Larissa Sansour: a ficção científica como recurso para narrar a realidade
Larissa Sansour: a ficção científica como recurso para narrar a realidade

Larissa Sansour: a ficção científica como recurso para narrar a realidade

Larissa Sansour é uma artista palestina nascida em 1973 na Jerusalém Oriental e atualmente reside em Londres. Além de curtas e documentários, Larissa também está envolvida com fotografia, esculturas e instalações artísticas e seu trabalho é bastante focado na relação entre mito, memória e realidade. Utilizando as possibilidades da ficção científica, Sansour aborda as questões palestinas com grande sensibilidade. 

A diretora palestina Larissa Sansour
A diretora palestina Larissa Sansour | Foto: divulgação

Na 2ª Mostra de Cinema Árabe Feminino, 4 curtas da cineasta foram exibidos de forma gratuita na mostra “Foco Larissa Sansour – Terrorismo Narrativo para Bagunçar a Matemática da Mitomáquina”, além de ter ministrado uma masterclass em que ela contou às participantes uma pouco sobre sua trajetória no cinema e na ficção científica. A Mostra vai ao ar até dia 27 de junho e conta com uma programação diferente a cada semana, vale a pena conferir!

A questão palestina nos curtas de Larissa Sansour

Em “Um Êxodo no Espaço” (2008), Larissa parece trazer uma mensagem rápida a respeito do contexto político do Oriente Médio.

Uma astronauta está em uma missão espacial e chega a Lua, onde coloca a bandeira da Palestina. E mesmo tendo demarcado sua terra, a astronauta, interpretada pela própria diretora, tem seu fim vagando pelo espaço. Com referências à Kubrick e Neil Armstrong, a protagonista declara “pequeno passo para uma Palestina, grande salto para a humanidade.” 

Cena do curta-metragem "Um Êxodo Espacial" (2008), de Larissa Sansour
Cena do curta-metragem “Um Êxodo Espacial” (2008) | Imagem: divulgação

Codirigido por Søren Lind, “In Vitro” (2019) exala sensibilidade. Em uma tela dividida vemos uma mulher jovem e uma de idade já avançada, deitada em uma cama com alguns medicamentos intravenosos. Aos poucos entendemos que se trata de uma cidade invadida não só pelo líquido negro inicial, mas também por pessoas e doenças e a trama acontece após um desastre ecológico. Muitos habitantes foram obrigados a deixar o local mas outros se recusaram a abandonar seus lugares sagrados. 

Somos apresentadas à antiga rotina das pessoas daquela terra e às tentativas de retomar a vida nos moldes passados, agora no subsolo. Sem a possibilidade de experienciar as vivências anteriores ao desastre, crianças são criadas com as memórias dos outros e assim sofrem duplamente, tanto com a perda de tais experiências quanto com a falta de previsão de um futuro próprio. O presente se torna um peso que separa o que já aconteceu e aquilo que nunca mais poderá acontecer.

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Cena do curta-metragem "In Vitro", dirigido por Larissa Sansour
Cena do curta-metragem “In Vitro” (2019)| Imagem: divulgação

A relação que Larissa Sansour faz das memórias e da temporalidade para aqueles que têm sua terra invadida e são obrigados a procurar outro lugar é magnífica. A profundidade em transmitir a ideia de que as crianças da época nunca terão ou viverão as histórias de seus pais e avós remete a todos cujos direitos são retirados. Não existe direito a terra, a lembranças, a construções afetivas, o que existe é o sofrimento e a nostalgia de gerações anteriores. 

Bastidores da filmagem de "In Vitro" (Palestina, 2019)
Bastidores da filmagem do curta “In Vitro” | Imagem: divulgação

Em “Patrimônio Nacional” (2012) há uma crítica ao segregacionismo elitista em Belém e em outros lugares, como se houvesse uma separação entre quem vai sofrer com as invasões e quem consegue proteger o patrimônio e ainda garantir vida e futuro, mesmo que com limitações. O curta oferece uma “solução” para o conflito do Oriente Médio: um prédio gigantesco para abrigar a população palestina. 

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O curta “Patrimônio Nacional” (2012) oferece uma "solução" para o conflito do Oriente Médio: um prédio gigantesco para abrigar a população palestina. 
Cena do curta “Patrimônio Nacional” (2012) | Imagem: divulgação

Já “No futuro, eles comiam da melhor porcelana” (2015), também codirigido por Søren Lind, a narrativa é contada por meio de um dialogo entre duas mulheres, possivelmente uma delas é psicóloga e a outra trabalha com escavação e parece ter perdido sua irmã. A relação da protagonista com a irmã aborda a relação entre passado e futuro e também entre a memória real e a memória fictícia.

No filme, há um grupo que cria depósitos subterrâneos de porcelanas com a intenção de dizer que pertenceram a uma civilização fictícia, tendo assim o objetivo de influenciar a história e apoiar reivindicações àquelas terras.

"No futuro, eles comiam da melhor porcelana" (2015)
Cena do curta “No futuro, eles comiam da melhor porcelana” (2015) | Imagem: reprodução

Recursos da ficção científica para abordar a realidade

Os filmes de Larissa Sansour tendem a ser bastante escuros, apresentando contrastes sensíveis e dramáticos entre luz e sombra. Os cenários variam entre quartos pretos em que o único foco é a personagem e grandes cenas externas com foco em construções e patrimônios antigos, algo que beira uma paisagem ilusória e delirante. 

A cineasta escolhe recursos da ficção científica para falar sobre as questões do Oriente Médio porque é possível traçar paralelos com a realidade através de narrativas sobre distopias. No entanto, mesmo sem falar diretamente sobre a invasão do território palestino, fica bastante claro que a diretora trata disso em seus filmes, abordando o sofrimento dos que tem suas terras tomadas e a batalha de narrativas entre Jerusalém e Palestina. 

Além das obras de Larissa Sansour, existem diversos livros e materiais audiovisuais que abordam o conflito do Oriente Médio de forma sensível e crítica. Sobre isso recomendamos:

Também recomendamos o perfil do Instagram da ativista Hyatt Omar, que tem feito um trabalho muito importante e esclarecedor com conteúdos sobre a causa Palestina.


Revisão e edição por Isabelle Simões.

Escrito por:

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Psicóloga, mestranda e pesquisadora na área de gênero e representação feminina. Riot grrrl, amante de terror, sci-fi e quadrinhos, baterista e antifascista.
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