Priscilla, a Rainha do Deserto: identidade e performance!

Priscilla, a Rainha do Deserto: identidade e performance!

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Priscilla, a Rainha do Deserto é um filme australiano lançado em 1994 e dirigido por Stephan Elliott. Após a crise pela qual o movimento LGBT passou com a epidemia da AIDS nos anos 80, a década seguinte viu o surgimento de filmes com propostas menos sensacionalistas sobre essa temática, caracterizando o New Queer Cinema. Em vez de negar a representação estereotipada em favor de uma imagem “normalizada” de pessoas queer, esse período do cinema passou a refletir uma pluralidade de representações, sem negar ou esconder as que reforçam o estereótipo. O comportamento afetado ganha tanto espaço quanto o sem afetação, também em resposta contra uma visão masculinizada de que o lado “feminino” está sempre ligado a passividade e submissão.

Um dos elementos mais recorrentes no cinema americano para marcar a diferença entre os gêneros era o uso do travestismo. Desde os filmes de Chaplin até as mais recentes produções cinematográficas, a imagem de um gênero que incorpora uma apresentação do outro rendeu vários roteiros, indo das comédias aos dramas. No cinema queer dos anos 80 e 90, o tema travestismo deixou o caráter da comicidade e passou a ser tratado dentro dos dramas pessoais, agora com mulheres também participando da encenação dos gêneros.

Vários filmes apresentavam abordagens similares sobre os personagens travestidos, a partir de uma identidade oculta, não revelada. A ambiguidade do gênero e da sexualidade acabava sempre em proporções trágicas quando o gênero “real” era descoberto. A partir daí o resultado gerava violência, intolerância e punição, provocada pela tensão discursiva sobre uma única “verdade” sobre os gêneros. Isso já não acontece em Priscilla, na medida em que as personagens, na maioria das vezes, não precisam mais se esconder, tampouco assumir uma única identidade “verdadeira”.

Priscilla, a Rainha do Deserto é um road movie em que duas drag queens e uma mulher trans saem de Sydney em direção ao interior da Austrália para realizar um show. A viagem representa, como na maioria dos road movies, um processo de transformação pelo qual passam as personagens. Tick e Adam, com suas respectivas identidades drag, “Mitzi” e “Felicia”, se juntam a Bernadette e passam por diversas aventuras, encontrando pessoas amigáveis e hostis, se perdendo no deserto, e conhecendo melhor seu país ao mesmo tempo em que descobrem a si mesmas.

Priscilla

O uso da comédia é constante no filme. Diversas cenas são pensadas para despertar risadas a partir dos atos exagerados das três com seu humor auto-depreciativo. À mesma medida que isso pode reforçar o estereótipo criado pela visão heteronormativa discriminatória, sempre retratando LGBTs como espalhafatosos, as piadas também servem aqui como uma estratégia para mostrar uma dimensão da vivência LGBT que esteve suprimida historicamente.

Consiste numa ação afirmativa que, de acordo com o filme, contempla pessoas queer como elas são, falam e agem em seu cotidiano. Nesse sentido, as piadas, caricaturas e exageros tem o objetivo de transformar a realidade numa simulação da vida como espetáculo. Reiterada pela estética camp presente no filme, essa atitude afirmativa combina também o kitsh e a cultura pop, evidenciados pelo elaborado figurino e também pela trilha sonora, que abunda ABBA, Gloria Gaynor, e outros ícones pop dos anos 70, 80 e 90.

O caráter fluido que a performance drag propicia é comumente visto como subversão aos rígidos padrões de gênero impostos pela cultura ocidental. Porém, a performance drag ocupa uma posição ambivalente nesse sentido, podendo ser usada tanto como desnaturalização quanto reafirmação dos papeis de gênero. Isso se dá, em um campo extra-fílmico, pela escalação do elenco principal: Hugo Weaving, Terrence Stamp e Guy Pearce, atores cis e heterossexuais, famosos por papeis tradicionalmente masculinos no cinema.

Ao mesmo tempo que pode ser revigorante desconstruir a representação do “macho” que eles sempre corporificaram, o conhecimento prévio da carreira desses atores no imaginário popular reforça o caráter performático de seus papeis respectivos como Mitzi, Bernadette e Felícia. O espectador sabe que eles estão atuando, que tudo é uma encenação. Não é muito diferente de períodos como o Carnaval, em que homens cis heterossexuais se permitem usar roupas de mulher para fantasiar uma caricatura do gênero feminino. Isso não significa que esses homens se tornaram menos transfóbicos ou machistas em suas vidas cotidianas. É tudo parte de um espetáculo, uma brincadeira performática, que acaba reforçando os papeis e estereótipos de gênero sem realmente desafiá-los.

A verdadeira subversão está no campo intra-fílmico, na apresentação das protagonistas como personagens desenvolvidas e complexas. Mitzi, Felicia e Bernadette possuem personalidades distintas, com motivações e desejos próprios, e histórias pregressas com diferentes experiências pelas quais passaram, o que contribui para humanizá-las e afastá-las dos arquétipos redutores aos quais essas personagens costumam ser associadas.

Priscilla retrata suas três protagonistas como heroínas. Não estão mais na posição de vítimas, dignas de pena e com destino trágico; ou de vilãs, temíveis e cruéis, como era costumeiro retratar pessoas queer em épocas anteriores no cinema. Aqui as três saem vivas e melhor do que começaram.

Priscilla

Entretanto, Priscilla não nega as implicâncias de sua situação no mundo real. Há cenas em que sofrem discriminação, como quando Felícia vai de encontro a um grupo de homens, que, quando descobrem que não se trata de uma mulher cis, agem com violência. A trilha sonora nesse momento enfatiza que a cena é de tensão e perigo, e não cômica. Ou na cena em que as três acordam e veem seu ônibus pichado com frases de ódio e preconceito. “Por mais durão que eu ache que estou ficando, essas coisas ainda machucam”, diz Tick.

Porém, mesmo nessas duas cenas há vitórias simbólicas. Na cena do ataque contra Felícia, Bernadete aparece e bate em um dos agressores, afugentando os demais. Após a cena da pichação, elas pintam o ônibus de rosa, reforçando afirmativamente a simbologia de exagero e afetação que carregam, além de apagar a marca do preconceito.

Priscilla

A mensagem final de Priscilla é conciliadora, de aceitação e de naturalização da identidade das três protagonistas. Mas o mesmo não pode ser dito em relação a outras personagens, principalmente mulheres e pessoas indígenas, relegadas ao papel do “outro”. Das três mulheres cis que aparecem no filme, duas são mostradas como competidoras das protagonistas.

Numa das primeiras cidades do interior em que chegam, as três vão montadas de drag a um bar local e são recebidas rispidamente por uma mulher que se veste com uma aparência masculinizada. Para se defender, Bernadette a ataca com ofensas diretamente direcionadas a seu gênero e a sua suposta pouca atratividade, o que desperta o riso de todos os clientes do bar, ridicularizando a mulher. Mais tarde, Bernadette a vence num jogo de tolerância alcoólica, colocando a mulher “no seu lugar”.

Mais à frente na trama, as protagonistas encontram o simpático mecânico Bob e sua esposa Cynthia, uma filipina que, além de falar mal o inglês de uma forma caricatural, é o tempo todo silenciada e reprimida por seu marido. Além disso, quando ela fala em sua língua nativa, suas palavras não são sequer traduzidas numa legenda, sendo esse um dos recursos que filmes mais utilizam para exotificar os personagens estrangeiros.

Não bastasse tudo isso, ela rouba a atenção num bar, onde as protagonistas apresentavam seu show de drag. Cynthia interrompe e começa a apresentar um show erótico, para o deleite do público exclusivamente masculino do local, até que Bob chega e a retira do palco à força. Felizmente, ela acaba o deixando, dizendo que ele não era um bom marido. Entretanto, o filme caracteriza Bob como um homem gentil e educado, enquanto Cynthia é retratada como a louca inconveniente.

Priscilla

Quando as protagonistas estão perdidas no deserto, aparece um grupo aborígene, que acaba cumprindo apenas uma função decorativa no filme, como que ajudando a compor o cenário australiano. Além de ter uma curta duração, insuficiente para que os personagens ali tenham alguma importância na estória, a aparição desse grupo não causa nenhuma reflexão sobre a questão colonialista na Austrália. A maioria dos aborígenes entra mudo e sai calado, salvo um que possui algumas falas e que acaba participando do show de drag.

Nessas cenas com Cynthia e os aborígenes, as três protagonistas são representadas como o símbolo da civilização branca, que se espanta com as diferenças. O papel da minoria discriminada, onde elas antes se encontravam, se inverte. Com Cynthia, a reação é de estranheza, exotificando os imigrantes recentes da Ásia e os colocando como deslocados em relação aos colonizadores de origem europeia. Com os aborígenes, a cena é de conciliação e acolhimento, apagando os vestígios de conflitos históricos que marcaram a colonização inglesa do país, como se tudo já estivesse resolvido, mas sem ter que torná-los personagens importantes e significativos na estória. 

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Apesar dessas questões que passam não examinadas sobre privilégio, raça e gênero, Priscilla é um filme alto astral, com boas lições sobre tolerância, respeito e aceitação, sem esconder os problemas reais que as protagonistas precisam enfrentar. Abraçando toda a pompa e brilho do mundo drag, o filme ainda conta com memoráveis performances no topo de montanhas e em cima de ônibus, além dos inesquecíveis shows de imitação do ABBA, que ajudaram a tornar este filme tão cultuado no mundo todo.


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Cineasta, musicista e apaixonada por astronomia. Formada em Audiovisual, faz de tudo um pouco no cinema, mas sua paixão é direção de atores. Vocalista da banda Noite e compositora nas horas vagas. Também escreve sobre cinema em seu site Cine Medusa.
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