Os aprendizados de Alice Walker nos jardins de sua mãe

Os aprendizados de Alice Walker nos jardins de sua mãe

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Ancestralidade é uma palavra cada vez mais comum no nosso vocabulário. Entender e admirar a importância dos feitos daqueles que vieram antes de nós é a chave para preservar a história e ter clareza dos caminhos que temos pela frente. A autora Alice Walker sempre entendeu o peso dessa palavra e o transbordou para suas histórias.

Conhecida pelo romance A Cor Púrpura, a produção de Alice Walker é grande. Entre ensaios, poesia e ficção, o tema das vivências negras é o fio condutor do trabalho da autora, que sempre foi uma ativista dos direitos civis e presenciou momentos históricos para a comunidade negra norte-americana.

As raízes de Alice Walker

Rebecca Walker e sua filha
Rebecca Walker (esquerda) e sua filha Alice Walker | reprodução

Nascida nos Estados Unidos em 1944, sendo mulher e negra, é possível dizer que a sorte não estava muito a seu favor. Ainda enfrentando a segregação racial no país, a família de Alice Walker vivia no campo, na comunidade de Eatonton, onde trabalhavam em um sistema de parceria rural. Por ser um trabalho muito mal remunerado, os irmãos de Alice costumavam ajudar seus pais na lida.

Sendo a filha mais nova entre 8, a mãe de Walker decide colocá-la na escola ao invés de levá-la para o trabalho. Esse é o primeiro acontecimento que faz a autora se aproximar do amor pelos livros. Entretanto, o principal fato que levou Alice a se apaixonar por escrever foi um acidente.

Brincando com seus irmãos mais velhos, um deles, sem querer, a atinge com uma bala de chumbo no olho. Por demorar a conseguir atendimento, Alice Walker acaba perdendo a visão desse olho e isso a leva a ficar reclusa, passando seu tempo lendo e escrevendo.

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A mãe de Alice sempre foi uma grande incentivadora de seu trabalho e a autora reflete sobre a importância de suas antepassadas no ensaio Em Busca dos Jardins de Nossas Mães, publicado em 1982. O texto discute principalmente a importância da arte criada por mulheres negras e é definido pela autora como uma obra “mulherista”. O termo veio da insatisfação de Alice com o feminismo, que não conseguia alcançar o nível diferente de opressões sofrido por ela e outras mulheres negras.

O ensaio demonstra a forma como o trabalho de Alice Walker se volta para suas raízes, na vontade de relembrar e encontrar o que se perdeu pelo caminho na história da população negra norte-americana.

As marcas da escravidão

Em Busca dos Jardins de Nossas Mães, Alice Walker

No ensaio Em Busca dos Jardins de Nossas Mães, publicado recentemente no Brasil pela editora Bazar do Tempo, Alice Walker quer mostrar que a potência artística sempre esteve na mente e no coração das mulheres negras, apesar de não ter sido percebida.

Os Estados Unidos e o Brasil passaram por processos semelhantes de escravidão de povos africanos. A abolição chegou em 1863 nas terras americanas, no Brasil só em 1888, mas isso não fez com que as condições de vida da população negra melhorassem e os problemas desses anos continuam a se refletir hoje.

A principal pergunta que Walker faz no início da ensaio é: o que significava ser uma mulher negra artista nos tempos de escravidão? As mulheres ainda enfrentam muitas barreiras no mundo da arte, mas para uma mulher negra escravizada não existia somente uma barreira. Era impossível ser artista, sem discussão.

“O que significava uma mulher negra ser uma artista no tempo de nossas avós? E no tempo de nossas bisavós? Essa é uma questão com uma resposta cruel o suficiente para estancar o sangue.”

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Dessa forma, Alice Walker traz a chocante percepção que muitos dos sofrimentos emocionais vividos por essas mulheres podem ter vindo da impossibilidade de poder liberar seus dons artísticos. Elas sentiam na pele a vontade de escrever, esculpir e pintar, no entanto, nada disso era permitido.

Isso não quer dizer que as mulheres negras desse tempo não faziam arte. Cantar, por exemplo, foi uma válvula de escape para muitos e vários ritmos surgiram a partir da criatividade da comunidade negra. O que a autora aponta é que se isso foi possível na música, é de se imaginar que as perdas em outras áreas foram enormes.

Virginia Woolf, em seu livro Um Quarto Só Para Si, escreveu que para uma mulher escrever ficção ela deve ter duas coisas, com certeza: um quarto só para si (com chave e fechadura) e dinheiro suficiente para se sustentar. O que pensar de Phillis Wheatley, uma escrava, que não possuía nem a si mesma?”

Phillis Wheatley
Retrato do século XIX de Phillis Wheatley, apresentado no jornal parisiense Revue des Colonies | Crédito: Black Perspectives

Walker cita o livro de Woolf para apontar as distâncias existentes entre as vidas das mulheres negras e brancas. Se muitas vezes as mulheres brancas tinham seu trabalho roubado por homens ou precisavam publicar seus livros com pseudônimos, as mulheres negras nem conseguiam produzir algo para que fosse roubado.

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A autora usa Phillis Wheatley como exemplo, escrava e poetisa, que teve uma morte prematura. Alice atribui a sua perda de saúde à falta de possibilidades de exercer seus dons artísticos. Ou seja, o que Walker busca é resgatar as histórias dessas mulheres para que seus esforços não sejam perdidos, ressaltando ao mesmo tempo o quanto uma mulher negra artista é revolucionária apenas pela sua existência.

Os jardins da mãe de Alice Walker

Adaptação de "A Cor Púrpura", de Alice Walker
Cena da adaptação de “A Cor Púrpura” | Imagem: reprodução

Os jardins que dão nome ao texto eram os cultivados pela mãe de Alice, no quintal de sua casa. A matriarca da família Walker tinha uma paixão pelas flores e plantas e de acordo com a filha passava horas cuidando do jardim. As flores chamavam atenção até de estranhos, que admiravam e tiravam fotos dos jardins de sua mãe.

Para a autora o que sua mãe fazia era arte, mesmo que ela não tivesse dinheiro ou fama com o seu dom. Portanto, ao reconhecer que a mãe também era uma artista, Alice mostra a importância de valorizar as mulheres que vieram antes, abrindo os caminhos, e não receberam o devido reconhecimento por isso.

Valorizar a ancestralidade é entender a importância dos conhecimentos informais carregados por mães e avós, que muitas vezes foram descartadas e desconsideradas. É perceber a importância dos atos delas no presente, como essas mulheres influenciaram as artistas de hoje e são fonte de inspiração. É ainda mais importante para as mulheres negras, pois várias não conhecem a maior parte de suas antepassadas porque tiveram as relações familiares cortadas pela escravidão.

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Autora Alice Walker
Walker no set do documentário “Alice Waler: Beauty In Truth

Acima de tudo, Alice Walker possibilita que as vozes dessas mulheres sejam ouvidas através de seus textos e suas histórias, ressaltando que a importância da arte não está no reconhecimento que ela recebe, mas sim na forma como ela toca no coração da artista.

“Guiada por minha herança de amor pela beleza e respeito pela força – em busca do jardim de minha mãe, eu achei o meu próprio. “

Vencedora do prêmio Pulitzer, Alice Walker é mais do que uma autora bem sucedida, é uma importante referência para artistas negras. Ao valorizar as experiências vividas pela população negra em suas histórias e ensaios, ela mostra que tudo o que o grupo viveu é importante e precisa ser contado, provando que escritoras negras podem ser o que quiserem, ainda que a sociedade diga o contrário.

Em Busca do Jardim de Nossas Mães é um lembrete da força e da luta das mulheres negras durante os séculos, além de um incentivo para seguir fazendo arte, mesmo com todas as dificuldades.


Edição, revisão e arte em destaque por Isabelle Simões.


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Bacharel em Estudos de Mídia e mestranda em Comunicação, ama falar sobre livros, filmes e música. Acredita que escrever pode ajudar a construir uma revolução na sociedade e quer fazer parte disso. Está sempre aberta para um bom papo no seu instagram @inesilvalvess.
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