CRÍTICA | The Handmaid’s Tale – 3×05: Unknown Call

CRÍTICA | The Handmaid’s Tale – 3×05: Unknown Call

Compartilhe

A terceira temporada de The Handmaid’s Tale, série transmitida pela rede de streaming Hulu e baseada no livro homônimo de Margaret Atwood chega, enfim, ao seu 5º episódio, intitulado “Unknown Call. A terceira temporada, de modo geral, está mais lenta do que as anteriores. E o quinto episódio não foge a essa tendência. Não foi, de longe, um dos melhores da série. E poderia ter trazido mais do que trouxe. Mas será que por trás da aparente falta de desenvolvimento não há elementos que possam retornar mais tarde como fatores importantes para a narrativa?

[AVISO: CONTÉM SPOILERS]

O episódio anterior de The Handmaid’s Tale, God Bless The Child, terminou com um vídeo de Luke (O-T Fagbenle) e Nichole. E era certo que o vídeo não bastaria apenas à notícia de que Nichole passava bem. E, certamente, que June (Elisabeth Moss) teria algum envolvimento nas decisões tomadas junto a Fred Waterford (Joseph Fiennes) e Serena (Yvonne Strahovski).

Este, contudo, não é o ponto de partida de Unknown Call. O episódio se inicia com uma análise das relações estabelecidas em Gilead. Com menos personagens aparecendo que o comum, estabelece uma análise dos casais, Fred e Serena, Joseph Lawrence (Bradley Whtiford) e Eleanor Lawrence (Julie Dretzin), June e Luke. Afinal, é sobre como essas relações são utilizadas instrumentalmente que o episódio abordará. Sobre os sentimentos que os unem, mas também sobre o que é necessário firmar entre dois indivíduos para sobreviver. O calor da pele, a saudade, a ansiedade do toque. Mas também é a negação, a mentira e o “deixar ir”. Ou seja, aspectos normais da vida.

Unknown Call, uma chamada de longe

The Handmaid's Tale
Luke (O-T Fagbenle) (Foto: Reprodução)

Depois de reconhecer Luke a pedido dos Olhos, June é novamente chamada para se manifestar. Agora, eles precisam que ela faça um favor a Gilead. E que ligue, assim, para Luke, pedindo para que ele aceite se encontrar com os Waterford. Quem faz o pedido a June é Serena, em um novo estremecimento da relação estabelecida entre as duas personagens. Embora pareçam aliadas no propósito de derrubar Gilead, é como se andassem em ovos. Às vezes, todavia, parece que mais retornam ao ponto de partida. E por mais que as balançadas incomodem, não é algo difícil de imaginar. Afinal, Serena continua apegada a alguns privilégios e tradições.

Após a intervenção de June, então, Fred passa a dar mais poder a Serena. E pede que ela participe das estratégias de conexão com Luke em uma tentativa de reaver Nichole. Ocorre, todavia, que ela teve participação na fuga da criança. Ela permitiu que June levasse Nichole até a caminhonete e protegeu-a mesmo depois. Ainda assim, ela pede a June para que negocie um encontro com Luke. Mas deve concordar em “dever algo” a June, algo que pode ser de extrema relevância nos episódios futuros.

Pela primeira vez, então, June tem a possibilidade de se comunicar diretamente com Luke. Mas é limitada por um texto escrito, acompanhada por vorazes olhos da opressão. Suas palavras são medidas, calculadas para o estritamente necessário. Luke, ainda que emocionado por ouvir a voz da esposa, aceita apenas a presença de Serena. E, assim, agenda-se o encontro.

Reconhecimento de sacrifícios em The Handmaid’s Tale

luke e nichole
Luke (O-T Fagbenle) e Nichole (Foto: Reprodução)

Serena se prepara, desse modo, para o encontro. Apesar do que pode parecer, ela não deseja que Nichole retorne a Gilead. Ela entregou sua filha por uma razão: que ela tivesse um futuro melhor, ainda que longe dela. E ela não volta atrás, mas também gostaria que Nichole soubesse quem ela é e o sacrifício que fez para que ela pudesse viver. Junto aos seus pertences, ela encontra uma lembrança de seu pai que poderia levar a Nichole, para que sua filha tivesse não apenas o direito a uma vida mais livre, mas o direito à sua própria história, à verdade por trás das cortinas de ferro de Gilead e à verdade por trás das cortinas de qualquer ponto de observação. Isto porque qualquer história é montada por diferentes pontos de referência.

Apenas ela e June presenciaram um pacto, o sacrifício de ambas as mães. E para o mundo todo, Serena é apenas a mulher submissa que aceitou um regime de opressão. Mas ela não é apenas isto. Ela tem, sim, responsabilidade sobre os atos de violência que incentivou, orquestrou e cometeu. Ela, contudo, também é uma mulher cuja individualidade foi anulada por Gilead e que tentou fazer algo mais no momento em que deixou June partir com Nichole.

O reencontro de Serena e Nichole

luke
Luke (O-T Fagbenle) (Foto: Reprodução)

Luke fica desconfiado pelo encontro. E seria estranho se ele não se sentisse assim. Afinal, Gilead separou sua família, sequestrou sua esposa e sua filha, tornando June uma escrava sexual. E as próprias espectadoras deviam se perguntar se não haveria algo mais ali. No entanto, sem surpresas, foi apenas um encontro entre Serena, Luke e Nichole. Inicialmente, ele não quis permitir a proximidade entre Serena e a bebê, mas cedeu depois de Serena revelar que havia protegido June. Do mesmo modo, resistiu em aceitar a lembrança de Serena a Nichole, apesar da justificativa de que aquela era a história de Nichole. Não cabia a ele, portanto, decidir o que ela saberia ou não.

Vigiando, está Mark Tuello (Sam Jaeger). Para quem não se recorda, Tuello apareceu no episódio Smart Power, da segunda temporada de The Handmaid’s Tale. Enquanto Serena visitava o Canadá junto a Fred, ele fez uma proposta de fuga. Na época, Serena negou. E por um momento pareceu que, dessa vez, ela aceitaria. Acabou, contudo, por se manter firme, sob a justificativa de que lá era seu lar. Mas seria mesmo?

A pergunta que fica é se Serena seria capaz de retornar a Gilead por outras motivações, como June retornou. Afinal, sem Serena, June perde sua única aliada entre o grupo mais privilegiado de mulheres. Ou seja, perde a maior oportunidade de influência política dentro do sistema. Portanto, a importância de Serena dentro de Gilead é enorme inclusive para a revolução ou resistência que se está construindo. A questão é: Serena tem alguma noção disso ou apenas não consegue se desapegar dos antigos ideais?

Leia também:
>> [QUADRINHOS] Refugiados: A resistência dos migrantes em um mundo adoecido
>> [CINEMA] Cinco Graças: Extremismo religioso e a opressão sofrida pelas mulheres
>> [LIVROS] A Parábola do Semeador: Nem todas as distopias são iguais

As coisas que se fazem para sobreviver em The Handmaid’s Tale

The Handmaid's Tale
Serena (Yvonne Strahovski) (Foto: Reprodução)

A visita de Serena é rápida. Pouco pode ser falado sem gerar consequências a Serena ou a Luke. As palavras trocadas são poucas, mas o suficiente para que as mensagens necessárias sejam repassadas. E uma fita é entregue a Luke. Retomando a história do livro “O Conto da Aia, que se baseia nas gravações de Offred encontradas 200 anos depois, June grava uma fita cassete para Luke falando da origem de Nichole, o que ela teve de fazer para sobreviver, seja politicamente ou não.

Por exemplo, ela nunca foi obrigada a se envolver com Nick (Max Minghella). No entanto, fez isso, porque era humana e precisava de alguém ali, precisava amar e ser amada. Não significa, contudo, que tenha deixado de amar Luke. A June que amou Luke permanecia ali, em uma parte de sua memória e de quem era. Mesmo Luke teve de deixar de ser quem era para viver como um refugiado no Canadá. E assim como ele, June teve que se adaptar para sobreviver. E virar outra June, uma que um dia foi a esposa de Luke junto a um que sobrevive diariamente a Gilead.

O pedido de retorno a Gilead

Unknown Caller The Handmaid's Tale
June (Elisabeth Moss), Serena (Yvonne Strahovski) e Fred Waterford (Joseph Fiennes) (Foto: Reprodução)

As expectativas eram de que haveria algo mais. Talvez uma perseguição a Luke. Uma tentativa de convencer Luke a entregar Nichole. Ou até mesmo um proposição de troca. No entanto, não houve nada. Luke recebeu a fita de June. Serena não fugiu. Tampouco fez algo mais que visitar Nichole. E tudo parecia seguir como sempre, como se o caso tivesse se encerrado – como era o desejo de Serena. Mas é claro que não terminaria assim. Pode não ter sido um final épico, mas foi um final com uma nova promessa.

Ofmathew (Ashleigh LaThrop), que sempre recrimina June em apoio a Gilead, mostra ainda mais que sua aceitação ao regime é apenas uma fachada para sobreviver – uma ilusão em que ela acredita para aceitar sua situação. E enquanto ela fala sem ânimo de sua nova gravidez, ela também revela a June que fica feliz que Nichole tenha conseguido fugir. Este também é o momento, contudo, em que os olhos novamente levam June a um lugar desconhecido.

June aceita a condução assim como aceita as novas roupas, mas para quê? E quando ela se vê em um cenário, com câmeras e luzes voltadas a ela e aos Waterford ela pergunta: “Serena, o que você fez?”. Ela não pode saber o que Serena fez ou foi obrigada a fazer, mas precisa fazer parte do pano de fundo da encenação, como a aia obediente, pacífica e compactuante com os preceitos de Gilead. Aos poucos, então, ela se dá conta do que se passa. E com um novo vídeo, o quinto episódio de The Handmaid’s Tale termina. Sem um grande clímax, termina com um novo pedido: os Waterford pedem para que Nichole, a criança “sequestrada por uma perigosa fugitiva”, retorne ao seu lar. E a quem convencerá esse discurso?


Compartilhe

Autora

135 Posts

Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
Veja todos os textos
Follow Me :