A vivência de LGBTs negros em 15 documentários

A vivência de LGBTs negros em 15 documentários

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No mês do orgulho LGBTQ+, ainda pouco se fala sobre a vivência de LGBTs negros, pessoas que na própria comunidade muitas vezes não encontram espaço, voz ou qualquer tipo de representatividade.

O racismo estrutural e a estereotipização e hipersexualização de pessoas negras contribuem para uma vivência com suas próprias particularidades, e a falta de atenção a essas particularidades levou muitos cineastas negros a fazerem, eles próprios, os documentários listados a seguir — embora nem todos, vale dizer, sejam dirigidos por pessoas negras.

Não se pode deixar de notar, entretanto, que mulheres estão à frente da maioria dos filmes aqui mencionados. Documentaristas independentes, ainda pouco conhecidas, cujo trabalho vale a pena conferir.

Não nos alonguemos nesta introdução, porém, pois os filmes falam por si mesmos:

The New Black (2013), de Yoruba Richen

The New Black (2013), de Yoruba Richen

O documentário analisa a postura da comunidade afro-americana em relação às reivindicações e conquistas do movimento por direitos civis para pessoas homossexuais nos Estados Unidos. A questão central é a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, abordando a influência da Igreja como pilar institucional da homofobia na comunidade negra.

Retrato de Jason (Portrait of Jason, 1967), de Shirley Clarke

Retrato de Jason (Portrait of Jason, 1967), de Shirley Clarke

Jason Holliday conta sua vida para as câmeras. Homem gay negro, Holliday já havia prestado serviços domésticos, trabalhado como garoto de programa e, à época do documentário, era aspirante a artista de cabaré. Um filme sobre raça, classe e sexualidade.

Eu Sou a Próxima (2017), realização da Coletiva Luana Barbosa

Eu Sou a Próxima (2017), realização da Coletiva Luana Barbosa

O documentário é resultado do trabalho de nove mulheres negras paulistanas que se uniram em um coletivo após o assassinato de Luana Barbosa dos Reis, espancada por três policiais militares em abril de 2016. Luana era uma mulher negra e lésbica, mãe e moradora da periferia de Ribeirão Preto. Ela tinha apenas 34 anos. “Eu Sou a Próxima” discute lesbofobia, racismo e misoginia, a negligência do Estado e a omissão da mídia.

Acesse a página da Coletiva Luana Barbosa no Facebook.

Still Black: a Portrait of Black Transmen (2008), de Kortney Ryan Ziegler

Still Black: A Portrait of Black Transmen (2008), de Kortney Ryan Ziegler

Partindo da observação de que questões raciais raramente são exploradas em filmes que de alguma forma abordam a transgeneridade, “Still Black: A Portrait of Black Transmen” traz depoimentos de seis homens negros transgênero. Eles falam sobre suas vidas, profissões e comentam questões como identidade, sexualidade e masculinidade negra.

Pay It No Mind – The Life and Times of Marsha P. Johnson (2012), de Michael Kasino

Pay It No Mind - The Life and Times of Marsha P. Johnson (2012), de Michael Kasino

Figura importante na Rebelião de Stonewall e uma das primeiras a diretamente resistir à ação policial, Marsha P. Johnson foi uma drag queen e transativista que, junto a Sylvia Rivera, fundou a Brigada Revolucionária das Travestis de Rua, mais conhecida pela sigla STAR (Street Transvestite Action Revolutionaries). Disponibilizado no YouTube pelo próprio diretor, o documentário reúne imagens de arquivo e depoimentos de pessoas que a conheceram.

Outro documentário sobre Marsha, “A Morte e a Vida de Marsha P. Johnson”, que discute principalmente as estranhas e suspeitas circunstâncias de sua morte, está disponível na Netflix.

Línguas Desatadas (Tongues Untied, 1989), de Marlon Riggs

Línguas Desatadas (Tongues Untied, 1989), de Marlon Riggs

Pessoal e poético, “Línguas Desatadas” aborda a invisibilidade de homens gays negros, que mesmo em iniciativas voltadas à comunidade LGBTQ+ não encontram voz, já que costumam ser espaços majoritariamente ocupados por pessoas brancas. O filme também aborda a estereotipização e hipersexualização do homem negro na mídia e seu inevitável impacto sobre homens gays negros.

Call Me Kuchu (2012), de Katherine Fairfax Wright e Malika Zouhali-Worrall

Call Me Kuchu (2012), de Katherine Fairfax Wright e Malika Zouhali-Worrall

Filme sobre a luta da comunidade LGBTQ+ na Uganda, país que pune a homossexualidade com prisão perpétua e diversas vezes considerou a aplicação da pena de morte. Focado em David Kato, o primeiro homem gay assumido no país e um dos poucos a publicamente se opor à opressão institucional contra pessoas homossexuais na região.

Paris is Burning (1990), de Jennie Livingston

Paris is Burning (1990), de Jennie Livingston

O documentário adentra as ballrooms de Nova York nos anos 80, uma espécie de baile com disputas em diversas categorias, como a runway, um desfile temático cuja proposta é interpretar o tema de maneira convincente e verossímil, e a famosa voguing, dança de rua inspirada em poses de modelos da revista Vogue. Mais que entretenimento, as ballrooms são fenômenos políticos e identitários, espaço de acolhimento a LGBTs marginalizados, em sua maioria negros e muitas vezes em situação de rua.

Kiki (2016), de Sara Jordenö

Kiki (2016), de Sara Jordenö

“Kiki” explora a cena recente das batalhas de voguing de Nova York, 25 anos após o lançamento de “Paris is Burning”, mostrando como as ballrooms mantêm sua força e relevância para uma nova geração de jovens LGBTs.

Jewel’s Catch One (2016), de C. Fitz

Jewel’s Catch One (2016), de C. Fitz

No início da década de 70, Jewel Thais-Williams era alvo de lesbofobia na comunidade negra e de racismo em espaços voltados à comunidade LGBTQ+. Frequentemente barrada em boates gays de Los Angeles, ela decidiu abrir seu próprio clube: o Catch One, voltado principalmente ao público negro e LGBTQ+.

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Holler If You Hear Me: Black and Gay in the Church (2015), de Clay Cane

Holler If You Hear Me: Black and Gay in the Church (2015), de Clay Cane

A influência da Igreja sobre a comunidade afro-americana é muito forte na cidade de Atlanta, na Geórgia, Estados Unidos. O documentário é centrado em pessoas LGBTQ, membros da igreja, e a problemática da fé cristã junto a questões raciais, de gênero e sexualidade.

Game Girls (2018), de Alina Skrzeszewska

Game Girls (2018), de Alina Skrzeszewska

O filme acompanha Teri e Tiahna, um casal lésbico de mulheres negras moradoras de Skid Row, um violento distrito do centro de Los Angeles conhecido como “a capital sem-teto dos Estados Unidos”, por ter a maior população de rua do país. Em meio à realidade difícil, um alívio é o workshop semanal de Artes Expressivas de que ambas participam junto a outras mulheres do bairro.

Black./Womyn: Conversations with Lesbians of African Descent (2008), de Tiona McClodden

Black./Womyn: Conversations with Lesbians of African Descent (2008), de Tiona McClodden

O documentário apresenta 49 entrevistadas de ascendência africana. Elas falam sobre suas vivências como mulheres negras e lésbicas e discutem questões como lesbofobia, representatividade na mídia, amor, religião e ativismo político.

Homossexualidade – O Último Tabu Africano (Africa’s Last Taboo, 2010), de Robin Barnwell

Homossexualidade - O Último Tabu Africano (Africa's Last Taboo, 2010), de Robin Barnwell

Uma série de entrevistas expõe a estigmatização da homossexualidade e a intolerância ainda tão presente no continente africano. O discurso de ódio é chocante, e a homofobia é reforçada por organizações religiosas e governamentais. Documentário desenvolvido para a série Dispatches, da Channel 4.

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Libertem Angela Davis (Free Angela and All Political Prisoners, 2012), de Shola Lynch

Libertem Angela Davis (Free Angela and All Political Prisoners, 2012), de Shola Lynch

Embora o foco não seja a questão LGBTQ+, o documentário retrata a vida e a luta de Angela Davis, mulher negra e lésbica, estudiosa e ativista sobre questões de gênero e raça e figura importantíssima em movimentos pela defesa dos direitos humanos.

Em 1970, Angela foi acusada de envolvimento em uma desastrosa tentativa de sequestro e fuga que culminou na morte de quatro pessoas, deixando outras duas gravemente feridas. A arma usada pelo sequestrador estava em seu nome. O garoto, de apenas 17 anos, era também irmão de George Jackson, um dentre três militantes prisioneiros defendidos por Angela. Na época, ela entrou para a lista dos 10 foragidos mais procuradas pelo FBI.

 

Alguns desses documentários contam com páginas próprias na web que os disponibilizam para aluguel. Outros estão disponíveis no YouTube ou em plataformas de streaming.


Edição e revisão por Isabelle Simões.


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Laysa Leal é bacharel em Cinema e Audiovisual com foco em roteiro, direção de arte e crítica especializada. Apaixonada por artes visuais, tem formação profissionalizante em fotografia e atua também como fotógrafa. Não dispensa uma boa música e está sempre pelo circuito de shows e festivais, uma das poucas ocasiões em que prefere o frenesi à quietude de museus e galerias de arte ou ao conforto de salas de cinema.
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