Blues for Lady Day: a vida e a voz imortal de Billie Holiday

Blues for Lady Day: a vida e a voz imortal de Billie Holiday

Blues for Lady Day: A história de Billie Holiday, do quadrinista, ilustrador e designer gráfico italiano Paolo Parisi, apresenta a difícil vida da cantora de jazz Billie Holiday, grande nome deste gênero, da sua infância até seus últimos dias. Billie é considerada a dama do jazz, e não por acaso: sua luta para afirmar-se como mulher perante um local de prestígio predominantemente masculino, sua voz incomparável e trajetória marcada por diversas cicatrizes faz dela um ícone musical que representa a luta de minorias para conseguirem um local de destaque em sociedades que não as valorizam.

“Jamais canto o blues do mesmo modo duas vezes. Nem repito o ritmo. Na primeira noite, é um pouco mais lento. Na noite seguinte, um pouco mais rápido. Depende de como eu me sinto.” (pág. 8)

Negra, pobre, mulher. Billie, também conhecida como Lady Day e, nascida na Pensilvânia (EUA), sofreu as mazelas de um mundo hostil desde a tenra idade, passando pelo abandono vindo do pai, que era músico, quando ela ainda era um bebê, e também por um abuso sexual aos dez anos, por parte de um vizinho. Ao crescer e mudar-se para Nova York com a mãe, Billie observou a situação difícil em que se encontravam e decidiu procurar emprego em um bar do Harlem. Tentando uma vaga como dançarina, Billie não obteve sucesso. Porém, ao descobrirem que a garota sabia cantar, ela estreou nos palcos e tornou-se uma das maiores cantoras de seu tempo – a menina, de grandes sonhos, chega ao topo, inclusive fazendo parcerias com Louis Armstrong e Benny Goodman. 

O quadrinho é narrado por Lady Day e cada capítulo é introduzido pelo nome de uma de suas músicas que possuem muito em comum com o que é abordado em cada trecho de sua biografia. A música, sendo ela agitada ou lenta, é equiparada ao decorrer dos dias e dos eventos que ocorreram na vida da cantora. Billie viveu tudo intensamente e utilizou a música para, além de exorcizar os fantasmas do passado, passar uma mensagem de resistência ao mundo tão cruel com ela desde criança.

Billie lutou contra a segregação racial, a qual era muito forte nos Estados Unidos da década de 50, sendo a primeira mulher negra a apresentar-se com uma banda de músicos brancos em um clube de jazz. A canção Strange Fruit denunciava o linchamento dos negros, ato absurdo que era institucionalizado na época. Outros momentos marcantes como o período da adolescência em que Billie teve de prostituir-se para ajudar a família e seu posterior envolvimento com drogas e álcool, que culminaram em sua prisão por duas vezes, também são explorados ao longo da obra.

“A condição humana nos conduz à solidão. O blues é um claro exemplo disso. Nasce da fome, da pobreza e dos corações partidos… Vozes profundas que cantam em desespero. (…)” (pág 20) 

Lady Day

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O traço do quadrinho é muito bonito e transmite fielmente a dura realidade com a qual a genial Billie teve de conviver até o fim de seus dias. O tom em preto e branco passa aos leitores a sensação de melancolia, como um blues triste que permanece ecoando no ar muito depois de seu fim (a melancolia também está presente no texto do quadrinho, repleto de reflexões profundas acerca da vida e de como a conduzimos no compasso de uma música, triste ou agitada). Ao final da obra, os leitores encontram uma lista recomendada pelo autor sobre biografias da cantora e também seus discos essenciais.

Lady Day dizia que nunca cantava um blues da mesma forma: esta fluidez de espírito, esta inconstância é o que faz dela uma cantora multifacetada e tão encantadora, com sua voz que cresce, assim como seu notório legado.


Lady DayBlues for Lady Day: A História de Billie Holiday

Paolo Parisi

Editora: Veneta

112 páginas

Tradutora: Rosane Pavam

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Autora:

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Formada em Letras, pós-graduada em Produção Editorial, tradutora, revisora textual e fã incondicional de Neil Gaiman – e, parafraseando o que o próprio autor escreveu em O Oceano no Fim do Caminho, “vive nos livros mais do que em qualquer outro lugar”.
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