Uma História da Tatuagem no Brasil: imersão cultural e étnica na obra de Silvana Jeha

Uma História da Tatuagem no Brasil: imersão cultural e étnica na obra de Silvana Jeha

Lançado oficialmente no dia 13 de setembro deste ano pela Editora Veneta, a obra “Uma História da Tatuagem no Brasil”, de Silvana Jeha, é completa, cativante e nos conta os detalhes históricos e culturais da disseminação da arte de tatuar no país, contendo recortes ricos e importantes para entendermos a cultura brasileira e como a arte da tatuagem se tornou e se consolidou como é hoje.

A extensa pesquisa de Silvana Jeha

Uma História da Tatuagem no Brasil
Capa de “Uma História da Tatuagem no Brasil” (Foto: Gabriela Prado/Delirium Nerd)

Silvana inicia sua obra com uma introdução respeitosa e cheia de propriedade. Ela enfatiza as diversas notoriedades da história da tatuagem no Brasil – e não tatuagem brasileira – e as etnias e profissões que têm carga e importância no contexto.

No decorrer dos capítulos – separados por etnias, locais e atuações -, Jeha descreve de forma completa o surgimento da tatuagem, inclusive a origem de seu nome – tatuagem deriva de tatow, do termo taitiano tatau –, além de retratar como era feita e vista socialmente, e os principais símbolos cravados na pele – muitas vezes por religião ou superstição.

As declarações presentes em “Uma História da Tatuagem no Brasil” tocam e mostram que toda a – ampla – pesquisa de Silvana possui finalidade mais do que apenas político-social, mas também de transmitir emoção, delicadeza e atualidade. Sua escrita perpassa pelos primeiros tatuadores profissionais, desde marítimos e marujos até as primeiras máquinas de tatuar, surgidas no século 20, e os artistas exibicionistas.

Todas as histórias relatadas nas páginas da obra são experiências reais e, por vezes, dolorosas sobre pessoas tatuadas e como estas eram tratadas em meados do século citado anteriormente. 

Uma História da Tatuagem no Brasil - Silvana Jeha
Tatoo Lucky em foto de Jorge Butsuem no conto-reportagem “Um dia no cais”, de João Antonio, publicada na revista Realidade (Foto: Gabriela Prado/Delirium Nerd)

Matérias e recortes jornalísticos também são mostrados e abordados, afinal, Silvana fez uma vasta pesquisa para produzir sua obra – Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, Hemeroteca Digital e Museu Penitenciário Paulista foram consultados para recolhimento de dados e também foram cedidos à ela materiais do Museu Histórico Nacional, Museu de Arte Sacra de São Paulo, Arquivo Nacional, National Anthropological Archives, Museu da Tatuagem, Rijksmuseum, Rec Produtores e acervo Hélio Oitica.

Resistência, religiosidade e a ideia da tatuagem

Nos capítulos iniciais da obra de Jeha, são relatadas histórias de resistência dos marítimos e também de luta contra o nazismo e a homofobia. Esses marinheiros começaram a se tatuar por questões de superstição e também de religião. Foram eles quem disseminaram a ideia da tatuagem para o mundo – e não só para e pelo o Brasil. Nomes, corações, cruzes e iniciais eram os símbolos mais marcados na pele, que, antes das máquinas, eram feitos com três agulhas amarradas e estas eram espetadas na epiderme, formando o desenho, geralmente feito pelos próprios marinheiros. 

A leitura de “Uma História da Tatuagem no Brasil” também discorre sobre a trajetória de Knud Gregersen, o Tatoo Lucky, artista que atuou em Santos, de 1960 a 1980, como tatuador e relatou sua experiência com a arte e pessoas que tatuou. 

Folhetos de Lucky - Uma História da Tatuagem no Brasil - Silvana Jeha
Folhetos de Lucky (Foto: Gabriela Prado/Delirium Nerd)

O Museu da Tatuagem de São Paulo possui relíquias e máquinas usadas por Tatoo Lucky em sua ascensão como tatuador, e a obra contempla também narrações sobre a tatuagem e suas representações nos marujos e soldados, primeiras pessoas a serem “publicamente” tatuadas – inclusive mortos tatuados eram divulgados em fotos de notícias jornalísticas. São diversos escritores e artistas que percorreram a história da tatuagem. O autor Jorge Amado é citado na obra, com o trecho de seu livro “Mar Morto”, no qual relata o hábito de tatuar:

“Os navios têm o nome do seu porto escrito na ré, por cima das hélices. Assim os marinheiros têm o nome do seu cais no coração. Alguns mandam mesmo tatuar esse nome no peito junto com os nomes das amadas. Acontece um navio naufragar, longe do seu porto. Assim também um marinheiro morre longe do seu cais. Mas logo ele vem com Iemanjá, que sabe de onde são todos eles, ver sua gente e sua lua antes de ir correr o desconhecido.”

– trecho de “Mar Morto”, de Jorge Amado

Silvana Jeah

Silvana Jeah
Fotos: Gabriela Prado/Delirium Nerd
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A tatuagem é expressão, emoção e sentimento estampados na pele – e, por medo da não identificação em casos de morte, eram mais presentes em marinheiros e soldados -, além de patriotismo (era muito comum encontrar bandeiras tatuadas nos braços e peitos dos homens).

As revoluções de 1924 e 1930 também são citadas no livro, pois são fortes influências da arte rabiscada e também apelos à liberdade através de frases como “Hitler, vá para o inferno”.

O filme “Tatuagem“, de 2013, escrito e dirigido por Hildon Lacerda, é mencionado; ele fala sobre o amor entre um soldado e um artista nos anos 70, no Recife, e em como estes tinham que esconder tal amor por preconceito e julgamentos militares.

Cena do filme “Tatuagem”
Cena do filme “Tatuagem” (Imagem: divulgação)

Vivências étnicas no contexto da tatuagem no mundo

Em “Uma História da Tatuagem no Brasil“, Silvana ainda explica a diferenciação de tatuagem e escarificação, método de marcar a pele por tradição étnica ou religiosa – no caso das mulheres africanas, a escarificação era, por muitas vezes, realizadas pela beleza. A escravidão também entra no contexto da tatuagem e da escarificação, pois muitos escravos eram marcados para indicar posse; até mesmo crianças africanas eram escarificadas e isso é relatado de forma bem descritiva por Silvana Jeha.

Mulheres negras de diferentes regiões da África também são citadas, pois a escarificação diferenciava as tribos das quais tais mulheres eram. Algumas outras marcas, para indicar nacionalidade e pertencimento, também envolviam furos e rasgos na boca.

Mulheres negras em "Uma História da Tatuagem no Brasil"
Mulheres negras de diferentes nações (Foto: Gabriela Prado/Delirium Nerd)
Mulheres negras em "Uma História da Tatuagem no Brasil"
Foto: Gabriela Prado/Delirium Nerd

O repertório utilizado para narrar tal trecho da história da tatuagem no mundo é extenso e abrange a relação que os africanos e africanas tinham com as marcas na pele, além das antalogias, como o carimbo, por exemplo, usado para tortura e “demarcação” de posse.

“Fugido eu tô, correndo pela mata
Na pele eu levo a marca da tortura” – trecho do rap Crime bárbaro, de Rincon Sapiência

Já os portugueses, por terem povoado o Brasil como colonos e colonizadores, formavam um grande grupo de tatuados, geralmente presos e pobres – de 994 tatuados presos, 205 eram portugueses. No século 19, de acordo com as pesquisas reproduzidas por Silvana, havia aldeias portuguesas com muitas pessoas tatuadas; e as tatuagens eram chamadas de crismas, denotando cunho religioso. As tatuagens cristãs, por exemplo, eram semelhantes às já praticadas no Brasil, geralmente cruzes. 

Uma História da Tatuagem no Brasil
Adib, quando criança, teve uma cruz tatuada em sua mão (Foto: Gabriela Prado/Delirium Nerd)

Visão e julgamento sociais, principalmente sobre mulheres tatuadas

A autora da obra coloca sua etnia – libanesa – nas narrações sobre a visão dos imigrantes: geralmente eram visões negativas sobre imigrantes libaneses tatuados, pois estes eram marginalizados e desprezados. Ela também debate sobre o costume de tatuar crianças.

Outro ponto enfatizado é como as mulheres eram postas e vistas com tatuagens: se no começo da “divulgação” da tatuagem apenas as prostitutas possuíam desenhos estampados na pele, num período posterior apenas as mulheres mais ricas eram tatuadas – e sempre em locais escondidos, para “manter a pureza de uma mulher casada” (totalmente inseridas num sistema patriarcal podre que, infelizmente, ainda é atual em alguns aspectos da nossa atualidade) – ou tinham algum desenho como “identificação”, caso fossem raptadas, por exemplo.

Uma História da Tatuagem no Brasil - Silvana Jeha
Foto: Gabriela Prado/Delirium Nerd

Algumas mulheres japonesas eram tatuadas para indicar um tipo de rito de passagem, como se estivessem preparadas para a vida de casamento e construção de uma família. Em meados de 1931, já havia mulheres tatuadoras que utilizavam máquinas de tatuar, além de lojas de tatuagem na cidade de Nova Iorque. Até mesmo no quesito tatuagem o sexismo é presente, pois os homens eram representantes da virilidade, enquanto as mulheres eram sexualizadas e marginalizadas por tal escolha.

Talvez prolongar a breve análise sobre a imensa submersão de Silvana em “Uma História da Tatuagem no Brasil” seja dar spoilers e contar a história que precisa ser lida, compreendida e sentida por todos. Toda a leitura transmite originalidade e singularidade, além de uma visão histórico-cultural única e uma escrita fluida – que são bônus.

Justificada pelo contexto histórico, “Uma História da Tatuagem no Brasil” discorre mais sobre os homens tatuados, já que a tatuagem se popularizou inicialmente pelos marinheiros, que acreditavam muito na religião e no poder da marca de protegê-los de todo mal. Entretanto, todo o contexto narrado é importante para conhecermos as diversas transformações e significados da tatuagem. A obra de Silvana Jeha alimenta a sede de conhecer a cultura e como ela levou uma arte tão importante e miscigenada adiante.


Uma História da Tatuagem no Brasil

Silvana Jeha

Editora Veneta

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Edição realizada por Isabelle Simões.

Autora:

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Redatora e revisora de textos, apaixonada por língua portuguesa, jornalista de formação e curiosa nas artes gráficas. Escreve sobre terror, sci-fi e comédia e sempre tem uma garrafinha de água na mão. LGBTQIA+ e antifascista.
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