A evolução da representação feminina na ficção científica audiovisual (Parte 2)

A evolução da representação feminina na ficção científica audiovisual (Parte 2)

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Como vimos no post “A evolução da representação feminina na ficção científica audiovisual“, as personagens femininas e suas características mais marcantes estão diretamente relacionadas às conquistas do femininismo. Tais conquistas, proporcionadas por lutas de gerações, possibilitaram novas relações e papéis atribuídos às mulheres.

Mulheres diretoras são frequentemente silenciadas e por vezes esquecidas, mas elas têm enorme impacto na produção cinematográfica. Sem mulheres como Dorothy Arzner, Germaine Dulac, Kinuyo Tanaka, Louis Weber, entre outras, não teríamos tantos caminhos e possibilidades dentro da sétima arte, seja como diretoras ou como montadoras, roteiristas e produtoras. Diversos documentários retratam as experiências das pioneiras no cinema, relatando dificuldades mas também trazendo inspiração.

A ideia de uma segunda parte para o post surgiu como um reflexo do machismo dentro da indústria do cinema, que hipervaloriza produções masculinas e marginaliza filmes dirigidos por mulheres. Filmes de ficção científica feitos por mulheres são relativamente mais difíceis de encontrar em uma busca rápida. Entretanto, essas obras são fantásticas e retratam a realidade feminina de forma fiel, mesmo que o roteiro se passe no ano de 2084, como será mostrado a seguir.

Matrix (1999)

Um dos maiores clássicos de ficção científica, “Matrix” foi dirigido pelas irmãs Lana e Lilly Wachowski e mudou a história do cinema. O jogo de câmera e estilo de filmagem utilizados para fazer as cenas de ação mais empolgantes do longa são inspiração para diversos outros cineastas. O efeito Bullet Time foi utilizado na gravação da cena épica em que Neo desvia das balas e só foi popularizado graças as diretoras.

O foco do filme acaba sendo a jornada de Neo (Keanu Reeves), mas as personagens femininas são bem interessantes. Trinitty (Carrie-Anne Moss) está sempre em pé de igualdade com os personagens masculinos. Já Oráculo (Gloria Foster) representa o clímax do longa, pois é ela quem diz se Neo é ou não o escolhido para substituir Morpheus (Laurence Fishburne). Enquanto Trinity é uma exímia lutadora, a Oráculo é tida como a pessoa mais sábia do enredo.

Oráculo em "Matrix".
Oráculo em “Matrix”. (Foto: reprodução)

A maior diferença de gênero trazida pelo filme é a questão do amor romântico. É fato que desde o começo do filme Trinity já demostrava algum sentimento por Neo e as câmeras fazem questão de deixar isso claro. O sentimento que Trinity nutre por Neo o auxilia na compreensão de seu papel na Matrix, mas parece ser um pouco doloroso e confuso para a personagem. Talvez seja uma tentativa de representar uma mulher que nunca se deixou ter uma experiência romântica por ter que ser sempre tão forte.

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Trinity em cena de "Matrix".
Trinity em cena de “Matrix”. (Foto: reprodução)

As irmãs Lana e Lilly Wachowski revolucionaram o cinema com a trilogia “Matrix”. São diretoras, produtoras e roteiristas estado unidenses, envolvidas também com “V de Vingança“, “Jupiter Ascending” e “Sense8“. São mulheres transgêneras que utilizam a influência no cinema para lutarem contra opressões.

As irmãs Lana e Lilly Wachowski
As irmãs Lana e Lilly Wachowski. (Fotos: reprodução)

Vanishing Waves (2013)

Considerado um dos melhores filmes europeus de cinema fantástico, ganhador de 22 prêmios na Europa e nos Estados Unidos, “Vanishing Waves“, traz a história do jovem cientista Lukas (Marius Jampolskis). Ele participa de um experimento que consiste em uma transferência de informações neurológicas de uma paciente em coma. Ao se encontrar, mentalmente, com a paciente Aurora (Jurga Jutaite), Lukas começa a desenvolver com ela uma relação fantasiosa e idealizada. Por conta disso, ele prefere esconder informações dos cientistas para que possa continuar a ter esse contato fantasioso.

Aurora em cena de "Vanishing Waves".
Aurora em cena de “Vanishing Waves”. (Foto: reprodução)

Durante os momentos de transferência neurológica entre Aurora e Lukas, existe um certo envolvimento sexual, explorado muitas vezes como algo coreografado e envolvente. O ato leva mais em conta um erótico lúdico do que algo agressivo como o do sexo pornográfico.

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Aurora e Lukas em cena de “Vanishing Waves”. (Foto: reprodução)

Já na vida real, Lukas mora com sua companheira e seu relacionamento se mostra muito esvaziado de sentido. Mesmo que as atitudes de Lina (Martina Jablonskyte) demonstrem muito investimento e carinho para com o companheiro, Lukas se mostra distante. Com o início de seu relacionamento fantasioso com Aurora, Lukas se torna mais agressivo e violento com a companheira.

Existe algo em Lina que lembra um tom maternal de como o relacionamento deles funciona. Diferente do que acontece com Aurora, que traz prazer carnal e lúdico a Lukas, Lina é sempre responsabilizada por refeições e pela organização da casa. Essas representações femininas podem simbolizar muitos relacionamentos monogâmicos conturbados que envolvem traição, onde a esposa é como um ponto de segurança para o homem, que quer se aventurar livremente com uma amante mas não quer perder a segurança de um lar com comida pronta e roupa lavada.

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Lukas e Lina em cena de "Vanishing Waves".
Lukas e Lina em cena de “Vanishing Waves”. (Foto: reprodução)

“Vanishing Waves” foi dirigido por Kristina Buožytė, que é diretora, roteirista e editora lituana. Seus filmes focam no feminino de modo a explorar elementos fantásticos. Seus principais filmes são “The Collectress (Kolekcionierė)” e “Vanishing Waves”, tendo produzido curta metragens desde 2003 e formada como cineasta em 2005. 

A diretora lituana Kristina Buožytė
A diretora lituana Kristina Buožytė. (Foto: reprodução)

Advantageous (2015)

Advantageous” é uma ficção científica comovente e sensível que aborda um tema relativamente pouco discutido: o envelhecimento feminino. Em uma sociedade futurista, Gwen (Jacqueline Kim) é uma mulher de meia idade, mãe solteira e está prestes a perder o emprego num laboratório de biomedicina. Segundo seus chefes, Gwen está velha demais para a função que ocupa e eles precisam de mulheres mais jovens para representarem a empresa.

As mulheres da realidade em que se passa “Advantageous” estão sendo demitidas porque seus maridos não conseguem organizar a casa e o trabalho doméstico é uma demanda mais importante do que sua independência financeira. Existem diversas crianças se prostituindo e se casando, além de inúmeras mulheres que se tornam mendigas na falta de um trabalho digno.

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Gwen e Jules em cena de “Adventageous”. (Foto: reprodução)

Assim, a trama se desenvolve no momento em que Gwen precisa encontrar outra forma de sustentar e encaminhar a vida da filha Jules (Samantha Kim), que está prestes a ingressar em uma escola particular. A educação é um ponto chave para garantir um futuro melhor para a filha, sendo a melhor forma de mantê-la longe da prostituição, violência e mendigagem.

Gwen e Jules em cena de "Adventageous"
Gwen e Jules em cena de “Adventageous”. (Foto: reprodução)

Gwen representa aqui as mães que são capazes de fazer qualquer coisa em prol de seus filhos, uma ideia quase biológica mas que é bem retratada no filme, de forma delicada e intensa. Em nome do futuro de Jules, Gwen passa por um procedimento ainda pouco explorado e tem sua consciência transplantada em um corpo mais jovem (Freya Adams). As consequências dessa atitude podem ser cruéis, mas a certeza de que sua filha irá ascender socialmente parece ser mais importante para Gwen do que sua própria vida.

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Gwen em cena de “Adventageous”. (Foto: reprodução)

Adventageous” foi uma adaptação de um curta-metragem da diretora Jennifer Phang e contou com o roteiro de Jacqueline Kim, que atuou como protagonista. Ambas foram premiadas por este trabalho no Sundance Film Festival de 2015. Phang é filha de um casamento chine-malásio e vietnamita, formada no American Film Institute e é envolvida com produção cinematográfica desde a direção, à roteirização e edição.

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A diretora Jennifer Phang. (Foto: reprodução)

Bird Box (2018)

Bird Box” teve sua estreia marcada com um grande sucesso, sendo visto por 26 milhões de pessoas apenas na primeira semana. Baseado no livro homônimo de Josh Malerman e com toques de terror, sendo classificado como um filme de terror/ficção científica, o longa de Susanne Bier aborda uma realidade distópica onde as pessoas que tem contato visual com criaturas misteriosas apresentam tendências suicidas. O filme gira em torno da missão da protagonista Melorie (Sandra Bullock) de levar o Menino (Julian Edwards) e Menina (Vivien Lyra Blair) a uma espécie de aldeia, protegida desses seres desconhecidos.

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Melorie em cena de “Bird Box”. (Foto: reprodução)

O filme pode trazer várias interpretações metafóricas sobre nossa realidade que ficam a critério de quem assiste, como uma alegoria à depressão ou às relações líquidas, por exemplo, mas é indiscutível a importância do papel de Melorie na trama. O instinto de sobrevivência se mixa ao desespero de tentar manter as crianças vivas a qualquer custo. Pode-se pensar que Melorie tem pouco tato, mas quem teria alguma esperança num mundo apocalíptico em que qualquer momento de fraqueza pode ser fatal?

Tom, Garoto, Melorie e Garota em cena de "Bird Box".
Tom, Garoto, Melorie e Garota em cena de “Bird Box”. (Foto: reprodução)

O medo do desconhecido e da catástrofe faz com que Melorie tenha falas rudes e rígidas com as crianças. A própria atriz disse que teve dificuldades em ser “pouco maternal”, mas sua declaração pode ter sido estereotipada, afinal, haveria algo mais maternal do que remar por mais de 40 horas para salvar a vida das crianças?

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O fato de Melorie não estar confortável com sua gravidez no início do filme é um ponto importante para a construção de sua personagem, que em momento nenhum abandona as crianças a fim de sobreviver. A maternidade representada em “Bird Box” expõe – principalmente para quem não tem essa experiência, pois quem é mãe sabe – que ser mãe não é só dar mamadeira e carinho, há uma rigidez extremamente necessária neste papel, diferente do que o senso comum propaga.

Susanne Bier é uma cineasta dinamarquesa, conhecida pelos filmes “Brødre”, “Efter brylluppet” e “Hævnen”, com mais de 28 anos de carreira. Em 2016, recebeu o Emmy por Melhor Direção de Minissérie, Filme ou Especial com a série “Gerente da Noite” e com “Hævnen” recebeu o Oscar e o Globo de Ouro, ambos na categoria de Melhor Filme Estrangeiro.

A diretora Susanne Bier.
A diretora Susanne Bier. (Foto: reprodução)

Little Joe (2019)

Dirigido por Jessica Haunster, apresentado e premiado em Cannes em 2019, “Little Joe” traz a história de Alice (Emily Beecham), uma cientista que se dedica à criação de novas espécies botânicas. Alice desenvolve com sua equipe uma planta geneticamente modificada e estéril, que através de conversas e da temperatura ideal, é capaz de deixar seu dono feliz. A planta, batizada de Little Joe, libera ocitocina, o hormônio produzido pela mãe durante a gestação.

Como é uma planta produzida em laboratório, Little Joe não é capaz de multiplicar-se, afinal, a reprodução de uma espécie não natural poderia causar desequilíbrios sem controle e danos a outras espécies. O fato da esterilidade da planta é um dos ponto chave na narrativa e faz com que acontecimentos anormais ocorram no laboratório.

Alice em cena de "Little Joe".
Alice em cena de “Little Joe”. (Foto: reprodução)

Haunster explora a questão da maternidade de forma sensível e metafórica. Alice é a criadora de Little Joe, mas também cuida sozinha de seu filho Joe (Kit Connor), que está passando pelo início da puberdade e começa a se afastar da mãe. Sem o conhecimento de seus colegas de laboratório, Alice leva para casa um exemplar da planta para presentear o filho, numa tentativa de reaproximação dos dois, e então o suspense da trama começa a se desenvolver.

Além da maternidade, a questão da solidão feminina é amplamente abordada nessa ficção científica, principalmente pelos incômodos causados pelas investidas de Chris (Ben Whishaw), colega de Alice. É como se ele não aguentasse ver uma mulher profissionalmente bem sucedida escolher ser solteira.

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Alice e Chris em cena de "Little Joe".
Alice e Chris em cena de “Little Joe”. (Foto: reprodução)

A relação da cientista com o filho é atravessada pelo trabalho inúmeras vezes. Joe demanda atenção da mãe e se queixa de sua ausência, enquanto Alice precisa estar sempre disponível para emergências no trabalho e ocasionais necessidades de sua criação científica. O filme aborda assim a dualidade socialmente cobrada à mulher, que precisa trabalhar para se sustentar e sustentar a casa, além de precisar se doar a seus filhos e lidar com questões emocionais que envolvem a maternidade.

O filme é uma ficção científica sensível e com muito suspense, trilha sonora impecável, capaz de prender a atenção de qualquer um. Jessica Hausner é uma roteirista e diretora austríaca que estudou na Filmacademy Vienna e tornou-se conhecida por seus filmes “Little Joe”, “Lourdes” e “Lovely Rita”.

Jessica Hausner
Jessica Hausner. (Foto: Gianmaria Gava/reprodução)

Level 16 (2019)

O novo suspense distópico de Danishka Esterhazy foi descrito por alguns como um “O Conto da Aia” juvenil. O longa tem em foco a amizade de Vivien (Katie Douglas) e Sophia (Celina Martin), duas adolescentes confinadas em uma instituição autoritária e rigorosa, a qual chamam de escola, comandada pela Srta. Brixil (Sara Canning), cujo objetivo é ensinar as garotas a importância das “virtudes femininas”.

As garotas são obrigadas a repetirem coisas como a de que a maior virtude é a limpeza. Raiva e curiosidade são vícios, sendo assim as garotas são impossibilitadas de questionarem as práticas a elas impostas e inclusive de lerem, além de não terem contato com o mundo externo.

Cena de "Level 16"
Cena de “Level 16”. (Foto: reprodução)

Para as garotas que chegam no nível 16, é prometida a possibilidade de serem adotadas, caso sigam as exigências de limpeza e bons modos. Em associação às aulas maçantes e repetitivas, são dadas vitaminas às meninas, item que Sophia descobre ter efeito sedativo.

O desenvolvimento dessa ficção científica se dá com base nessa descoberta e na tentativa de saírem da tal “escola”. Viv e Sophia tem papel importante em alertar as outras meninas e fazer com que elas deixem de acreditar em tudo o que lhes foi ensinado durante a vida. A união das garotas é o clímax do filme e a única forma de saírem com vida do lugar é reunindo suas forças. “Level 16” é um filme sobre meninas que se salvam sozinhas e isso é o suficiente para compreender o quão empoderador e feminista é o filme.

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Danishka Esterhazy é canadense, formada no Canadian Filme Centre e no National Screen Institute. É conhecida por dirigir filmes com protagonismo feminino forte, como “Black Field”, que inclusive foi premiado em festivais de cinema canadenses. 

A diretora Danishka Esterhazy.
A diretora Danishka Esterhazy. (Foto: reprodução)

Ao vermos papéis femininos sendo dirigidos e idealizados por mulheres, podemos observar a ausência do forte uso de esteriótipos do senso comum. Embora a maternidade em alguns casos ainda apareça como um instinto natural, os aspectos que a cercam são mais escancarados do que seriam se os longas fossem dirigidos por homens.

A busca dos filmes que poderiam estar presentes nesse post foi longa, o que reflete mais uma vez a dificuldade de termos diretoras mulheres fazendo ficção científica e sendo reconhecidas por isso. Além disso, encontramos apenas um filme dirigido por uma mulher negra, e ainda assim era muito mais voltado à fantasia de conto de fadas (“Uma Dobra no Tempo“). Outro dos poucos filmes que encontramos que tinham uma atriz negra em foco era muito parecido com o clichê adolescente de “Divergente” e a personagem foi pouco desenvolvida, mesmo sendo principal (“The Darkest Minds“). Dessa forma, o protagonismo de mulheres negras e de queers ainda é um ponto fraco no cinema de ficção científica e que precisa ser melhorado com urgência.


Edição por Isabelle Simões e revisão por Mariana Teixeira.


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Autora

Estudante de Psicologia, pesquisadora na área de gênero e representação feminina. Riot grrrl, amante de terror, sci-fi e quadrinhos, baterista e antifascista.
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