Iluminadas: suspense sobrenatural sobre mulheres esquecidas

Iluminadas: suspense sobrenatural sobre mulheres esquecidas

Iluminadas, original da Apple TV, conta a história de Kirby (Elisabeth Moss), uma mulher que ainda se recupera dos traumas causados por um violente ataque de um homem desconhecido. Mas uma outra vítima surge, e Kirby vai trabalhar junto com o jornalista Dan Velasquez (Wagner Moura) para impedir que outros ataques aconteçam.

Elas são iluminadas

A Apple TV tem trazido excelentes histórias originais em seu streaming. Muitas delas chegando a ser premiadas, como CODA, que foi o longa vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2022. Iluminadas (ou “Shining Girls”) é mais uma produção original que chegou esse ano no catálogo.

Elisabeth Moss  (“The Handmaid’s Tale“) é uma das produtoras, e em entrevista para o canal da Apple TV Brasil, revela:

“Eu queria fazer uma série que fosse diferente de tudo que já vi.”

Dessa forma, Iluminadas reúne suspense, ficção científica e drama. É uma história sobre mulheres que estão unidas por um único fator: foram violentadas pelo mesmo homem. Na crítica do jornal The Guardian, Moss é considerada perfeita para o thriller. E de fato, sua atuação é um elemento de peso na série. Além disso, ela também dirige diversos episódios.

Além de Elisabeth Moss, a equipe de direção e roteiro da série está repleta de mulheres. Entre elas, Michelle Maclaren e Silka Luisa. Felizmente, cada vez mais temos séries de TV com mulheres que falam de mulheres e os problemas reais que elas enfrentam na sociedade. E como Moss conseguiu provar bem, não existem limites para retratar a realidade feminina. Não é preciso se restringir ao romance ou ao drama. Existem mulheres trabalhando com terror, fantasia, suspense e ficção científica, como é o caso de Iluminadas. Contudo, a série foi completamente esnobada no Emmy, uma das maiores premiações para produções audiovisuais.

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Elizabeth Moss Phillipa Soo e em Shining Girls
Elizabeth Moss Phillipa Soo e em Iluminadas | Imagem/Reprodução: Apple TV

Investigação jornalística

E se além das viagens no tempo, adicionarmos um suspense policial? Pois é isso o que a série entrega. Sobre as belezas da série, certamente é preciso destacar a investigação jornalística e todo o ambiente criado em torno disso. Em busca de uma boa história – aquela que, ele espera, fará sua carreira decolar – Dan faz uma parceria inesperada: se une a uma das arquivistas do jornal Sun-Times, onde trabalha, para desmascarar o violento assassino de Julia Madrigal (Karen Rodriguez). Afinal, eles teorizam que esse homem e o homem que causou a cicatriz de Kirby são a mesma pessoa. E Kirby precisa de alguém que acredite nela e em sua história. Essa pessoa, por mais relutante que seja no início, é Dan.

Como a série se passa nos anos 90, os jornais impressos ainda tinham um papel crucial na sociedade. E na falta das tecnologias de comunicação que hoje dispomos, os jornalistas precisavam ligar para cada uma das testemunhas e visitá-las, faziam recortes e revelavam as fotografias. Dessa forma, é uma verdadeira aventura seguir a investigação da dupla de protagonistas.

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Elisabeth Moss e Wagner Moura em Iluminadas
Elisabeth Moss e Wagner Moura em Iluminadas | Imagem/Reprodução: Apple TV

O bônus é a química maravilhosa que os atores possuem. Wagner Moura está brilhante aqui. Inclusive, o ator fala português em algumas cenas e aparece com uma camisa da banda Os Mutantes em certo momento. E, na verdade, Elisabeth Moss e Wagner Moura se tornaram grandes amigos durante a produção da série e Moss disse – na mesma entrevista citada anteriormente – que conhecê-lo foi a melhor coisa que lhe aconteceu sobre Iluminadas.

Problemas de ambientação em Shining Girls

Todavia, a ambientação da série é um pouco decepcionante. É possível se esquecer, em alguns momentos, que estamos em outra década que não 2020. Um dos problemas são as tecnologias de design futurista do arco de Jin (Phillipa Soo) – uma personagem que ganha destaque com o passar dos episódios – e os figurinos muito fracos para uma produção desse nível. Os cenários e a fotografia como um todo também deixam a desejar.

Mas, a ambientação ser um tanto falha começa a refletir no nosso entendimento da história. Principalmente por se tratar de uma narrativa de viagem temporal, compreender a mudança de um espaço para outro, um ano para outro, é essencial. E isso não deve acontecer apenas com uma legenda indicando o tempo e espaço em que a cena vai se passar. As coisas mudarem de uma hora para outra pode e deve mexer com os personagens, mas não necessariamente deveria mexer conosco.

É preciso que o público entenda com recursos visuais e sonoros em que lugar a história se encontra, para que possa de fato ficar imerso nela. Portanto, é uma pena que uma história tão fascinante sofra com um roteiro que se torna tão confuso e ineficiente. Assim, a maior parte dos episódios serve para compreendermos o universo e os conflitos, e pouco resta para a resolução deles.

Vilão sobrenatural?

Embora a trama seja absurda no geral – o que é característico da ficção científica – o plot de Iluminadas é muito mais real do que gostaríamos. Um homem que usa mulheres, as persegue e as violenta. Mulheres aleatórias, mas sempre mulheres. Muito antes dos mistérios serem resolvidos, já é possível perceber que o agressor de Kirby é assustador justamente por ser um homem comum. Sim, há coisas sobrenaturais o envolvendo. Mas isso não é o mais aterrorizante.

Uma das cenas mais sinistras da série acontece na pequena dispensa de um mercado, quando uma menina se vê encurralada por um homem que ela pensou ser gentil. E é assim que o antagonista da série funciona: ele provavelmente será alguém simpático, alguém que gostaríamos logo de cara. Kirby diz que a coisa mais difícil sobre ele é que ele pode ser o porteiro, o entregador, alguém que ela esbarrou na rua ou seu vizinho. Ele pode ser qualquer um.

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Shining Girls
Jamie Bell como Harper Cutis em Iluminadas | Imagem/Reprodução: Apple TV

E essa é a coisa mais interessante sobre o desenvolvimento de Harper Curtis (Jamie Bell). No meio de mistérios sobre o futuro, realidades alternativas e demais coisas extraordinárias, há essa revolta sobre um homem que é apenas um homem. E como sempre, com esse tipo de homem, suas vítimas são sempre esquecidas. Casos arquivados e matérias curtas no jornal. Suas vozes não são silenciadas apenas quando elas morrem, mas todos os dias em que ninguém faz qualquer justiça por suas vidas.

É devido a isso que o episódio 4 é o ápice da série: vemos imagens violentas, sim, mas também vemos uma mulher que foi violentada lutar por suas iguais que tiveram um destino diferente. As escolhas em não ter uma violência gratuita na série mas ao mesmo tempo mostrá-la sem medo quando necessário, foi fantástico. É o equilíbrio que se manteve do início ao fim.

Boas intenções foram o suficiente?

Baseado no romance de Lauren Beukes, Iluminadas é uma série ambiciosa, instigante, mas sem um final digno. Apesar da ótima premissa a obra entrega um desfecho insuficiente, contrariando o ritmo frenético que tanto nos prende ao longo da temporada. Os últimos dois episódios parecem jogar fora o suspense criado, resolvendo tudo de forma abrupta. Seria uma consequência da quantidade de episódios? Afinal, todas as séries da Apple TV apresentam um padrão de duração: em séries de drama a média é 8 ou 9 episódios. Séries de comédia, como Ted Lasso, costumam ter 10. Encaixar um roteiro adaptado em uma determinada duração parece ter prejudicado o resultado final de uma série que muito prometia.

Os personagens também não tiveram uma conclusão em seus arcos. Sim, a protagonista tem boas cenas finais, mas o sentimento que fica para todo o resto dos eventos é que falta algo. Tanto com Marcus (Chris Chalk) quanto Dan, personagens importantes na trama. A personagem de Amy Brenneman, Rachel – a qual é maravilhosa na série – apenas desaparece, nem chega a ter um desfecho como os outros dois que foram citados.

Além de não haver de fato uma conclusão para os personagens, os mistérios também se mostraram ser muito menos do que poderiam ser. A própria série, no entanto, dava indícios de que seria algo maior do que foi apresentado ao final. A história em si é muito boa e relevante, mas não se pode dizer o mesmo sobre a execução da série.

Se vista despretensiosamente, Iluminadas é um bom divertimento e carregada de reflexões. Vista sob um olhar crítico, Iluminadas falhou em atingir seu potencial máximo, apresentando uma narrativa confusa, ainda que pertinente.

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Estudante de Letras na Universidade de São Paulo, apreciadora de boas histórias e exploradora de muitos mundos. Seus sonhos variam entre viajar na TARDIS e a sociedade utópica onde todos amem Fleabag e Twin Peaks.
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