Amora: amor e resistência de mulheres lésbicas na obra de Natalia Borges

Amora: amor e resistência de mulheres lésbicas na obra de Natalia Borges

Amora é um livro de contos com mulheres lésbicas e protagonistas em todas as histórias. Além de falar sobre relação lésbica, o livro traz diversos estágios e momentos vivenciados por mulheres lésbicas, discutindo abertamente sobre lesbianidade. Amora também tem um brilho a mais, que dificilmente encontramos em livros na literatura LGBT. Temos quase um “padrão” de personagens: uma já possuía sua sexualidade bem definida; enquanto outra personagem ainda iria ou estava se descobrindo. 

Em Amora, a autora Natalia Borges Polesso consegue inserir personagens que estão se descobrindo, mas também mulheres lésbicas que passam pelo término de uma relação; e dentre tantos outros assuntos, mulheres lésbicas que estão vivenciando a velhice. Isto é, Amora abarca uma gama de momentos da vida. Natalia ainda foi a ganhadora do Prêmio Jabuti de 2016.

Amora

O livro

Amora consegue nos transportar para o universo mais íntimo das relações lésbicas, mostrando desde as emoções de um relacionamento entre mulheres, à dor da perda, do esquecimento e também da resistência. Amora é uma leitura que nos convida a aprofundar em nosso interior, ora acontecendo uma identificação com as personagens, ora enxergando na dor alheia um sentimento empático, onde não necessariamente precisa-se ser uma mulher lésbica para conseguir entender toda a violência da negação de existência à qual as mulheres lésbicas estão sujeitas. E é justamente nesse ponto que Natalia acerta em cheio.

A escritora traz sua escrita marcada pelo protagonismo de mulheres, mulheres lésbicas que mesmo sendo assumidas ainda são invisibilizadas pela “família” e sociedade cotidianamente. Sabemos que a visibilidade lésbica é um tema que ainda precisa de muito avanço, pois diversas mulheres lésbicas são negadas todos os dias. Ao pensarmos em qual é o “lugar” da mulher lésbica na sociedade, ficamos sem resposta.

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Enquanto que para o homem gay existem locais de maior aceitação, como por exemplo, todo mundo quer que seu cabeleireiro seja gay, mulheres héteros querem ter um BFF gay, mas e qual é o espaço onde a mulher lésbica é aceita? Nesse local de não aceitação e não reconhecimento, onde a própria integridade consegue ser violada (a Valerie, de V de Vingança, entendeu bem isso) a mulher lésbica existindo já é uma prova de resistência. E é justamente por isso que precisamos de mais livros com temática lésbica, filmes (que não possuam fetichismo) e músicas onde lésbicas possam protagonizar sua própria história e vida. Amora é um livro que consegue representar todo o terreno de afetividade presente em um relacionamento entre mulheres.

Botinas

K era uma lésbica comum, que assim como tantas, estava em constante sofrimento psicológico devido às mais diversas esferas da lesbofobia em uma sociedade heteronormativa. Porém, K não aguentava mais tanta dor e decide se suicidar.

Nesse conto, acompanhamos a história de que cometeu suicídio para dar fim ao seu sofrimento. O suicídio é um tema retratado geralmente com tabu, ou então é um tema que não é dito. Ninguém conversa, como se ele não existisse ou fosse um pecado. O que de fato ocorre é que as pessoas cometem suicídio, sim, e esse assunto precisa ocupar um espaço nas agendas públicas para ser visto e tratado enquanto uma questão de saúde mental.

A série 13 reasons why mostrou que “ninguém se mata por que quer”, o suicídio é entendido enquanto a última opção após um intenso processo de sofrimento, onde diversas pessoas não conseguem mais suportar tanta dor. Diversas pesquisas já conseguiram comprovar que existem grupos com uma maior taxa de suicídio equiparadas à sociedade como um todo. Pessoas LGBT por sofrerem cotidianamente com a discriminação sexual “encontram” muitas vezes a “solução” na retirada de suas próprias vidas. Jovens gays apanhando dentro de casa, mulheres lésbicas sendo estupradas pelo próprio pai, tio ou avô, pessoas transexuais sendo expulsas de suas casas e por aí vai… A lista de violências praticada contra a comunidade LGBT é enorme.

“Botinas retrata que o suicídio provocado por pessoas LGBT tem raízes diretamente ligadas à homofobia.

“- E sabe o que, Fran? É assim que eu me sinto. Completamente desfigurada. Cheia de feridas pesadas, nojentas que não vão curar. E vão causar sempre essa sensação de repulsa. Minha. Nem abraço nem toque nem nada reconforta, porque o que eu sinto é nojo. Quando alguém me encosta, eu tenho medo e nojo. Vou sujar a pessoa com meu pus e ela vai deixar que minhas feridas infeccionem. ”

Marília acorda

“Marília acorda” é um dos contos presentes em Amora. Nessa história encontramos uma representatividade lésbica que é pouco ou nada explorada na literatura ou em qualquer outro meio: a velhice vivenciada por mulheres lésbicas. Nesse conto, a escritora aborda como o envelhecimento é ainda mais cruel quando duas mulheres se amam.

“Agora ela me ajuda a tomar banho. Lava minhas costas com suas mãos desajeitadas. Parece que ainda tem vergonha dos nossos corpos. Ou é mesmo esse acanhamento novo tão velho. Passa xampu na minha cabeça três vezes e eu sinto que tem algo errado, mas não digo nada. Eu tenho medo. É justo que eu tenha medo. Mas não é justo que mostre isso para ela. Marília é medrosa, parece dura, mas morre de medo. Eu morro de medo ainda e de novo e todos os dias rezo para que morramos juntas, porque eu não vou suportar ficar sozinha, nem ela. ”

Acompanhamos Marília e sua companheira – cujo nome não é revelado, pois é ela quem narra – duas senhoras idosas abandonadas e esquecidas do mundo. Nossa narradora descreve sua rotina com Marília, como são seus dias, o que fazem e o seu cotidiano. Duas velhas estranhas moram ali é dessa forma que ficará o legado de amor dessas duas mulheres.

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Sabemos que os direitos para a comunidade LGBT aqui no Brasil ainda precisam avançar muito, ainda mais se tratando de gerontologia LGBT. Acompanhamos asilos lgbtfóbicos que não conseguem cuidar ou tratar de lésbicas, gays, travestis e transexuais. Ou então observamos pessoas LGBT’s que não possuem nenhum suporte familiar e são esquecidas de qualquer convívio.

Natália Borges coloca em “Marília acorda” o sofrimento de perda presente em um relacionamento lésbico de duas senhoras, onde ambas possuem apenas uma a outra para se apoiar. Além do não reconhecimento enquanto relacionamento afetivo, ainda existe a solidão e abandono familiar decorrente da discriminação sexual, pautada em determinada orientação sexual.

“Amora estava muito contente. As duas dividiam vitórias, tabuleiros e fones de ouvido, Amora segurava na mão imaginária de Angélica, enquanto na hora do recreio deitavam sob uma jabuticabeira. Ambas sentiam todas aquelas coisas que não teriam nomes, todos aqueles movimentos dentro. ”

Mas afinal, Amora é um livro sobre o que? É um livro de amor e resistência, especialmente feito para todas as mulheres lésbicas que amam e existem. Um livro de identificação e também de inclusão, onde não existe um “padrão” de mulher lésbica ou de relacionamento lésbico, aqui encontramos a lesbianidade enquanto uma esfera afetiva entre mulheres, permeada de diferenças e dificuldades, assim como é na vida.

Sobre a autora

Natalia Borges Polesso é escritora, professora e tradutora, nascida em Bento Gonçalves e radicada em Caxias do Sul. Mestre em Letras, Cultura e Regionalidade, com uma dissertação sobre a obra de Tânia Faillace, pela UCS e Doutora em Teoria da Literatura na PUCRS, publicou em 2015 o livro de poesia Coração à corda, pela editora Patuá. Em 2016 publicou Recortes para álbum de fotografia sem gente (editora Modelo de Nuvem), obra vencedora do prêmio Açorianos 2013 na categoria contos. Também é autora da tirinha A escritora incompreendida, publicada apenas na internet. Em 2016, com apenas 35 anos de idade, conquistou o Prêmio Jabuti pelo livro de contos Amora, publicado pela Não Editora.


AmoraAmora

Autora: Natalia Borges Polesse

Não Editora

256 páginas

Livro cedido pela editora para resenha

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Autora:

27 textos

Feminista e estudante de serviço social. Ama Star Wars e é viciada em gatos. Adora conversar sobre gênero e brinca de ser gamer nas horas vagas. Nunca superou o fim de The Smiths.
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