Mare of Easttown: crime, mulheres sobrecarregadas e saúde mental

Mare of Easttown: crime, mulheres sobrecarregadas e saúde mental

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Há atrizes que nos sensibilizam pelo talento, pela versatilidade e pela presença em cena. E há aquelas que, além de tudo isso, nos impressionam por sua longevidade. Hoje, esse é o caso de Kate Winslet, que há muito tempo já convenceu o público das primeiras qualidades, e que em Mare of Easttown demonstra que está disposta a levá-las consigo por muitos anos ainda – e para outros meios além das telonas. 

Isso porque, por mais que seja difícil afastar da memória a Rose, de Titanic, erguendo o rosto por debaixo de seu chapéu vermelho – assim como muitos outros de seus papéis marcantes –, é ainda mais difícil acreditar que aquela é a mesma mulher na pele de Mare, detetive sisuda e mal-humorada que vemos logo na primeira cena, em que ela acorda na manhã fria da cidade americana de Easttown, na Pennsylvania.

Disponível no streaming HBO Max, Mare of Easttown concorre em 16 categorias do Emmy, competindo os prêmios de Melhor Série Limitada, Melhor Atriz em Série Limitada para Kate Winslet, Melhor Atriz Coadjuvante em Série Limitada para Jean Smart e Julianne Nicholson e Melhor Ator Coadjuvante em Série Limitada para Evan Peters.

Kate Winslet entrega um de seus melhores papéis

Kate Winslet em Mare of Easttown
Kate Winslet em Mare of Easttown | Imagem: HBO/divulgação

Em poucos minutos, Kate Winslet nos faz desgarrar de suas personagens anteriores e de seu sotaque britânico, e nos conduz, absolutamente crédulas, por toda a história. Pela sua performance, cremos que ela seria capaz de carregar os sete episódios nas costas caso fosse necessário – e ainda faria nosso tempo valer a pena, se assim fosse.

Mas, felizmente, não é esse o caso. Além de Winslet, Mare of Easttown conta com vários pontos a seu favor. A começar pela caracterização da cidade provinciana americana, que divide com Mare não só o título mas também, de certa forma, o protagonismo. Sempre sob um frio excruciante, a pacata cidade parece, para nós, brasileiras, uma retratação típica da vida suburbana do nordeste dos Estados Unidos, com suas casinhas aquecidas e carros grandes.

Porém, para além deste cenário que nos parece inerentemente privilegiado, transparece o sentimento de decadência. Algo similar ao que se vê também em I Know This Much is True, série recente da HBO com Mark Ruffalo, que também vale ser conferida. Questões como a pobreza, o racismo e a dependência química fazem parte da caracterização da cidade em questão, que serve como analogia para os Estados Unidos como um todo.   

Mare of Easttown, série da HBO
Cena de Mare of Easttown, série da HBO | Imagem: HBO/divulgação

Detetive, “prefeita”, mãe, mulher

É interessante notar como Mare no título soa parecido com mayor, que significa “prefeita”. E da forma como a história se desenrola, parece de fato que ela é a Mayor of Easttown. Logo no início, ela percorre a cidade, resolvendo problemas pequenos de seus habitantes, todos os quais ela chama pelo nome com certa familiaridade.

No entanto, um problema maior permeia a comunidade e, consequentemente, a mente da detetive: o assassinato há um ano não resolvido da filha de uma de suas colegas de infância. O caso a atormenta e tudo só piora quando um outro muito parecido o sucede. Dessa vez, o da sobrinha da sua vizinha e melhor amiga, Lori (Julianne Nicholson).

Mare e sua mãe, interpretada por Jean Smart | Imagem: HBO/divulgação

A complexidade dos dramas que ela precisa resolver e solucionar pela cidade se transfere também para sua vida pessoal (ou seria o contrário?). Em sua casa, Mare precisa lidar com sua filha adolescente e sua mãe (a maravilhosa Jean Smart), além de ter o ex-marido como vizinho e prestes a engatar em um novo casamento. Mas se o que atormenta a cidade é uma série de assassinatos, na vida pessoal de Mare o que mais a acomete é o luto pelo seu filho mais velho, que perdeu por problemas de dependência química e de saúde mental. 

Há mais drama do que suspense em Mare of Easttown

Assim, pela teia de dramas pessoais, investigações e mistérios, que às vezes se entrelaçam e se separam, somos expostas à história e ao drama de uma mulher de meia-idade, claramente sobrecarregada, que tentar solucionar problemas acumulados ao mesmo tempo em que lida com a própria saúde mental. O roteiro de Mare of Easttown faz um bom trabalho ao dar peso emocional para cada núcleo e para cada um dos personagens – que são muitos. A exceção feita ao personagem de Guy Pearce que, fora sua presença estelar, contribui relativamente pouco para a trama. 

Lori (Julianne Nicholson) e Mare (Kate Winslet) em Mare of Easttown
Lori (Julianne Nicholson) e Mare | Imagem: HBO/divulgação

Se a porção dramática é muito bem trabalhada ao longo dos sete episódios, a porção “thriller” também não deixa a desejar. E embora a sequência de eventos e pistas seja um tanto intrincada e deixe alguns buracos mínimos de roteiro pelo caminho, o conjunto da obra é extremamente convincente. A marca maior de Mare of Easttown não é necessariamente sua elaboração, mas sim a carga emocional que deixa sobre o público e as questões morais que levanta – que são universais ao mesmo tempo em que refletem problemáticas profundamente incutidas e específicas da sociedade norte-americana. 


Edição e revisão por Isabelle Simões.


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Criança que queria ser bailarina, depois foi querer virar oceanógrafa, que depois sonhou em ser fotógrafa da National Geografic, para depois querer ser escritora. Acabou virando jornalista (no diploma) e professora (na carteira de trabalho – RIP). Adulta, só daqui uns anos.
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