Clubes de Leitura pelo Brasil | Entrevista: conheça o Negrita em São Paulo

Clubes de Leitura pelo Brasil | Entrevista: conheça o Negrita em São Paulo

Dando continuidade ao nosso projeto de enaltecer os Clubes de Leitura pelo país, conheceremos o Negrita, da capital de São Paulo. Criado em 2017, o grupo já conta com mais de 20 encontros presenciais e, em razão da pandemia, adaptou-se para as reuniões por meios virtuais. Mas, além da discussão de livros e leitura, o Negrita compartilha amor, afetividade e união.

O Negrita busca trazer em suas discussões pondo a literatura negra em foco, divulgando nomes tanto de autores como outros meios culturais que possam advir dessa discussão (filmes, documentários, poemas, nomes relevantes). Além disso, em seu espaço, é feita a narrativa de acolhimento.

Como a criadora do Clube, Bruna Tamires, revela: ali é um espaço de pertencimento, além de nos encontrarmos e/ou identificarmos com o que foi apreciado, também busca tornar possível entender seu espaço no mundo com o que foi lido ou se emocionar com o que foi discutido, revelado, compartilhado nos encontros.

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Idealizadora do Clube Negrita, Bruna Tamires. | Via: @clubenegrita no Instagram
Idealizadora do Clube Negrita, Bruna Tamires. | Via: @clubenegrita no Instagram

É essencial que todos que participem do grupo sintam-se confortáveis em estar ali. Por isso uma das poucas “exigências” – por falta de termo melhor – é a não-violência. Ou seja, ainda que muitos dos temas tratados possam ser sensíveis à subjetividade de seus participantes – afinal, temas como racismo e o que advém a partir de como solidão, violência e injúrias – é preciso que ali todos tenham o sentimento de conforto para exporem suas experiências e que, também, sinta-se confortáveis para acolher aos que também forem compartilhar suas vivências.

AAquele abraço que só o Negrita tem! | Via: @clubenegrita no Instagram
O afeto é membro fixo no Negrita. | Via: @clubenegrita no Instagram
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Mas não somente desses tópicos o grupo há de tratar. Resistência, poder, autoestima, amor próprio também são alvos de discussão no grupo. A literatura é imensa, tanto com ficção e não-ficção, os títulos e nomes são infinitos e o que não faltará são tópicos a serem debatidos. Ainda mais havendo a negritude como ponto central do Negrita.

Conversamos com a Bruna Tamires, onde ela comenta mais detalhes sobre o Negrita.

1- Gostaríamos de saber quem e quantas são as pessoas que idealizaram o Clube Negrita e como surgiu a ideia:

O Clube foi idealizado por mim (Bruna Tamires), mas sempre é feito por muitas mãos. Costumo dizer que eu seguro o núcleo e as outras pessoas (que ajudam na produção ou que participam dos encontros) seguram o todo e me seguram também.

Nesse processo posso citar Dora Lia (@dillasete), Ingrid Passos (@formatai_), Richner Allan, Carla Andrade, Mulheres Negras na Biblioteca, Monomito e muitas outras pessoas ou coletivos que passaram pelo clube.

O Clube já contou com a presença de Miriam Alves (@escritoramiriam) e seu livro, Bará. | Via: @clubenegrita, no Instagram
O Clube já contou com a presença de Miriam Alves (@escritoramiriam) e seu livro, Bará. | Via: @clubenegrita, no Instagram

A ideia do Clube Negrita surgiu do amor. Eu e a pessoa que eu amava costumávamos ler juntas, uma ouvindo a voz da outra e lendo com a outra.

Dessa leitura compartilhada de livros de autoria negra ou de autores da América Latina vinha um sentimento tão gostoso de nutrição e completude que eu não pude mantê-lo somente na relação.

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Criar o Clube Negrita foi e é a minha forma de expandir esse sentimento com mais pessoas, nutrir os pensamentos através da literatura e da cultura. Quando a gente lê uma história junto de outras pessoas, os pensamentos fluem, as viagens acontecem e os laços são refeitos, até fortalecidos.

2- De onde veio o nome? Como é a dinâmica de leitura? Quantas leituras por mês, se são por temas ou autores. Enfim, como escolhem vossas leituras?

Negrita porque a pessoa amada me chamava de Negrita (risos). Veja, o Clube Negrita é totalmente afetivo. Outro ponto é que negritar é, por definição, deixar os traços mais grossos e escuros, dar o destaque no texto. Tem tudo a ver com o objetivo do clube: incentivar o consumo da literatura negra e pensar a sociedade a partir do ponto de vista das pessoas negras.

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A curadoria dos livros se dá por minha pesquisa ou por sugestão das pessoas que participam do clube. Optamos por duas formas de mediação: uma em que todos leem previamente o livro (ou conto) e depois nos encontramos para a conversa, e outra em que lemos juntos, no dia do encontro, um trecho de livro ou uma história mais curta.

Antes da pandemia tínhamos uma periodicidade. Contudo, pelo esgotamento do formato livre, demos uma pequena pausa e agora voltamos ao modo presencial, porém restrito, no dia 28 de novembro, com o Manual do Guerrilheiro Urbano, de Marighella.

3- Descreva um pouco sobre o público alvo e o objetivo central do clube.

É difícil especificar um público para o clube quando a nossa meta é trazer cada vez mais pessoas para a leitura, mas posso dizer que nós nos direcionamos às pessoas negras, jovens adultas que têm interesse em arte e cultura, mesmo que não diretamente em literatura.

O objetivo central é incentivar as pessoas a se nutrirem com a literatura negra, comprando os livros, conhecendo quem escreve e abrindo espaço na mente para pensar a sociedade a partir das histórias compartilhadas. Literatura é ficção, é criação artística, mas também é um registro histórico do tempo em que ela foi escrita. Trabalhamos com isso para aproximar as pessoas da luta pelo bem viver coletivo.

Registro de um dos encontros do Clube. | Via: @clubenegrita
Registro de um dos encontros do Clube. | Via: @clubenegrita
4-  O Clube Negrita possui regras? Como funcionam os encontros, se são físicos (ou seja, se encontram em algum lugar) ou atuam na modalidade virtual.

O Clube Negrita necessita da presença. Nessa pandemia ficou nítido para nós o fato que o virtual não supre nossa necessidade de troca, de gesto, de vibração.

Desde 2017 nós fazemos encontros presenciais (estamos no 22º) e em 2020 nós fizemos um ciclo de clubes virtuais, em novembro agora (2021) vamos voltar com o presencial nos parques da cidade e assim ficaremos. Talvez o virtual entre em momentos específicos na nossa trajetória.

Registro de um dos encontros do Negrita! | Via: Acervo pessoal @clubenegrita
Registro de um dos encontros do Clube. | Via: @clubenegrita

A regra geral do clube é a não violência. Através da conversa, o Clube Negrita sempre tenta compreender os pontos de vista como oportunidades para o diálogo, sem tratar mal as pessoas. Em alguns encontros as pessoas discordam sobre uma história compartilhada, mas as discordâncias abrem espaço para mais trocas de ideias.

Confiram abaixo, algumas das leituras favoritas do Negrita:
  1.  “Pai contra Mãe”, de Machado de Assis (conto);
  2.  “Amada”, de Toni Morrison (livro);
  3. “Da Cabula”, de Allan da Rosa (livro);
  4. “Muito como um Rei”, de Fabio Mandingo (livro);
  5. “Eu, Tituba: bruxa negra de Salem”, de Maryse Condé (livro).

O Negrita lhe servirá como um abraço acolhedor em momentos alegres, tristes, reflexivos, mas sempre essenciais. Agradecemos infinitamente pelo privilégio que foi ter feito essa entrevista!

Não deixem de acompanhar o Clube Negrita pelo Instagram e Youtube.

Autora:

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Ket tem 23 anos, é formada em Letras - Língua e Literatura Portuguesa, pela UFAM. Nasceu e criou-se em Manaus, onde ainda mora. Não é capaz de conceber uma realidade em que as mulheres não sejam livres, uma vez que sua vida inteira viveu em um lar matriarcal. Gosta de histórias tristes, é fascinada pela cultura Sul-coreana e chora com animes.
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