Jane Eyre e Anne with an E: a importância da literatura

Jane Eyre e Anne with an E: a importância da literatura

Na primeira aparição da personagem Anne Shirley (Amybeth McNulty) em Anne with an E, ela cita uma frase do livro Jane Eyre de Charlotte Brontë: “Se todo o mundo odiasse você e a considerasse perversa, mas se sua consciência a aprovasse e a absolvesse de culpa, você não estaria sem amigos” e em seguida direciona uma pergunta à sua acompanhante, “Eu adoro Jane Eyre. E você?”. Com essa cena já é possível perceber alguns detalhes que ao longo da série são confirmados: Anne é sensível e apaixonada; é atormentada por memórias do passado e claro, ama livros.

Anne with an E é uma série canadense criada por Moira Walley-Beckett e baseada na série de livros de Lucy Maud Montgomery, Anne de Green Gables. Anne Shirley é uma órfã que após muitos infortúnios em orfanatos e lares provisórios, é levada, erroneamente, para a casa dos irmãos Marilla (Geraldine James) e Matthew Cuthbert (R.H. Thomson). Apesar de inicialmente desejarem um menino para ajudar na fazenda, os irmãos são, gradualmente, conquistados pela adorável menina de cabelos ruivos e intensa personalidade.

Anne é dada a grandes paixões: ama a natureza, os animais, o céu e os livros. Em vários momentos da série, ela afirma seu amor por um livro especifico: Jane Eyre, da escritora inglesa Charlotte Brontë. A partir da preferência por esse livro em particular, é possível traçar paralelos entre Anne e a heroína que dá nome ao livro.

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Anne with an E e Jane Eyre
Cena de “Anne with an E” | Imagem: Netflix (reprodução)

As semelhanças entre Anne Shirley e Jane Eyre

Assim como Anne, Jane Eyre é órfã. Ela passou metade da infância morando com uma tia que a maltratava constantemente, assim como os primos. Aos oito anos, ela é levada para a instituição Lowood, onde sofre de fome, frio e constantes retaliações. Jane e Anne sofrem humilhações por serem pobres, órfãs e mulheres. Ambas consideram que não são dignas de serem amadas e por isso quando Gilbert Blythe (Lucas Jade Zumann) demonstra interesse por Anne e o Sr. Rochester por Jane, nenhuma das duas acredita que é verdade.

Jane Eyre, na infância, demostra uma forte personalidade e se defende quando é preciso. Com o tempo, é nítido como ela controla seus impulsos. Anne, da mesma forma, responde às humilhações e abusos. As duas são intensas e sabem quando não podem mais suportar uma situação. Assim, quando Jane descobre a verdade sobre o Sr. Rochester, ela vai embora de Thornfield Hall e corre através da natureza, quase morrendo de inanição ao ficar dias sem comer, caminhando exposta ao frio e à chuva. Anne, no episódio três de Anne with an E, ao ser humilhada por seu professor, saí da escola sem a sua permissão e corre entre as árvores em direção à Green Gables. Com isso, também é possível perceber a forte ligação de ambas com a natureza, como ela traduz os sentimentos mais intensos das duas.

Anne Shirley (Amybeth McNulty)
Anne Shirley (Amybeth McNulty) em “Anne with an E” | Imagem: Netflix (reprodução)
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Anne diz, em diversas ocasiões, que Jane Eyre a salvou em vários momentos da vida, principalmente quando ela estava no orfanato. O livro (e a personagem) foi um farol para ela, um local para onde ela pôde correr nos momentos mais críticos. Os livros, como a série mostra, são um bálsamo em meio à dor e ao desespero. Com eles, é possível escapar, mesmo que por alguns minutos, quando não se pode fugir fisicamente. Claro que essa não é a única e principal função da literatura, mas os livros têm o poder de instruir e confortar. São como remédios: cada um para um momento e necessidade diferente.

A importância de Jane Eyre para Anne durante o seu crescimento

No filme Mensagem para você (You’ve got mail) de 1998, Kathleen Kelly, personagem da Meg Ryan, diz: “Quando uma criança lê um livro, ele se torna parte da sua identidade de uma maneira que nenhuma outra leitura na vida se tornará”. Os livros lidos na infância, uma fase que, por vezes, pode ser tão solitária, se tornam uma parte fundamental da vida de leitoras e leitores e podem influenciar positivamente na formação da personalidade.

Anne é uma menina de apenas 13 anos quando chega à Green Gables; quando estava no orfanato e em lares provisórios, ela era ainda mais nova. Aquela garota ruiva e com personalidade única e cheia de paixões, estava presa em um lugar sombrio, onde ela não tinha como ser ela mesma, onde sua essência tinha que ser reprimida. Ela, naquele local de dor, encontrou nas palavras de Charlote Brontë o abraço que precisava, encontrou em Jane a amiga que ela não tinha. Jane era sua “kindred spirit”, sua alma gêmea, uma mulher que entendia seu coração. Um laço invisível às prendia, um tipo de laço e conexão que é característico da literatura.

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Pode-se dizer que até em aspectos não tão saudáveis, a literatura influenciou Anne. Ela sempre diz que quer ter um romance trágico e quando descobre que Miss Stacy (Joanna Douglas) é viúva, ela fica encantada. Após ler tantos romances onde o amor é difícil e por vezes até impossível, Anne considera aquele o modelo ideal do relacionamento. O trágico se torna irresistível aos seus olhos. É claro, Anne tem apenas treze anos e adolescentes tem a tendência de romantizar tudo. Para uma adolescente apaixonada como ela, homens intensos e raivosos e com um passado obscuro, são o modelo romântico ideal. Mas, Anne, por sorte, encontrou um amor diferente em Gilbert Blythe.

A busca pela liberdade e por uma vida diferente daquela que era imposta às mulheres

No episódio sete da segunda temporada, Anne é convidada, por sua amiga Josephine (Deborah Grover), a ler um trecho de Jane Eyre, e o trecho escolhido não poderia representar mais a personalidade dessas duas incríveis personagens: “Agora me lembrava de que o mundo real era vasto, e que muitas esperanças e medos, sensações e emoções aguardavam aqueles que tivessem coragem de sair por ele afora, buscando conhecer a vida de verdade por entre seus perigos”. Anne e Jane não desejam estagnar, mas sair em busca do novo, de aventuras e novas experiências.

Para as mulheres, na época em que viviam, era um sonho praticamente impossível, e por isso Jane se sente o tempo inteiro sufocada, inquieta e infeliz. Anne, de certa forma, se sente da mesma maneira. E apesar de amar Green Gables e Avonlea, ela não se encaixa naquela sociedade preconceituosa e sufocante. Mesmo desejando o amor, ela não quer ficar presa em um casamento que limite os seus talentos. A própria diz “Creio que o meu destino seja ser noiva da aventura”. Anne, assim como Jane, pertence à natureza, ao vento, às palavras e às montanhas. São duas personagens inquietas e sonhadoras. O mundo é o lar de ambas.

Todos os episódios da primeira temporada de Anne with an E são nomeados a partir de frases de Jane Eyre, o que só comprova que Jane Eyre é uma parte gigante da série e que a literatura, é essencial para essa ser uma história tão bela.


Edição e revisão por Isabelle Simões.

Escrito por:

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Estudante de Letras. Obcecada por livros a ponto de não saber mais como viver no mundo real. Apaixonada por literatura inglesa e filmes de época. Praticamente um Hobbit, seja pelo tamanho, por passar muito tempo lendo ou por nunca dispensar uma xícara de chá.
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