Quem Você Pensa Que Sou: o etarismo inflado pelas redes sociais

Quem Você Pensa Que Sou: o etarismo inflado pelas redes sociais

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Um dos filmes mais marcantes de Hollywood é “Crepúsculo dos Deuses“, de 1951, dirigido por Billy Wilder. Até hoje ele é aclamado como um dos filmes mais verdadeiros sobre o sistema de estúdio do cinema antigo. Porém, para nós, não é isso que o faz tão genial, mas sim o retrato cruel sobre envelhecer sendo mulher que ele faz.

Passados mais de 50 anos após o lançamento desse filme, muita coisa mudou no mundo. No entanto, uma delas continua muito igual: envelhecer ainda é uma questão muito forte para as mulheres. A diferença é que, diferentemente da época de Norma Desmond, agora temos as redes sociais para inflar ainda mais o etarismo.

Quem Você Pensa Que Sou, filme de Safy Nebbou, que está em cartaz na edição 2019 do Festival Varilux, traz uma discussão muito contundente sobre etarismo e o que é envelhecer na era digital. Quais identidades digitais criamos para nós e até que ponto a internet não inflou medos que já existiam dentro de nós mulheres?

Você é velha demais para isso

Quem você pensa que sou
Cena do filme “Quem Você Pensa Que Sou” (Imagem: reprodução)

Safy Nebbou nos conta a história de uma professora de literatura divorciada, Claire (Juliette Binoche). Ela tem dois filhos e é uma autora prestigiada no meio acadêmico, porém nenhum desses aspectos é o suficiente, pois ela sente a necessidade de ter alguém em sua vida.

No começo do filme, Claire relaciona-se com Ludo (Guillaume Gouix), um homem muito mais jovem do que ela. A professora quer apresentá-lo à família, mas ele não quer; fica bastante claro, ao longo dos diálogos travados entre eles, que Ludo quer algo mais casual e Claire fica zangada, como é de se esperar.

Quando Claire demonstra sua insatisfação, a primeira coisa que Ludo lhe diz é: “Você não acha que está muito velha para isso?”. Esse diálogo, aparentemente superficial, é de súbita importância para o filme, porque ele carrega a premissa de tudo o que está por vir. As próximas ações de Claire serão pautadas pelo desejo de ser jovem novamente.

É interessante observar a desdenha com a qual os sentimentos dela são tratados nesta cena. Mulheres mais velhas não podem se dar ao luxo de exigir compromisso e se machucarem. É coisa de mocinha, afinal de contas. Em “Crepúsculo dos Deuses“, também temos a mesma desdenha. Joe Gilles (William Holden) despreza os sentimentos da ex-atriz do cinema mudo Norma Desmond (Gloria Swanson), porque ela é caricata demais demonstrando que está machucada.

Crepúsculo dos Deuses
Norma Desmond (Gloria Swanson) e Joe Gilles (William Holden) em “Crepúsculo dos Deuses”, filme de Billy Wilder (Imagem: reprodução)

Isso acontece porque, é claro, a sociedade é patriarcal e endeusa a juventude, mas e se Claire fosse uma jovem de 20 anos, como seria? Será que seria desprezada? São coisas nas quais ela começa a pensar.

Um dia, depois de tomar um fora oficial de Ludo, ela decide criar um perfil fake no Facebook para chegar até ele. Seu alter ego se chama Clara Antunès. Ela acaba adicionando o colega de apartamento de Ludo, Alex (François Civil), e as coisas simplesmente fogem do controle.

As narrativas que forjamos para nós mesmas na internet

Claire (Juliette Binoche)
Claire (Juliette Binoche) em “Quem Você Pensa Que Sou” (Imagem: reprodução)

A partir de Clara, Claire começa a viver como se tivesse 24 anos, a idade que ela afirma ter no Facebook. Conversa todos os dias com Alex e eles vão se aproximando cada vez, até o inevitável acontecer: a professora se apaixonou pelo amigo do ex. Por sua vez, Alex também ficou encantado com Clara. Ou seria Claire?

Quando, em 1995, nós usávamos Windows 95 em computadores gigantes, não imaginávamos o quanto a internet influenciaria nossas vidas. As redes sociais passaram a ter um papel decisivo em como nos apresentamos aos outros. Toda uma vida começou a ser pautada por elas de tal forma que já não conseguimos separar o on-line do off-line.

O fato de Claire ser professora de literatura em um filme que fala sobre redes sociais e as relações que criamos a partir delas não é um fruto do acaso. Como docente de literatura, a professor sabe como a narrativa é extremamente importante para nós. A partir dela, criamos laços e nos apresentamos ao mundo.

Quando Claire escolhe se apresentar como Clara no mundo virtual, ela está assumindo uma narrativa: a sociedade odeia mulheres velhas. Se Clara fosse Claire, será que Alex gostaria dela? A professora acredita que não, já que ela é cheia de olheiras e tem os seios caídos, depois de ter dado à luz a dois filhos.

Claire (Juliette Binoche) e Alex (François Civil)
Claire (Juliette Binoche) e Alex (François Civil) em”Quem Você Pensa Que Sou” (Imagem: reprodução)

Dessa forma, ela precisa ser jovem. Clara é uma identidade muito real no filme, pois representa o desejo de Clara parar no tempo. É como se ela sempre estivesse no interior da professora, mas talvez ela não pudesse mostrar, pois não fica bom para uma “velha” se comportar como uma garota.

Inclusive, uma das cenas mais interessantes de “Quem Você Pensa Que Sou” é quando Claire está em uma festa com pessoas de sua idade e começa a dançar loucamente. Os convidados a olham com desdém, como se dissessem “como ela pode se comportar assim?”.

Em uma aula, Claire fala sobre a peça de teatro “A Casa de Bonecas, de Ibsen. Ela declara que a boneca é uma personagem essencial, porque ela se recusa a aceitar as regras vigentes de sua época. Sua rebeldia não é bem aceita. O mesmo poderia se aplicar à Claire; ela não quer aceitar a velhice, então a maneira que escolhe para se rebelar é forjar algo na internet, um território de ninguém.

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A interação com o digital: estamos perdendo o aqui e o agora?

Quem você pensa que sou
Cena do filme “Quem Você Pensa Que Sou” (Imagem: reprodução)

Ao começar a se relacionar com Alex, Claire perde a noção do tempo. Ela passa horas conversando com ele, negligenciando os filhos e suas atividades acadêmicas. Cada mensagem dele é como uma injeção de adrenalina nela. É um vício. Talvez por isso mesmo que Quem Você Pensa Que Sou nos tocou tanto, porque, infelizmente, vivemos em um mar de aprovação, disparados por likes e retweets. Cada vez que alguém nos aprova na internet, a nossa adrenalina sobe. É quase como o experimento de Pavlov.

É muito mais fácil estabelecermos relações com pessoas que nunca vimos; podemos sonhar com elas e idealizá-las. A partir do momento em que existe a materialização da relação, ou seja, o encontro físico, algo pode se quebrar. Uma vez que o cristal quebra, que o outro não satisfaz o que eu espero, podem acontecer decepções.

Quem Você Pensa Que Sou é um filme que traz essa discussão muito importante sobre o uso das redes sociais, mas a partir de uma perspectiva de gênero; mulheres têm seus passos vigiados. Precisamos ser perfeitas o tempo inteiro. Como a série “Crazy Ex Girlfriend” colocou na música The Sexy Getting Ready Song, nós precisamos parecer cheirosas e arrumadas sempre.

Quem você pensa que sou
Cena do filme “Quem Você Pensa Que Sou” (Imagem: reprodução)

Na internet, não é diferente. A vida é uma vitrine e nós arrumamos mais um meio de sermos vigiadas. A qualquer momento você pode ser “cancelada”. É como se a internet inflasse ainda mais as expectativas que residem em nós, isso porque agora temos mais um mundo no qual devemos mostrar uma imagem X. Nesse conjunto de expectativas, estaríamos perdendo a capacidade de nos relacionarmos com os outros? De aguentarmos a conversa ao vivo e a cores? De aguentar a decepção? A decepção, na internet, está a um block de distância. “Quem Você Pensa Que Soueleva isso a uma potência perigosa demais.

Ao lado de “Filhas do Sole “Graças a Deus, “Quem Você Pensa Que Sou é um dos melhores filmes trazidos pela mostra. De um jeito muito particular, e verdadeiro, o filme desvenda o que é ser uma mulher mais velha, descartada pela sociedade, e como é conviver com as expectativas nos mundos on-line e off-line.

Não é fácil de assistir, mas necessário. Temos de pensar o que fazemos com as mulheres mais velhas na internet. O caso mais pungente é o da cantora Madonna, desprezada por um fandom mais jovem e que a vê como um “velha excêntrica”. Quantas velhas excêntricas nós vamos ter cancelar para perceber que esse comportamento só reforça o etarismo presente em nossa sociedade patriarcal?


Edição realizada por Gabriela Prado.


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Tradutora e noveleira. Criou, em 2014, o canal sobre cinema clássico no YouTube, o Cine Espresso, para espalhar na Internet o amor pelos filmes esquecidos. Gosta de chá preto acompanhado de um bom livro.
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