[OPINIÃO] Queremos lésbicas felizes: Um olhar crítico sobre a representação de personagens lésbicas

[OPINIÃO] Queremos lésbicas felizes: Um olhar crítico sobre a representação de personagens lésbicas

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Quando eu era criança pequena, lá perto de Barbacena (uma pequena cidade chamada Ibertioga, em Minas Gerais), eu tinha uma revolta muito grande dentro de mim: por que nunca passava filme nenhum com uma mulher protagonista? O caso era grave. Na minha cidade não havia cinema e só uma antena de televisão oferecia o sinal da Rede Globo, nenhuma outra emissora de televisão. Então, logicamente, eu tinha apenas as opções oferecidas na Sessão da Tarde, na Tela Quente e no Supercine, isso quando podia ver televisão até mais tarde. Sabe como é. O povo na roça gosta de dormir cedo.

Minhas heroínas eram “A Mulher Biônica” (1976-1978), “A Mulher Maravilha” (1975-1979), “A Dama de Ouro” (1985-1986), “Alien, o oitavo passageiro” (1979), “Nikita, Dura de Matar” (1990), “As Panteras” (1976-1981) e “Xena, a princesa guerreira” (1995-2001).

Não consigo me lembrar de nenhum outro filme, nem nenhuma outra série. E fui dar uma olhada na internet. Não tem mesmo muito mais protagonistas que estas por aquelas épocas. Eu ficava realmente irritada quando via as mulheres nos filmes sempre sendo salvas pelos mocinhos corajosos ou sendo apenas uma pacata dona de casa ou uma conquistadora cruel, uma mulher muito sexualizada. Nada contra esses personagens, mas as histórias sempre eram (e muitas vezes ainda são) contadas apenas de uma forma.

Por esse e outro motivos, muitas vezes, eu tive vergonha de ser mulher e nunca quis me interessar, quando menina, por nada que tivesse ligação com o feminino. Nada da aprender tarefas domésticas, cozinhar, usar maquiagem e roupas típicas de meninas, como saias e a cor rosa. Em relação a filmes com pessoas homossexuais, era pior ainda. Nos poucos que vi, as lésbicas sempre morriam no final ou se suicidavam ou eram retratadas como loucas. Os gays também não ficavam atrás, só coisas ruins.

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Xena, na série “Xena: A Princesa Guerreira”, 1995 (Reprodução)

Ainda demorou muito tempo depois de crescidinha pra eu descobrir que essas indagações e indignações não eram apenas minhas. Muitas mulheres, em diferentes lugares do mundo, tinham pensado o mesmo, sentido o mesmo e estavam fazendo algo pra que isso mudasse.

Laura Mulvey teve um papel fundamental na crítica feita logo no começo dos anos 70 (veja como tardamos, o cinema começou em 1895) em relação ao papel que a mulher desempenhava diante das câmeras: era apenas alguém pra ser vista, objeto passivo da mirada masculina. Não era um sujeito ativo. Essa percepción derivada de teorias da psicoanálise teve um forte impacto no pensamento feminista, que tomava força em vários setores nessa mesma época.

O primeiro passo da crítica feminista à representação feminina foi denunciar os estereótipos (aqueles que me incomodavam na infância, mas, eu não sabia que chamavam assim): putas, caça fortunas, fofoqueiras, virgens, esposas dedicadas, donas de casa felizes…

A representação feminina sempre era estigmatizada por um lado ou pro outro. A saída do pensamento feminino foi recuperar o cinema feito por mulheres, desde pioneiras, como Alice Guy, a diretoras mais atuais como Chantal Akerman ou Agnès Varda.

Essa seria a forma de representar o desejo feminino, colocar a mulher como sujeito ativo. Também passou pelo momento de reivindicação do olhar feminino. Quando a senhora Mulvey diz o cinema clássico propõe um olhar masculino, significa que o homem é o detentor das narrativas, e as mulheres são obrigadas a identificar-se com essa mirada. O resultado é que as mulheres têm uma posição passiva e não é mais que um objeto no caminho do herói.

A crítica feminista sobre a representação das mulheres também promove outros olhares e aproxima-se dos estudos homossexuais e queer. É aí que entra outra das grandes filósofas que criam uma nova forma de olhar o cinema (e a sociedade de um modo geral).

Judith Butler propõe que as identidades sexuais não são fixas e podem mudar durante a vida da pessoa. Por isso, a importância também de destruir as dicotomias de controle sexual, como homem/mulher, hetero/homo.

Para ela e a teoria queer, o gênero é uma construção social (como já dizia nosso amigo Michel Foucault) baseado em uma performance, ou seja, as pessoas atuam socialmente, como se a vida fosse um teatro. Isso quer dizer que uma pessoa que nasce mulher, (ou bio-mulher) para ser considerada uma “mulher de verdade”, deve repetir uma série de comportamentos considerados femininos. O mesmo vale para o homens. Quem não repete ou não atua de acordo com esses comportamentos está fora do que é aceito e passa a ser marginalizado/a.

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A utilização da teoria queer para análises cinematográficas vai além das críticas feministas, ao dizer que o cinema não é apenas um terreno masculino. É também um terreno heterossexual. Facilmente, encontram-se os estereótipos homossexuais no cinema, como o gay engraçado, o psicopata, o complexado, a lésbica louca e/ou suicida.

Aqui, um trabalho crítico importante é o de Richard Dyer, que vai além de identificar estereótipos e analisa como estes tipos de personagens são usados para normatizar o heterossexualismo, ou seja, quem vê esses personagens no cinema não quer identificar-se com eles, porque são repulsivos ou exageradamente sofredores. A audiência heterossexual, por sua parte, tem reforçado os estereótipos com os quais já convivem e concluem: ser gay/lésbica não é legal.

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Série “The L Word” (Reprodução)

No entanto, existe uma luz no fim do túnel, há esperança na humanidade cinematográfica. Pesquisas atuais desenvolvidas na Espanha comprovam que a  identificação com os personagens, a empatia, o desfrute ao ver filmes, o aprendizado a partir do que entende-se da narrativa, não depende do gênero do/a espectador/a.

Isso significa, por exemplo, que os homens e/ou mulheres (hétero ou homo) que assistem a um filme com protagonistas lésbicas sentem identificação, desde que esses personagens sejam mostrados de uma forma positiva (com qualidades e virtudes). Isso vai além no sentido de que essas pesquisas recomendam os filmes com temáticas homossexuais para o circuito comercial de cinema e/ou a televisão aberta, já que é provável que a audiência responda positivamente.

Por fim, poderia dizer-se que a representação positiva das minorias pode reduzir preconceitos e facilitar a própria aceitação individual. Temos que seguir aprofundando sobre o assunto e lutando pra que mais pessoas conheçam as histórias de bravura dos grupos minoritários. Assim, evitaremos o perigo de contar sempre a mesma história e as consequências de isso, como já advertiu a escritora nigeriana Chimamanda Ngozie Adichie.

Fontes:
  1. Adichie, Chimamanda (2009). O perigo de uma única história. TEDGlobal.
  2. Ibiti, Adriana (2013). ¿Qué le gusta a la audiencia lesbiana?. Revista Orbis, 24(8), 15-35. Disponible en www.revistaorbis.org.ve.
  3. Ibiti, Adriana (2015). La crítica queer en la representación mediática de la homosexualidad. In, Isabel Verdet y Yolanda Onghena, (Eds). En tránsito: Voces, acciones y reacciones (pp. 61-79) CIDOB: Barcelona.
  4. Carvalho, Adriana (2016). Influencia de la moralidad en la apreciación, percepción de realismo y disfrute de las narrativas sobre lesbianas. Tese doutoral. UAB: Barcelona.
  5. Labayen, Miguel Fernández (2008) Pensar el cine. Un repaso histórico de las teorías cinematográficas. Portal de la Comunicación. InCom – UAB. Recuperado de http://www.portalcomunicacion.com/lecciones_det.asp?id=39
  6. Mulvey, Laura. (1991). “Prazer visual e cinema narrativo (1975)”. In: XAVIER, I. (org.).
  7. A experiência do cinema. 2- ed. Rio de Janeiro: Graal.
  8. Soto-Sanfiel, María Teresa., Ibiti, Adriana, y Palencia Villa, Rosa María. (2014). La identificación con personajes de lesbianas: Recepción de audiencias heterosexuales y homosexuales desde una aproximación metodológica mixta. Revista Latina de Comunicación Social, 69,275-306.
  9. Soto-Sanfiel, María Teresa., Palencia Villa, Rosa María, e Ibiti, Adriana. (2014). The role of sexual orientation and gender in the appreciation of lesbian narratives. InMedia, 5

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Apaixonada por tudo relacionado ao cinema e ao audiovisual. Gosta principalmente de ver mulheres fortes e felizes nas telonas e nas telinhas. Por isso, depois de trabalhar muitos anos em televisão, decidiu estudar mais sobre o assunto e fez um doutorado no tema pra ajudar na reflexão do papel da mulher no cinema, e poder dividir opiniões e pensamentos com mais apaixonadas/os como ela.
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