Controle: nostalgia e solidão no romance de estreia de Natalia Borges Polesso

Controle: nostalgia e solidão no romance de estreia de Natalia Borges Polesso

As expectativas eram altas para o romance de Natalia Borges Polesso, uma das melhores escritoras que nosso país teve a sorte de testemunhar a ascensão na última década. Após “Amora”, “Coração à Corda” e “Recortes para Álbum de Fotografia sem Gente“, somos privilegiadas em acompanhar sua prosa única, seu estilo irreverente de encantar leitoras e leitores com o uso de palavras no que mais parece uma dança entre elas, formando um espetáculo emocionante. 

É com muito encanto e felicidade que o Delirium Nerd vem escrever sobre “Controle”, um romance que te devora. Algumas poucas horas, uma bebida de sua preferência e um clima agradável podem ser a companhia perfeita para embarcar no universo de Maria Fernanda. Deixe o seu mundo lá fora por algumas horas, e Natalia Borges vai te despertar emoções adormecidas. Ou sentimentos que sequer sabia ter. 

Espectadoras de uma tragédia solitária

Controle - Natalia Borges Polesso
Foto: Delirium Nerd

Em “Controle“, uma jovem confinada na própria solidão após descobrir o diagnóstico de epilepsia, acaba se isolando do mundo em seus fones de ouvido. A narrativa evoca sentimentos reais, e ninguém garante que em sua situação saberia lidar com tudo de modo diverso. Em algumas passagens, acaba sendo particularmente difícil a leitura. É preciso respirar fundo antes de virar a página, tamanho o poder de Polesso em transcrever emoções para as páginas impressas.

Sua primeira protagonista de romance é alguém que sofre muito e não lida com isso perfeitamente, e Natalia não demonstra intenção alguma de querer que isso seja um conto de fadas. Nanda é conflitante, não muito confiável, cheia de indagações e não se entende. Ela lembrará a leitora muito de si mesma. 

A romancista escolheu a primeira pessoa para narrar “Controle” e não poderia haver decisão mais acertada. Há um grau de intimidade no livro que é transmitido justamente por essa perspectiva intimista na mente de Maria Fernanda. Estamos ali, sentadinhas na janela de sua vida, bisbilhotando confissões, rompantes nervosos, mergulhos em tardes entediantes, presenciando eventos trágicos, dividindo lágrimas. E é como se Nanda falasse sobre seus sentimentos em voz alta, o que nos traz toda uma oportunidade única de empatia pela personagem. 

A empatia evoca uma camaradagem que torna-se chateação, raiva, indignação. E mesmo momentos onde ela vai contra nossos desejos, se demonstra uma excelente personagem, fortalecendo ainda mais o livro. Afinal de contas, qual história mais ou menos consegue nos arrancar tantas emoções?

Alienamento e agressividade em “Controle”

Capa de “Controle”. Edição da Companhia das Letras. Imagem: divulgação

Tudo começa com a epilepsia e o válido medo e desamparo de como a vida da protagonista será a partir de agora. Entre consultas médicas e conflitos de Maria Fernanda, somos levadas a conhecer mais sobre sua condição através do livro, no que soa como uma pesquisa cautelosa da escritora— e em momento algum ela se refere a epilepsia como algo que te impede de viver, ou um artifício barato narrativo, fácil de ser contornado. Durante o livro, conhecemos todo um processo e outras perspectivas que não apenas a da protagonista, mas não vamos cair no terreno do spoiler

Existe uma luta gigantesca na vida de quem vive com a condição. No caso de nossa protagonista, na beira de um rio, Nanda sentou. Ergueu-se, levou a mão até a beirada, e colocou uma pedra em sua frente para que a separasse das pessoas sentadas por ali. Não contente, pôs outra rocha. E outra. Mais uma. Quando as pedras acabaram, a correnteza continuou trazendo mais, e ela pegou todas que podia. Algumas vezes, frustrada, sequer usava mais as pedras para construir o Forte que acreditava ser impenetrável ao seu redor, agora eram usadas para atacar seus amigos. Familiares. Colegas. Desconhecidos.

Dentro de seu Castelo, havia apenas espaço para Joana. E você verá a vencedora do Jabuti por “Amora” nos levar da construção à implosão dessa Fortaleza. É uma jornada emocional não apenas de Maria Fernanda, mas de quem a acompanha e reconhece nela atitudes-espelho. “Controle” é uma grande imersão de personagem, uma catarse que desperta sentimentos silenciosos. Sentimentos normalmente escondidos. A depressão e o isolamento estão presentes no enredo e vão ter seu desenrolar bem ali, na história principal. 

O universo sensorial no mundo realístico de Natalia Borges Polesso

A riqueza de detalhes fornecida durante os parágrafos de “Controle” te faz imaginar todo o quadro do interior gaúcho (onde acontece a maior parte da saga) além de Fernanda, desvendando também um pouco dos outros personagens. Ao mesmo tempo, existe uma lucidez narrativa que nos permite capturar não apenas os sentimentos de Amanda, mas o das pessoas ao seu redor— ainda que, algumas vezes, não seja confirmado, justamente por conta de quem o narra. Perambulamos pela mente de Joana, Antônio, David, Alexandre. Contudo, essa é a história dela. A tragédia dela. A vida, a redenção, a reconstrução, o amor e o desamor. 

Conhecemos nossa protagonista ainda criança e em seu espírito de aventura. É uma moleca arteira, daquelas que corre e se suja, cai no chão, levanta e vai embora. Que prefere o ar livre do que a proteção das paredes. Junto com ela, sempre estão Antônio, David e Joana. 

Os anos e a infância continuam até a bruta interrupção— um acidente revela o diagnóstico de epilepsia. Tudo acontece numa linearidade que no livro é representada por sensações. Isto é algo bastante explorado durante as páginas e que, por consequências, desperta uma maior sensibilidade na leitora. “Controle” é uma experiência sensorial, onde seu corpo reage às emoções e conflitos da protagonista, onde as palavras se unem não apenas em poesia mas em ondas percorrendo seu corpo, arrancando diferentes reações para diferentes momentos. 

Muitas vezes, é como ler um conflito interno direto de sua mente. Outras vezes, é como levar um choque, ou sentir a força das pernas se esvair. Devemos isso à mistura de poesia, trechos de música, jogo de palavras, força na combinação delas, e a talentosa imaginação impregnada por toda a história. Assim, quando em ocasionais períodos, faz-se preciso entrar na mente de Maria Fernanda para compreender o que está acontecendo com ela.

Musicalidade e nostalgia analógica em “Controle”

Companhia das Letras
Foto: Delirium Nerd

Controle” é musica, Ian Curtis sendo o nosso segundo protagonista, ou terceiro. New Order sendo o segundo, ou terceiro. Invenção e reinvenção misturam-se na vida dos três: Maria Fernanda bem ali, ao lado dos seus ídolos. Canções são inseridas durante a narrativa e elas se encaixam em momentos adequados, fluindo junto com as emoções da protagonista, dando palavras ao que ela não sabe verbalizar. 

Existem elementos reconhecíveis em ordem cronológica por qualquer uma que nasceu entre 85-95. A sensação nostálgica é quase uma máquina do tempo levando a leitora a um determinado período correspondente em sua própria vida. Ou um estudo de época para quem nasceu após esses anos, onde a internet discada ainda era a única salvação. No interior, ela continuou sendo a melhor ferramenta por muito mais tempo, sendo que “Controle” se passa no interior gaúcho. 

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Há algo de fascinante em ler sobre o MSN, limeware, kazaa, bate-papos, símbolos da cultura pop, da música, tecnologia e elementos que fizeram parte de grupos adolescentes entre os anos 90-00. E o cuidado empregado por Natalia Borges é primoroso. O resultado disso é que a leitura do romance se mantém orgânica, nostálgica e funcional. 

Para aquelas que não conhecem bem a época, ainda assim, a linha cronológica fará todo sentido, pois a leitura dá boas resoluções de caso com a tecnologia correspondente. Como, por exemplo, namoro à distância via webcam. Personagem principal que por muito tempo consegue viver tranquilamente sem celular, dentre outros detalhes que conforme a linha do tempo muda, a tecnologia acompanha os personagens. 

E para aquelas dispostas a afundar bem no cenário, algo que pode acrescentar muito à leitura é colocar algum álbum de New Order como pano de fundo quando for adentrar o universo de “Controle“. Outras bandas também são mencionadas durante o livro e podem ser uma boa dica para quem gosta de ter companhia melódica durante seu momento literário: Titãs 84, Radiohead, Alanis Morisette e Bjork, são alguns exemplos.

O despertar romântico em “Controle”

Romance. É o romance de uma vida. Ou a descoberta dele. Construído aos poucos, nas minúcias, na cumplicidade, no amor entre pessoas que se conhecem há tantos e tantos anos. O amor cultivado por uma vida inteira, até que seu sentimento não mais cabe no peito. Até que, em dado momento de sua vida, você olha para a pessoa e ela parece diferente. Diferente no jeito de falar e andar. A boca se mexe numa lentidão que parece um desafio para os olhos. 

O tipo de amor que ata a amizade, mas, de repente, um abraço não basta para expressar sua felicidade. Talvez um beijo nos cabelos, no topo da cabeça, no canto da boca… E se a gente juntasse as pernas… Mas quem sabe sobre a rejeição? E se te perco, se te esvais entre meus dedos? Talvez o pânico te paralisa no tempo. E se meu gelo levou minha chance? E se todas essas divagações não fazem parte da mente confusa de alguém ainda descobrindo sua primeira paixão, seu primeiro amor. Alguém que precisa de primeiras experiências?  

Natalia Borges Polesso
A autora Natalia Borges Polesso. Imagem: reprodução

Natalia Borges Polesso sabe navegar entre todas essas emoções como ninguém. Cada fala, cada questionamento de Nanda toca numa ferida dos apaixonados, numa questão delicadamente humana. Borges transborda sensibilidade em sua escrita. É belíssimo acompanhar uma história romântica onde o amor ou a paixão de uma mulher para com a outra não é acessório para explorar narrativas baratas de dor. Ela tem mão sensível, dona do impacto que visualiza.

E além da habilidade em descrever os mais pessoais apegos e o desenrolar mais natural dos sentimentos, a obra ainda consegue escapar do famoso ser um romance LGBTQ+. Isso significa que a narrativa, mesmo incluindo autodescobrimento e aceitação, não gira ao redor do tópico. É um romance com, não um romance sobre

Encontrando seu caminho

Um dos inumeráveis prazeres ao embarcar em uma nova história é quando nos deparamos com uma narrativa que podemos nos identificar, não no sentido literal. Isso pode acontecer mesmo em universos mágicos, em terras de ficção científica. Precisa apenas que, dentro daquele universo, algum personagem exista e funcione de modo verossimilhante a alguma verdade que você passe. 

E isso acontece na obra lançada agora, em 2019, pela Companhia das Letras: capítulo após capítulo, durante alguma linha, a leitora pode se identificar. Ou identificar alguém. Em algumas passagens, não é de fácil digestão, mas a experiência é forte, vívida. 

Vemos um arco que vai atravessar cerca de vinte anos na vida da personagem ao centro, então, basicamente, todas as idades podem se encontrar. Alguns conflitos em especial aparecem com maior força, como o de encontrar o seu lugar. Na sociedade, em termos profissionais, alguns usam o termo late bloomer para aqueles como Nanda (late bloomer, que demora a florescer). Um late bloomer pode ser alguém que demora, em termos emocionais ou em sua capacidade profissional, entre seus 20-30 anos, pelos mais variados motivos. 

Esse termo, aliás, mais parece algo criado para pressionar ou “explicar” o simples fato de que uma nova geração nunca funciona como uma cópia de carbono da anterior. E é essa pressão do mundo que recai sobre muitos nessa faixa etária, que acabam com medo de se reinventar ou inventar, comprando o absurdo de que é tarde demais, quando nunca é tarde demais. Obviamente, para cada indivíduo vem uma carga diferente de responsabilidades que vai interferir em sua vida, mas lembre-se que: não é tarde demais. 

Divagações de lado, durante “Controle“, tomar as rédeas da própria vida sempre foi algo que Maria Fernanda fez até demais: Controle emocional ao extremo, cruzando as fronteiras do saudável. Sua aventura é a de desfazer as amarras invisíveis e lembrar que não é tarde demais para viver. Tentar lembrar que não existe linha de partida ou chegada, apenas sonhos abandonados, transformados ou esquecidos. 

Por fim, com a leitura de “Controle” esperamos que uma chama se acenda, um sonho seja relembrado, ou ao menos, uma música dos anos 90 (re)descoberta! O livro é um emocionante romance que solidifica Natalia Borges Polesso como uma de nossas melhores representantes na literatura nacional contemporânea.


Controle - Natalia Borges PolessoControle

Natalia Borges Polesso

Companhia das Letras

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Edição realizada por Isabelle Simões.

Escrito por:

Escrevo onde meu coração me leva. Apaixonada pelo poder das palavras, tentando conquistar meu espaço nesse mundo, uma frase de cada vez.
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