[CINEMA] “Copenhagen”: desconstrução ou naturalização?

[CINEMA] “Copenhagen”: desconstrução ou naturalização?

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“Copenhagen” é uma co-produção entre Canadá, Estados Unidos e Dinamarca, escrito e dirigido pelo pouco conhecido Mark Raso e protagonizado por Gethin Anthony, mais conhecido como Renly Baratheon, de Game of Thrones, e você pode encontrar no catálogo da Netflix.

Antes que você continue a leitura, queria que soubesse que esse texto é um livre comentário sobre o filme, sem preocupação com spoilers. Aviso dessa forma porque não acho que spoilers podem estragar esse filme em específico, já que a discussão central que proponho não é o argumento central do filme. De qualquer forma, se achar melhor, só leia depois de assistir. Dito isso, vamos ao resumo de “Copenhagen” [não sinopse, RESUMO, ou seja, SPOILERS].

Resumo
ff-copenhagen-review-04rv2William é um jovem americano que vai à Dinamarca com o melhor amigo, Jeremy, e sua namorada, buscando a origem da sua família. Como única pista, ele tem uma carta do pai endereçada ao avô em Copenhague. Apesar disso, William se mostra muito mais interessado em “pegar” mulheres na cidade, se mostrando um homem imaturo, machista e irritante. A busca pela família mal fica clara até que o filme avance bastante. Quando Jeremy e a namorada resolvem ir embora, William fica sozinho e conhece Effy, uma menina que se compadece da sua busca e o ajuda a procurar o avô. A medida que passeiam de bicicleta pela cidade e desvendam pedaços da história da família de William, os dois criam uma relação próxima que desperta nele um sentimento que nunca foi capaz de sentir antes. E então ele descobre que Effy tem apenas 14 anos. Sim, num corpo de mulher, com a maturidade de mulher, 14 anos. William passa a temer os próprios sentimentos por ela, quando seu amigo Jeremy volta e passa a ter um dia agradável com os dois. Ao saber a idade da menina, Jeremy se irrita com William e o chama com todas a letras de PEDÓFILO, depois some novamente. A partir daí, William e Effy continuam a viagem e depois de serem confrontados pelo padrasto da menina, acabam no quarto de hotel dele, onde Effy revela que o ama. Demonstrando maturidade que conseguiu ao longo do filme, William rejeita a menina antes que comecem a fazer sexo. A viagem de William se encerra com uma visita ao avô e Effy volta para a própria casa.

Afinal, sobre o que é “Copenhagen”?

Eu temo que essa resposta não exista realmente. O diretor parece querer fazer um road movie e embora tenha um cenário maravilhoso, isso não é aprofundado no enredo. Outra teoria é de explorar o crescimento do personagem principal, que começa como um cara infantil e babaca e termina como um hominho crescido, mas novamente isso não é bem construído e muito menos se revela o foco central do roteiro. Finalmente, o filme parece querer explorar a relação de pedofilia entre William e Effy, mas novamente não sai do arranque.

“Copenhagen” aborda temas profundos, que dariam roteiros maravilhosos, mas não consegue sair da superficialidade do clichê e do “fofinho”, e talvez esse seja o principal problema do desenvolvimento da história, que me fez achar o filme fraco. Não que exista necessariamente algo de ruim em todo clichê ou todo “fofinho”, mas nesse caso são coisas que fazem diferença.

O road movie por si só já é um grande argumento de crescimento de qualquer personagem, então quando a relação de amizade de William e Jeremy não é nem minimamente explorada, ela se torna inútil. Não existe realmente nenhuma função concreta para Jeremy no filme, nem mesmo definir o caráter desprezível de William. A volta dele da metade para o fim do filme só serve para dar nome à pedofilia que o filme sugere, porém tanto William quanto qualquer outro personagem incidental poderia fazer isso também.

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A busca pela origem da família é deixada em segundo plano praticamente o filme todo, quando poderia ser inserido tão bem tanto no conceito de road movie quanto na descoberta da maturidade de William. A família é um assunto tão desinteressante para o protagonista, que passa a ser também para o espectador. Ou seja, mais um elemento inútil no enredo, que poderia ser substituído por qualquer coisa.

Não digo que esses elementos não são interessantes, mas a forma como foram explorados é tão rasa que não chegam a ser determinantes de nada. E aí eu chego na trama que foi mais explorada no roteiro: Effy.

Manic Pixie Dream Girl e pedofilia

Como você já pôde notar, eu não recomendo o filme, embora o cenário seja lindo, mais pelo fato de particularmente ter achado o filme fraco, não por causa da pedofilia. Mas realmente acredito que a discussão vale a pena, justamente por causa da relação William-Effy.

Depois que assisto filmes, quase sempre procuro ler comentários de outras pessoas, gosto de conhecer perspectivas diferentes das minhas e às vezes acabo notando coisas que não havia notado antes. Então me deparei com resenhas e comentários frustrados pelo “romance” de William e Effy não ter acontecido e muitas impressões que definiram o filme basicamente como “fofo” e inusitado, pelos protagonistas não terminarem juntos, mesmo sabendo que seria um caso de pedofilia.

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Bom, muito do problema dessa questão se dá pelo pouco desenvolvimento da personagem Effy. Em nenhum momento do filme fica claro o porquê do interesse dela por William. Mesmo a insinuação do abuso sofrido pelo padrasto não fica claro. Ela está ali para ser linda, diferente, meio rebelde e proporcionar uma redenção ao protagonista imaturo, com a qual está inexplicavelmente conectada, a clássica manic pixie dream girl. E se ela já está classificada como a garota dos sonhos do homem moderno, você pode acrescentar aqui mais um conceito dos sonhos: ser “novinha“. O quão triste e perturbador isso é?

É Effy o motivo único do crescimento de William em “Copenhagen”. Não é a viagem ou a descoberta da família ou a amizade de Jeremy, mas exclusivamente sua relação com Effy. O fato do sexo não ter existido para coroar a maturidade de William e do conceito de pedofilia ter sido expressado verbalmente no filme, que deixa a dúvida sobre a intenção do diretor com essa relação. Afinal, ele quis mostrar que é pedofilia sim, mesmo que a menina seja madura e tenha o corpo bem desenvolvido? Que é pedofilia mesmo que exista o consentimento dela? Ou é mais um exemplar de romantização da pedofilia?

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Seja lá qual for sua opinião, a relação de um homem com uma menina de 14 anos, em qualquer circunstância, É pedofilia. Qualquer argumento é irrelevante quanto a isso. E explorar esse tipo de relação no entretenimento é perigoso e delicado.

A falta de profundidade na construção dos personagens de “Copenhagen” e nas relações apresentadas permite que o espectador torça por William e Effy, mesmo depois de saber a idade dela. A relação continua “bonitinha”, “fofinha”, como vi em vários comentários. O diretor parece fazer um esforço para ajudar num assunto que mal teve competência para explorar. E acabou delegando aos espectadores a discussão sobre o que é e o que não é, quando na verdade não existe discussão, não é fofinho, nem é bonito. Isso também pode ser proposital para mostrar como somos capazes de apoiar um crime, mesmo que esteja claro que é um crime, mas considerando a superficialidade dos argumentos, acho pouco provável que seja o caso.

Na minha opinião, não chegou a ser uma naturalização da pedofilia, mas tampouco uma desconstrução real. Ficou em cima do muro como todo o resto do filme. Nós ainda estamos tão enraizados na cultura do estupro, que produzir conteúdos “em cima do muro” dá margem a interpretações distorcidas demais da realidade, o que pode ser bastante problemático.


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Bagunceira e bagunçada, por dentro e por fora. Prefere ver séries em maratonas, menos Game of Thrones, porque detesta spoiler. Totalmente apaixonada por desenho e animação. Tem mania de citar filmes em conversas, conselhos, brigas ou onde couber uma referência. Prefere gastar dinheiro com quadrinhos do que com comida, sendo muito entusiasta do quadrinho nacional e graphic novels em geral. Formada em Jornalismo, mas queria mesmo trabalhar com roteiro e ilustração.
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