Redemoinho em Dia Quente: a pluralidade de mulheres na obra de Jarid Arraes

Redemoinho em Dia Quente: a pluralidade de mulheres na obra de Jarid Arraes

Falar sobre Jarid Arraes é falar sobre potência. Potência criadora, que resiste e inspira. Mulher, negra, nordestina, cordelista, poeta, escritora: Jarid Arraes encanta o Brasil e o mundo com seus escritos, que em si carregam a força e a realidade das mulheres brasileiras, as lutas que travam todos os dias, e as memórias que ficam nas esquinas do corpo e as projeções para um futuro incerto em um Brasil que anda aos tropeços, mas ainda assim insiste em respirar. Resiste. Em “Redemoinho em Dia Quente“, antologia de contos lançada pelo selo Alfaguara da editora Companhia das Letras, a autora nos dá a mão e mostra seu Cariri, que diferentemente do que a mídia apresenta, vai muito além dos cactos, da secura e do calor cearense.

No Cariri de Jarid, há espaço para lojinhas de um real e seus diversos bibelôs; os cachorros de rua que espreguiçam-se nas calçadas; senhoras silenciosas e sua fé no “Padim” Padre Cícero; e, até mesmo, há espaço para a magia e o insólito que parte das relações humanas e do “eu” consigo mesmo. Jarid apresenta às leitoras e leitores as diversas facetas do Juazeiro do Norte, através da vida de mulheres que possuem muito dela mesma – e também de nós.

Em sua obra “Um Buraco com Meu Nome” (Pólen Livros, Selo Ferina, 2018), Jarid Arraes poetizou as dores, as marcas cotidianas da resistência, a angústia e as pulsões de vida e de morte que fazem a roda dos dias de milhares de mulheres brasileiras girar.

Os poemas da autora, crus e repletos de realidade, já prenunciavam o que leitoras e leitores encontrarão em “Redemoinho em Dia Quente“: partindo do título da obra, pode-se inferir muito sobre o conteúdo dos contos; o caos do redemoinho que levanta poeira embaixo de um sol quente é ponto de partida para a interpretação da terra que visitaremos ao longo dos 30 contos aqui presentes, e também versa sobre um sentimento íntimo, abrasador, caótico. “Redemoinho em Dia Quente” é o verbo, o nome, as encadeações e mudanças de suas próprias personagens, em essência.

Em entrevista ao canal no YouTube Bondelê, Jarid conta sobre o processo de criação dos contos que deram origem à obra. Escritos aos poucos, deixados descansando, sendo modificados pela própria autora, cada conto da antologia possui um valor ímpar, histórias plurais e protagonistas mulheres que sintetizam muitas das memórias que a própria autora viveu enquanto criança, adolescente e jovem adulta em Juazeiro do Norte, Ceará.

É incrível como Jarid consegue extrair o inimaginável de cada história, tornando cada conto uma grata surpresa do início ao fim e uma maravilhosa experiência. É comum, ao nos depararmos com uma antologia poética ou de contos, termos mais afinidade com um escrito ou outro, outros até mesmo passando despercebidos; no entanto, absolutamente todos os contos de “Redemoinho em Dia Quente” possuem um fôlego novo, preparam leitoras e leitores para o que está por vir e prendem-se às nossas retinas, imutáveis.

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Dividido em duas partes, “Sala das Candeias” e “Espada no Coração”, os momentos do livro são variados. Abordando temas como a fé cristã, a solidão, a saudade, a partida da terra natal, amizade, homossexualidade, machismo e, até mesmo, terrores urbanos, a autora inova e apresenta uma obra única, assim como seus demais livros (vide “Heroínas Brasileiras em 15 Cordéis” e “As Lendas de Dandara”, outras excelentes obras de Jarid). 

As mulheres reais de Jarid Arraes em “Redemoinho em Dia Quente”

As protagonistas de “Redemoinho em Dia Quente” são apresentadas com personalidades, vivências e idades variadas. Começando pelo conto que abre a antologia, “Sacola”, somos apresentadas à uma senhora muito devota de Padim Ciço, que vivendo sozinha, preenche seus dias com muita oração e tem como passatempo principal as idas à igreja.

Um dia, enquanto passa por uma feirinha, presencia um homem um tanto atarantado perder uma sacola com o que pareciam ser comprimidos de drogas. Assustada, ela age por impulso e leva a sacola para casa e, ainda mais indecisa sobre o que fazer com o pacote, acaba  por experimentar um dos comprimidos e ter alucinações com anjos e santos. Já em “Moto de Mulher”, a profissão de mototaxista, muito comum em vários estados nordestinos e predominantemente masculina, é colocada em discussão quando uma mulher inicia sua jornada de trabalho ao adquirir uma moto nova.

Em “Asa no pé”, uma cordelista reflete sobre sua paixão pela escrita em detrimento da atenção do público e, em “Gilete para peito”, uma mulher bissexual precisa lidar com a falta de apoio da família e a ânsia em se assumir para seus pares, e evoca a conhecida imagem do Sagrado Coração de Jesus e Maria para metaforizar o acolhimento que os seus familiares, mesmo dizendo viver no amor de Cristo, a negavam, e também a liberdade de estar de peito aberto para o que se é.

Todas as mulheres de “Redemoinho em Dia Quente” precisam lidar com o próprio íntimo que ecoa e transborda os corpos de meninas, moças, mulheres adultas e idosas. A escrita de Jarid foi, é e sempre será política, pois as vidas nordestinas, ainda mais de nós, mulheres, são transformadas e transformam a sociedade em que vivemos – nós existimos, resistimos, ensinamos, acalentamos os necessitados, prontas para o que quer esteja por vir. 

Ora com o peito aberto em chamas, ora com a cabeça nas nuvens, estas mulheres nos inserem em contextos comuns importantes, mas que por muitas vezes podem passar despercebidos, como as amizades de infância que se acabam em algum momento na vida e que deixam lembranças para sempre, a dificuldade que é cortar o cordão umbilical de sua própria cidade, se tudo o que a cerca e é importante, e relacionamentos inflamados de paixão que, mesmo em meio às ruínas, ainda guardam flores.

O Cariri como personagem vivo em “Redemoinho em Dia Quente”

Na obra, Jarid constrói o espaço de cada conto com muita precisão. De forma sinestésica, é possível sentir cheiros, ouvir os sons das ruas e observar as cores das casas coloridas intensificadas pelo sol forte do meio dia. Ao se referir com carinho, medo, aproximação ou, até mesmo, certo distanciamento, a autora determina caráter humano ao próprio território do Ceará que tanto conhece.

“Quero me despedir dos casarões de Juazeiro. Quero dar adeus às paredes coloridas com tintas sólidas que cegaram meus olhos. As tintas amarelas que tanto odeio. Os azuis que eram tão azuis. As tintas sincera, de crueza direta, que diziam exatamente o que queriam dizer. Os casarões de Juazeiro falavam as palavras contadas pelos números simples, os números necessários, que se bastavam.

Quero dizer adeus, quero prestar meus respeitos.” (in Despedida de Juazeiro do Norte, pág. 85)

As janelas que espiam, as velas nas procissões, o vento que faz ranger portas, a saudade que racha os pés calejados e o coração – Juazeiro, a entidade viva, que espia, com olhos ágeis, as idas e vindas de seu povo que, por mais distante que esteja, sempre viverá ali, ramificado, incrustado em suas pedras originárias.

O insólito em corações humanos

Há uma grande quantidade de contos de realismo fantástico nos quais Jarid Arraes aborda situações insólitas que derivam da convivência de suas protagonistas com outras mulheres ou consigo mesmas. No conto “Nhem Nhem”, uma garota é assombrada pela aura soturna que paira a casa da avó adoentada, da qual precisa cuidar. Já em “Os fatos dos gatos”, uma mulher, atormentada pela morte de um gato de rua, passa a receber visitas estranhas de vários felinos, conto que assemelha-se muito à atmosfera criada por Edgar Allan Poe em “O Gato Preto”.

E, um dos contos mais interessantes nesta linha de evocação ao horror e ao mistério presentes no cotidiano, “Novo elemento”, conta a história de uma mulher buscando reencontrar-se através de uma fogueira acesa na noite de São João, conto que nos transporta para uma atmosfera pagã, fazendo com que a protagonista, de formas simbólicas, transmute a si mesma, e todas as suas dores passadas, através de um ritual do fogo.

“Em nenhum momento a fogueira me queimou, ela não expulsou nada contra meu corpo. Permaneceu exuberante, adornada e orgulhosa durante toda a noite, até que as pessoas foram entrando em suas casas e abandonando as próprias fogueiras. E isso me trouxe uma facada de tristeza entre as costelas esquerdas, uma facada de raiva nas costas, um gelado de incredulidade que foi até meus olhos, embaçados, e moraram ali por alguns minutos, acompanhando as cadeiras que eram botadas para dentro, as crianças bocejando, as bombas cada vez mais espaçadas, as fogueiras que eram desprotegidas para a extinção.

Nesse engasgo, prometi à minha fogueira que a manteria viva. Ficaria com ela, alimentando o nosso fogo.”

(in Novo elemento, pág. 118)

É interessantíssimo acompanhar o quão prolífica e multifacetada a autora é. “Redemoinho em Dia Quente” é um livro predominantemente sobre memórias, mas que dentro de seu tema central consegue caminhar por diversos outros gêneros (eis mais uma das genialidades de Jarid).

Ler Jarid Arraes é estar em casa – ou viajar para lá e conhecê-la

Jarid Arraes vale-se da prosa poética para compor boa parte da narração dos contos. O lirismo, somado ao regionalismo presente na narração, assume ainda mais a identidade literária proposta no projeto da obra; estes fatores da fala e escrita nordestinas são um presente a mais para leitoras e leitores apreciarem as narrações e diálogos com a voz característica de seus habitantes. Isto somado à construção do lócus e da personalidade das personagens tornam a obra ainda mais convidativa para quem aprecia diversos gêneros literários.

A escrita de Jarid é pontual, dinâmica e permite a fluidez na leitura, tornando prazerosa toda finalização de conto (alguns possuem finais abertos para que deixem aquela conhecida sensação de algo que é capaz de lhe perseguir por muito mais tempo).

Por fim, “Redemoinho em Dia Quente” é leitura mais do que obrigatória para quem deseja conhecer ainda mais a autora e para quem se interessa pelo projeto editorial que torna visível as vidas e as experiências de diversas mulheres reais – como você e eu. Abaixo, seguem imagens da caprichadíssima edição física da obra:

Redemoinho em Dia Quente - Jarid Arraes

Redemoinho em Dia Quente - Jarid Arraes

Redemoinho em Dia Quente - Jarid Arraes

Jarid Arraes - Companhia das Letras

Redemoinho em Dia Quente - Jarid Arraes


Redemoinho em Dia Quente - Jarid ArraesRedemoinho em Dia Quente

Autora: Jarid Arraes

Alfaguara (Companhia das Letras)

148 páginas

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Edição realizada por Isabelle Simões.

Escrito por:

86 Textos

É estudante de Letras e fã incondicional de Neil Gaiman – e, parafraseando o que o próprio autor escreveu em O Oceano no Fim do Caminho, “vive nos livros mais do que em qualquer outro lugar”.
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