Este é o Mar: mitologia, representatividades femininas e rock ‘n roll

Este é o Mar: mitologia, representatividades femininas e rock ‘n roll

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Na mais nova novela de Mariana Enriquez, “Este é o Mar”, traduzida por Elisa Menezes, somos apresentadas ao mundo do rock sob um viés mitológico: as Luminosas, criaturas ancestrais que encarnam deusas e seres mágicos, são encarregadas de criar grandes lendas do rock, como Kurt Cobain e Jim Morrison. Para tanto, o Enxame, formado por deusas ainda em ascensão, acompanha os fãs de músicos famosos, transmitem a eles toda a sua devoção e se alimentam da energia que adolescentes do mundo todo emanam para aqueles que amam.

É neste contexto que acompanhamos Helena, uma jovem criatura que faz parte do Enxame e que sonha um dia tornar-se Luminosa. Em “Este é o Mar“, ela acompanha os passos de James, vocalista da banda Fallen, desde muito tempo, a fim de torná-lo uma Lenda como os outros gigantes do rock, como Kurt Cobain, Jim Morrison e Jimmy Hendrix. Quando finalmente consegue fazê-lo extremamente famoso, Helena passa a trabalhar para que o status de Lenda aconteça e ela venha a ganhar todo o conforto que as Luminosas possuem; porém, nada acontece sem um preço a ser pago: James precisa morrer, assim como os outros, para também tornar-se imortal no hall da fama.

No livro, a natureza das Luminosas não permite que sintam remorso, dor, pena ou qualquer sentimento vinculado aos humanos, mas aos poucos Helena notará que algo diferente começa a modificar suas próprias convicções, algo que até então parecia impossível e adormecido.

“Este é o Mar”e Mariana Enriquez na FLIP 2019

Na mesa Santo Antônio da Glória da Flip de 2019, a qual Mariana dividiu com o escritor brasileiro Braulio Tavares, ela justifica que o plot da obra vem da sua própria experiência como fã de bandas de rock e também por observar adolescentes e seu fervor quase religioso acompanhando bandas de sucesso.

Para Mariana, toda a movimentação que meninas e meninos fazem para estarem presentes e acompanharem 24 horas por dia a vida de seus ídolos, seja ao vivo ou pela internet, funciona como ritos pagãos; sacrifícios que antes eram de sangue, agora se desvelam através de likes, streamings de vídeos e músicas, consumismo e atenção exacerbada – o que não difere do que todos os dias vivemos ou vemos na mídia.

Para os fãs de Neil Gaiman e de sua obra “Deuses Americanos”, “Este é o Mar” possui uma visão muito parecida à da obra do autor britânico, refletindo a dinâmica entre deuses e sociedade; coexistindo com a humanidade e, ainda mais, existindo por conta deles, a obra de Mariana fala sobre o poder de criação dos humanos, sobretudo das mulheres, ainda mais se tratando da forte ancestralidade feminina presente ao longo do livro.

Na obra de Henriquez, há uma pluralidade de deusas, vindas de diversas culturas, relacionando-se, apoiando-se e ensinando à Helena que nem tudo na jornada das Luminosas é fácil; a protagonista precisará passar por muitas provações, divinas ou humanas, no intuito de tentar concluir sua missão.

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Deusas, sereias, ninfas… e muito mais!

As personagens femininas citadas por Mariana em “Este é o Mar” vêm de diversas partes do mundo, pertencendo, também, às suas respectivas mitologias. Helena é descrita como possuidora de uma voz muito doce e cativante, que tem como função seduzir jovens para que devotem seus mais íntimos pensamentos e ações aos músicos, estes, por consequência, também acompanhados pela personagem, tendo suas vidas elevadas ao mais alto patamar do exibicionismo e glória.

No livro, Helena assemelha-se às sereias, presentes em diversas mitologias, uma vez que a dinâmica entre elas e os humanos lembra muito as descritas nas histórias dos seres marinhos que atraiam a atenção de navegantes para a iminente ruína. Perséfone, deusa grega dos frutos, perfumes e flores, que reina ao lado de Hades no submundo, as Imago, descrita por Mariana como seres que vivem “escondidas entre aranhas em lugares secos e escuros, a quem não se devia olhar nos olhos” e também Hécate, chamada por todas de mãe Hécate, a deusa tríplice grega relacionada à bruxaria.

“A mulher carregava uma tocha em uma das mãos, por isso havia tanta luz. (…) No Enxame, a mãe Hécate era um nome misterioso, anunciado com certa dúvida sobre sua existência, mas com uma firmeza supersticiosa.”

(Este é o Mar – pág. 104)

As funções poéticas das águas em “Este é o Mar”

Ao longo de toda a obra de Mariana Enriquez, o mar se faz presente, influenciando e perturbando Helena; ele funciona dentro da narrativa como uma personagem quase de carne e osso. A conexão que as Luminosas possuem com as águas é sentimental e carregada de familiaridade, uma vez que é para a costa marítima que todas elas, segundo relata umas das personagens, tiveram que correr ao terem suas existências ameaçadas, por homens, desde o início dos tempos. Aos poucos, e conforme o números de divindades e criaturas foi aumentando, a mansão na qual moram precisou ser edificada, tornando-se um lar e também escola para as novas Luminosas.

Para Gaston Bachelard, filósofo, poeta e teórico francês que estudou as inúmeras ramificações de aspectos do imaginário, em seu livro “A Água e os Sonhos” (WMF Martins Fontes, 2018, 3ª ed.), apresenta as diversas funções que a água possui dentro de uma obra; desde falar sobre a contemplação do “eu” partindo de uma retomada ao mito de Narciso, até Edgar Allan Poe e as águas pesadas que anunciam a morte tão presentes na vida e obra deste autor, o elemento pode ser analisado e dizer muito sobre a história em questão de forma subjetiva e poética.

Em “Este é o Mar“, o oceano é literalmente o refúgio para as personagens; não raro leitoras e leitores são relembrados de que a Mãe Hécate reina sobre o lugar onisciente, sendo uma grande figura de respeito entre aquelas mulheres. A figura do mar, com suas águas que acalentam e fazem surgir crescer inúmeras vidas – assim como uma mãe – estão relacionadas ao descanso, ao aconchego e à calmaria que as Luminosas tanto procuram. Símbolo, também, de fertilidade, há uma extensa ligação entre a ancestralidade feminina que as Luminosas regatam e, consequentemente, ao elemento água. Bachelard diz:

“A água é um leite quando é cantada com fervor, quando o sentimento de adoração pela maternidade das águas é apaixonado e sincero. O tom hínico, quando anima um coração sincero, conduz, com uma curiosa regularidade, a imagem primitiva, a imagem védica.” (A Água e os Sonhos – pág. 123)

A escrita política de Mariana Enriquez

Enquanto em seu livro de contos, “As Coisas que Perdemos no Fogo“, também publicado no Brasil pela Editora Intrínseca, Mariana Enriquez encontra formas de dar vida ao sentimento de medo, através das mazelas que acontecem nas sociedades contemporâneas e que estão presentes no passado e no presente de uma Argentina assombrada por casos de feminicídio, desaparecimentos em períodos ditatoriais e abuso de poder por parte das forças policiais (como no relato abaixo em que a autora detalha a notícia que lhe forneceu bases para escrever o conto com viés lovecraftiano “Sob a água negra” – também presente na antologia), em Este é o Mar” a autora utilizou seu olhar crítico para narrar os comportamentos humanos em relação às adorações e ao culto às celebridades (que desde sempre existiram, mas que agora, com o avanço das tecnologias, faz-se ainda mais presente na vida contemporânea).

A escrita de Mariana é sempre clara e objetiva, corroborada pela excelente tradução de Elisa Menezes, até mesmo ao descrever cenas perturbadoras. O fluxo narrativo da autora promove uma leitura rápida, mesmo o texto possuindo diversas camadas abaixo de sua superfície. A obra não possui erros de revisão e o projeto gráfico é muito agradável em sua simplicidade.

Este é o Mar” é obra obrigatória para os fãs de Mariana Enriquez ou para novos leitores e leitoras que buscam se aventurar em uma incrível fantasia urbana, que evoca a força e a representatividade das mulheres contemporâneas e de suas antepassadas em meio aos holofotes e controvérsias do mundo do rock.


Este é o Mar Este é o Mar

Autora: Mariana Enriquez

Tradutora: Elisa Menezes

Intrínseca

174 páginas

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Edição realizada por Isabelle Simões.

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É estudante de Letras e fã incondicional de Neil Gaiman – e, parafraseando o que o próprio autor escreveu em O Oceano no Fim do Caminho, “vive nos livros mais do que em qualquer outro lugar”.
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