CRÍTICA | The Handmaid’s Tale – 4ª temporada

CRÍTICA | The Handmaid’s Tale – 4ª temporada

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Não é fácil assistir a The Handmaid’s Tale diante de tudo o que se passa no país, tão próxima a realidade de alguns fatos. Do mesmo modo, é inegável que o mundo retratado pela série baseada nos livros homônimos de Margaret Atwood também não é revolucionária se comparada à história da escravidão. Fato é que mulheres são violentadas todos os dias, hoje, agora, numa dita democracia. Ainda assim, dói ver a dor nas telas. E o sentimento que The Handmaid’s Tale mais desperta – além da raiva – é o desejo de justiça.

A quarta temporada de The Handmaid’s Tale, então, já começa com essa expectativa. Afinal, os trailers anunciavam uma promessa esperada: a de que June (Elisabeth Moss) finalmente se libertaria de Gilead. No entanto, não era o primeiro momento que aparentava trazer isso.

Primeira temporada: June, levada pelos anjos, aparentava ter uma chance de fuga, como foi nos livros, mas retornou. Segunda temporada: June esteve prestes a subir em um caminhão, o mesmo que levou Emily (Alexis Bledel) e a bebê Nicole em direção ao Canadá, mas retornou. Terceira temporada, baleada durante o resgate de crianças, ela retornou. 

Seria, portanto, a quarta temporada diferente?

june osborne (Elisabeth Moss) na season finale
June (Elisabeth Moss) no final da 4ª temporada de The Handmaid’s Tale | Fonte: IMDB

A selvageria da 4ª temporada de The Handmaid’s Tale

Começamos a quarta temporada de The Handmaid’s Tale com os eventos subsequentes ao resgate das crianças. June, baleada, é amparada por suas companheiras. As aias, então, se escondem na casa do comandante Keyes (Bill MacDonald), onde conhecem Esther (Mackenna Grace), uma jovem esposa de 14 anos, que, apesar dos privilégios de seu status, também sofreu os horrores de viver em uma sociedade misógina. 

Dada em casamento jovem, Esther foi estuprada por seu marido, por outros comandantes, por anjos. E revela, desse modo, que o corpo feminino, independentemente da posição que é ocupa, é visto como um objeto disponível aos interesses dos homens. Mais do que uma preocupação nesta sociedade, a capacidade de gestar é vista como desculpa para essa violação.

É junto a Esther também que June mostra indícios da violência que, justa ou injusta, se vê no episódio final. O mesmo sorriso, o mesmo olhar, o mesmo círculo de mulheres que desejam serem vingadas pela tortura a que foram submetidas. Se, nos primeiros episódios, June concede a arma para que uma se vista com o sangue daquele que a torturou, nos últimos, a própria June se entrega a esta ação coletiva. E num círculo, como no início da série, se deixa reviver os anos como uma aia.

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June e Esther no início da quarta temporada
Esther (Mackenna Grace) e June na 4ª temporada da série da Hulu | Fonte: IMDB

“Sarah. Ellie. Brianna. Alma. Janine. Moira. June”

Nem só de laços de compreensão e conexão, contudo, se faz esta realidade. A violência abre espaço para essas amizades, mas antes vem a sobrevivência. E em determinados momentos, Gilead te obrigará a fazer escolhas. 

Apesar do que todos esperavam para The Hanmaid’s Tale, não foi nesses episódios iniciais que June conseguiu fugir. Antes ela retornou, passou pelas ameaças já conhecidas, até ser confrontada pelo seu calcanhar de Aquiles: Hannah (Jordana Blake). Sua filha, tomada de seus braços e entregue a outra família. Sua filha, aquela que, criada pelos costumes de Gilead, nem sequer a reconhece mais, senão como uma inimiga. E por amor a Hannah, June revela paradeiro de suas companheiras.

É difícil dizer que se faria diferente em dada situação. Em situações excepcionais, mesmo os mais engajados podem agir excepcionalmente. E com certeza a culpa paira sobre June, principalmente quando ela vê, em uma cena emocionante de “The Crossing”, suas amigas morrerem. Sarah. Ellie. Brianna. Alma. Janine. Moira. June”. Quem sobrevive para contar a história?

Adeus. A história da violência é também a história do adeus, de despedidas forçadas, de quem vive e de quem morre, de quem morre em busca da vida. Mas não há tempo para lágrimas, porque até isso Gilead retira das pessoas: o poder de sentir e de sofrer, porque há sempre  algo maior, algo mais urgente.

Junto a Janine (Madeline Brewer), June embarca, finalmente, rumo ao desconhecido: uma chance de resistir a Gilead.

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June e Janine em Chicago
June e Janine em Chicago | Fonte: IMDB

Resistência contra Gilead: o longo caminho de fuga para June

Pela primeira vez, vemos mais do movimento de resistência em The Handmaid’s Tale. Veja, resistir não é necessariamente lutar até a morte. Sobreviver é também uma forma de resistência.

Em “Chicago”, vemos um grupo de resistentes diferentes do Mayday. Ao longo das quatro temporadas da adaptação de O Conto da Aia, ouviu-se falar muito do Mayday, este movimento sem cara, que vez ou outra aparecia, como uma miragem, um sonho que, embora pudesse ser real, nem sempre era concreto. Embora se saiba da existência do Mayday, ele é como uma lenda urbana, aquela história que as pessoas contam a si mesmas para nutrir a esperança e, talvez nisso, agirem por si,  na crença de que agem junto a este coletivo maior.

A resistência com que June e Janine se deparam, entretanto, é diferente, É feita por fugas, caminhadas entre destroços, onde um passo em falso representa a morte. E é feita por jogos de poder, violências que se mascaram dentro da liberdade limitada de se viver nos escombros. Embora Janine pareça se contentar com isso, June quer mais. E acompanhada pela amiga, ruma em direção ao desconhecido, quando novas explosões ocorrem. E na metade da temporada, a virada ocorre.

Ao final do quinto episódio, perde-se Janine. Ninguém sabe onde ela está, se está viva ou se está morta – apenas mais tarde a série mostrará. No entanto, em meio a corpos machucados, Moira (Samira Wiley) aparece para esse grande reencontro.

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O encontro de June e Moira em The Handmaid's Tale
O encontro de June e Moira na 4ª temporada de The Handmaid’s Tale | Fonte: IMDB

Moira e June: o reencontro em The Handmaid’s Tale

Ao som de “Fix You“, June não acredita a princípio. E quem poderia acreditar? Mas Moira está lá, junto a uma equipe de apoio canadense. Apesar disso, Moira não pode resgatá-la, pois isto fere os tratados entre o Canadá e Gilead.

É interessante este contraponto, porque muito semelhante ao que acontece em país em guerra ou que sofrem catástrofe e recebem ajuda de outros países. Afinal, qual a função dessas ações? Por um lado, sabe-se que seria impossível que eles ajudassem todas as pessoas a sair daquela situação. Primeiro, porque são muitas. Segundo, porque os que deixa entrar é justamente esse “acordo de paz”, com o compromisso de que minimizaram os danos, mas sem solucioná-los. Portanto, ao mesmo tempo em que parece ser uma ação “boa”, se julgarmos o ato moralmente, é também uma ação impotente. 

Moira, entretanto e como já se espera também, ignora o alerta e leva June a bordo do navio. Agora, finalmente, depois de tanto lutar, June desembarca em terras canadenses. Mas seria esta a mesma June que vimos no primeiro episódio, aquela que Moira e Luke (O-T Fagbenle) deixaram para trás?

June Osborne no Canadá
A chegada de June no Canadá | Fonte: IMDB

A democrática impunidade de Serena e Fred

No Canadá, vemos Serena (Yvonne Strahovski) e Fred Waterford (Joseph Fiennes) detidos. Com os depoimentos das mulheres refugiadas, sobretudo de June, é difícil negar os atos. E agora a justiça finalmente tem provas contra Gilead. Entretanto, alguns elementos podem colocar em cheque a justiça pelas mãos do Estado.

Para a surpresa de todos, Serena está grávida. O que ela afirma ser um milagre, pode bem não ser também. Mas ao longo da temporada vemos a personagem se reaproximar do marido no intuito de se proteger contra as acusações que recaem sobre o casal. Neste momento, a defesa dos costumes que, sim, encontra apoiadores mesmo no Canadá, parece ser a melhor saída para eles.

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Serena e Fred na 4ª temporada
Serena e Fred recebendo apoio de alguns canadenses | Fonte: reprodução

Serena, a meu ver, foi das personagens mais subaproveitadas da quarta temporada. Na verdade, já há algumas temporadas várias personagens foram diminuindo em sua relevância, ainda que trouxessem debates com boas reflexões.

O caso de Serena é que ela oscila ao longo de cada temporada de The Handmaid’s Tale. É inegável que sua posição seja complexa, que ela seja dominada pelo dilema de ter se sentido no poder ao apoiar Gilead, de ter privilégios por seu status e, ainda assim, ser vítima de uma violência estrutural. No entanto, não fica claro se o desenvolvimento de Serena é propositalmente oscilante ou se personagem nunca teve um caminho definido, sendo utilizada como artifício aleatório para outros contextos. 

Enquanto isso, Fred faz o que fez de melhor ao longo de toda a série: ser sonso e alegar que os crimes que cometeu nunca passaram de uma escolha de Deus.

Serena e Fred Waterford em The Handmaid's Tale
Cena da 4ª temporada | Fonte: IMDB

“Nolite te bastardes carborundorum”: a hora da vingança em The Handmaid’s Tale

O final da quarta temporada de The Handmaid’s Tale, como antecipado, é ao mesmo tempo angustiante e revigorante. Por um lado, ver como as coisas caminham é alimentar o desejo de vingança que há muito é nutrido. Mas racionalmente falando – se é que se pode falar de racionalidade em extremas situações – há algo de inquietante. Onde para a violência da vingança pelas próprias mãos?

Gradativamente, June foi assumindo essa postura violenta. E é compreensível o desejo que ela tem de infligir aos seus torturadores a mesma dor que eles lhe infligiram. Mas o que isto faz com ela? O que isto a torna? O que isto pode gerar para todos?

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Quando June se encontra diante de um Estado impotente, capaz de perdoar alguém porque esta pessoa pode fornecer informações, ela perde os sentidos. O desejo de retribuição é algo que ela e todas as aias ali nutrem. Vimos isso antes, quando tomadas pela fúria, elas se juntam no apedrejamento. Vimos isso no sorriso ao ver o suicídio de uma tia. Vemos isso ao caçarem um comandante. E seria este sentimento algo positivo, enquanto impulso? O seu caráter de vingança anula a carga de violência? Ou violência gera mais violência?

Apesar de todos esses questionamentos. O final é forte. A cena da caçada, a cena da tortura, o sangue sobre uma June que abraça sua filha bebê. Um Luke que não a reconhece mais. Uma Serena grávida que espera por seu marido do outro lado da tela. Um dedo e uma aliança enviados por correspondência. Um corpo e uma mensagem no muro: “NOLITE TE BASTARDES CARBORUNDORUM”.

nolite te bastardes carborundorum
Cena da season finale de The Handmaid’s Tale | Fonte: reprodução

Edição e revisão por Isabelle Simões.


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Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
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