre espaço para diversidade em todos os setores. São necessárias histórias com protagonistas negras, mas também autoras, revisoras, tradutoras negras. Essa diversidade tem que ser praticada em todas as esferas, para que crianças negras possam se inspirar em histórias sobre elas e para que adultas negras tenham salários dignos, que lhes dê a chance de realizar seus sonhos. Poetas Negras Brasileiras é mais um pedacinho desse longo caminho para a construção de um mercado mais justo.

A voz das mulheres negras

Para além de ser um importante acréscimo para o mercado editorial, o livro também é uma porta de entrada para muitas autoras. Com a maior parte dos nomes desconhecidos do público, Poetas Negras Brasileiras dá a possibilidade de publicação e reconhecimento a elas, facilitando o caminho para a presença das autoras em outras antologias e livros solos.

O que mais sobressai é o quanto a coletânea é plural. Muitos poemas celebram a ancestralidade, a relação das poetas com suas mães e avós; mas também suas relações consigo mesmas. Outros pensam relacionamentos amorosos, sua sexualidade ou a descoberta dela. Mas também existem alguns que falam sobre tudo e nada, apenas mostram o poder da palavra e da poesia.

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Em “O amor não põe mesa”, Andreza Xavier faz uma relação entre a solidão da mulher negra e um jantar, onde ela sente fome mas nunca é servida pelo amor. O poema traz imagens fortes na relação entre querer ser desejada mas saber que merece viver um relacionamento pleno e completo, não se contentando com sobras.

“eu não quero o prato do chef
desejo o que minha boca pede tanto
amor quente pelando
completo
com sobremesa”

Eliza Araújo fala também sobre amor, mas entre ela e sua mãe. No poema [não-foto de momento humano] a poeta descreve como os ensinamentos de sua mãe foram importantes para sua vivência e a força que a ancestralidade possui.

“as pessoas corajosas também dormem
me lembrei disso quando minha mãe cochilou
ao lado das minhas mãos batendo letras
quase esqueci”

O poema retoma as lutas das mulheres negras, que criaram suas famílias sozinhas, que buscaram por melhores condições de vida e enfrentaram enormes dificuldades em uma sociedade ainda mais cruel que a de hoje. Eliza retoma essa coragem da mãe para também colocar suas ideias no papel e levar sua mãe consigo.

Karla Alves associa a crise de imigração enfrentada atualmente com os navios negreiros e tráficos de escravos em “Ventre de ocidente”. A poeta faz uma relação com as práticas coloniais usadas durante a escravidão ao o que é feito aos imigrantes hoje, quando essa migração é fruto dessas mesmas práticas.

Frutificam Navios Negreiros
 Barrados entre fronteiras
 Que hoje não os deixam entrar

Em “A rotina do poema” Thamires P. usa da própria poesia para representar a vida de um poeta. Tirando a ideia idealizada do que se imagina ser um escritor, Thamires construiu uma narrativa onde os poetas são pessoas comuns que fazem coisas comuns. Porque ser uma poeta é viver a vida normalmente, mas tendo a especialidade de escrever sobre ela.

poetas descobrem que são
 e não se assumem
 poetas fazem outro tipo de poesia
 que nem sempre diz respeito ao poema

Essas autoras são apenas alguns destaques dos textos presentes na coletânea, mas já mostram a pluralidade presente no livro. Ainda que tratem de temas diferentes, existe um fio condutor entre os poemas. A vivência das autoras transparece por todos os textos e causa identificação nas leitoras que viveram situações parecidas.

Um lugar na mesa

Jarid Arres, autora e organizadora da coletânea Poetas Negras Brasileiras
Jarid Arres, autora e organizadora da coletânea. | foto: divulgação

Poetas Negras Brasileiras mostra como é apenas preciso que mulheres negras possuam uma chance, um lugar na mesa, para que sejam capazes de mostrar seu potencial. Na apresentação, Jarid Arraes afirma que buscou reunir diferentes estilos e abordagens, para que não fosse possível dizer que não existem mulheres negras trabalhando em todas as formas artísticas.

No livro, Jarid abre a oportunidade para que essas mulheres sejam capazes de mostrar quem elas são, suas vivências e talentos, mas também evidencia a importância da escrita para a comunidade negra. Em um país com um histórico longo de escravidão, onde a população negra era proibida de escrever e estudar, a possibilidade de colocar palavras no papel é mais do que um ato do dia a dia. Escrever se torna um ato de resistir e eternizar a história de um povo.

Poetas Negras Brasileiras abre um dos lugares nessa mesa de oportunidades que ainda precisam ser partilhadas. Ainda que falte muito, o livro mostra como o futuro de um país que admira sua diversidade pode ser bonito.

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Poetas Negras Brasileiras: uma antologia

Editora: De Cultura

Organização: Jarid Arraes

Páginas: 128

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Foto em destaque: Suad Kamardeen para Unsplash.

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Bacharel em Estudos de Mídia e mestranda em Comunicação, ama falar sobre livros, filmes e música. Acredita que escrever pode ajudar a construir uma revolução na sociedade e quer fazer parte disso.
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