As mulheres na quarta temporada de “The Last Kingdom”

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The Last Kingdom é uma série original da Netflix, e uma das melhores produções de ambientação medieval em andamento. Recentemente, sua quarta temporada estreou, trazendo muitas reviravoltas na tanto vida do guerreiro Uhtred (Alexander Dreymon) quanto dos povos saxões e daneses. 

AVISO: Spoilers a seguir

Após a morte do rei Alfred (David Dawson), o trono do reino de Wessex é responsabilidade do jovem Edward (Timothy Innes), um rapaz ainda inexperiente. Enquanto na côrte o novo rei precisa tomar decisões importantes, e decidir a quem ouvirá, Uhtred decide partir em busca de seu próprio destino na Northumbria.

Edward (Timothy Innes) e Uhtred (Alexander Dreymon) em The Last Kingdom. (imagem: Netflix)

Entretanto, a jornada para reconquistar seu lar, Bebbanburg, termina por fracassada. Uhtred acaba novamente no centro dos dilemas dos saxões. Agora não mais servindo a Alfred, mas a seus filhos Edward e Aethelflaed (Millie Brady), a quarta temporada de The Last Kingdom apresenta um Uhtred que já parece muito mais decidido a respeito das escolhas de sua vida. O homem que vivia o dilema entre daneses e saxões, pagãos e cristãos, demonstra estar mais tranquilo com relação às suas decisões. 

Entre duelos de espada e embates políticos, o universo da série será impactado pelas vidas de diferentes mulheres. O protagonismo feminino em The Last Kingdom se destaca em cada temporada, onde as personagens ocupam diferentes espaços e defendem com veemência seus princípios e crenças.

Novos rostos em The Last Kingdom

Enquanto de um lado The Last Kingdom mantém alguns personagens desde a primeira temporada, de outro há uma renovação constante na história. A cada novo ciclo, o público se despede de algumas figuras importantes e é introduzido a novos rostos. 

Desempenhando um papel essencial nos acontecimentos está Eadith (Stefanie Martini). Advinda de uma família marcada pela desonra, ela é pressionada pelo irmão para se envolver com Aethelred (Toby Regbo), no intuito de manipulá-lo para reconquistar o prestígio de sua família. 

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Eadith (Stefanie Martini)
Eadith (Stefanie Martini) em The Last Kingdom. (Imagem: Netflix)

Ela acaba no centro de diversos acontecimentos, e inclusive presencia o assassinato de Aethelred pelas mãos de seu próprio irmão. Eadith funciona, no início, como uma observadora silenciosa, que guarda informações importantes mas ainda não oferece certeza a respeito de seu lado na história. No momento em que encontra a sua voz, ela revela o crime cometido pelo irmão, e impede que ele se case com a filha de Aethelflaed. O casamento traria duas desgraças para o universo da série; um homem cruel no poder e a união entre um adulto e uma criança que é vista como adulta por conveniência. 

Eadith se mostra uma mulher corajosa durante o decorrer da história, que se arrisca para salvar as pessoas ao seu redor. Quando Wessex é invadida pelos dinamarqueses, é ela quem está infiltrada. Quando Uhtred e seus homens foram capturados, ela os libertou. Diferente de seu irmão, que era consumido pela ganância, ela conquistou honra e admiração das pessoas ao seu redor por conta de atitudes nobres. 

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A quarta temporada de The Last Kingdom também introduziu ao público arcos importantes para os filhos de Uhtred. Uhtred, o jovem (Finn Elliot), foi enviado por Alfred para seguir o caminho cristão, para o desagrado do pai. Enquanto Uhtred tenta convencer o rapaz a se tornar um guerreiro, seu filho demonstra ter herdado a mesma teimosia do pai, e a mesma determinação em seguir no caminho que acredita. Juntos, os personagens contaram uma história cativante sobre família e confiança, sobre um pai e um filho que se amam e sentem orgulho um do outro apesar dos caminhos diferentes.

Já a filha de Uhtred, Stiorra (Ruby Hartley), é uma guerreira nata, e uma jovem que almeja viver e ver o mundo. Entretanto, a personagem representa uma mensagem maior, que será revelada perto do fim da temporada. Se por um lado Uhtred já se sentiu dividido entre dois mundos, sem saber se era inglês ou dinamarquês, Stiorra está decidida a não lutar uma guerra que não é sua. Ela tem o olhar do povo que vê os reinos mudando, e compartilha sua visão com Sigtryggr (Eysteinn Sigurðarson), o jovem líder que invadiu Wessex e que, diferente de outros guerreiros, está disposto a dialogar. 

Stiorra (Ruby Hartley) em The Last Kingdom.
Stiorra (Ruby Hartley) em The Last Kingdom. (Imagem: Netflix)

Stiorra se recusa a sofrer o impasse que seu pai viveu, e demonstra que a paz para Uhtred é possível. O dilema de Uhtred é o dilema de todos os reinos, que vivem à mercê de uma guerra travada entre líderes, mas que resulta nas mortes dos homens no fyrd. Stiorra decide viver com Sigtryggr no fim da temporada, após uma negociação finalmente acontecer entre os dois povos inimigos. 

Vingança, arrependimento e liderança para as mulheres

Se Stiorra, Uhtred e outros personagens da história simbolizam a possibilidade de acordos, diálogos e negociações, o público pode ter certeza que esse futuro não é almejado por todos. Brida (Emily Cox) jura com cada vez mais veemência a sua vingança contra Uhtred. O último vislumbre que a espectadora tem da personagem é o parto de seu bebê. A criança que ela afirmou que irá ensinar a odiar todos os ingleses. 

Brida foi uma das personagens mais importantes da história desde o início. Nela nunca se viu qualquer reminiscência de suas origens inglesas. Ela ama a vida com os daneses, eles são seu povo e ela é uma conquistadora. Uhtred e Brida começaram juntos, mas agora trilham jornadas totalmente diferentes, entrelaçadas pelo sentimento de traição que cresce cada vez mais em Brida.

Brida (Emily Cox) em The Last Kingdom.
Brida (Emily Cox) em The Last Kingdom. (Imagem: Netflix)

A quarta temporada da série foi definitiva para o arco de antagonismo de Brida, muito bem trabalhado por sinal, e ela agora é definitivamente uma inimiga que Uhtred deve temer. Ela ascende de seu sofrimento, e é implacável em batalha. A oposição entre ela e Uhtred, que foram de amigos e amantes para lados opostos da guerra, tem um tom de melancolia. Para a quinta temporada fica a pergunta se os dois personagens, que cresceram juntos, conseguirão um dia se reconciliarem, ou se a guerreira conseguirá consumar sua tão prometida vingança.

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Além dos embates entre daneses e saxões, as contendas dentro da própria côrte têm se mostrado tão fatais quanto os golpes de espadas desferidos em meio às batalhas. Diferente das paredes de escudo tão marcantes em The Last Kingdom, a família do rei Alfred parece ter ficado um pouco à deriva após sua morte. A rainha Aelswith (Eliza Butterworth) perdeu grande parte de sua influência durante o reinado do filho. O sogro de Edward deseja afastá-la do reino desde o princípio, e acaba por envenená-la. A sobrevivência da rainha fica como um mistério a ser resolvido na quinta temporada.

The Last Kingdom possui uma excelente qualidade em trabalhar seus personagens de destaque buscando deixá-los fora do maniqueísmo. Mesmo quando ocupam diferentes lados na batalha, o espectador não se vê confinado em noções de vilões e mocinhos. Com algumas exceções, todos são heróis de suas próprias histórias. Todos os personagens possuem motivações e sonhos passíveis de serem abarcados pelo público, de modo que a história da Inglaterra não é uma história apenas sobre os ingleses. 

A rainha Aelswith é um excelente exemplo disso. Se antes ela antagonizava com tudo o que Uhtred era, agora ela compreende exatamente o que Alfred via nele. Ela revisita seus erros do passado, e decide mudar a história do reino ao se preocupar com o primogênito de Edward, que acaba a temporada sendo cuidado por Uhtred, o homem em quem ela nunca pensou que fosse confiar. 

Aelswith (Eliza Butterworth) em The Last Kingdom.
Aelswith (Eliza Butterworth) em The Last Kingdom. (Imagem: Netflix)
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The Last Kingdom tem um destaque positivo quando se trata de representatividade feminina que é a forma como trabalha as mulheres em posições de poder. Diferindo do estereótipo das mulheres loucas pelo poder, Aelswith e Aethelflaed são duas das personagens mais relevantes da série, e atuam como verdadeiras líderes. Elas erram e acertam, mas jamais performam histeria, que é um recurso comum para qualquer personagem feminina em um ambiente político.

A série mostra como é possível que personagens femininas sejam líderes, governantes, e razoáveis. Elas ainda demonstram sentimentos intensos, como desespero e raiva, mas não se tornam maníacas desequilibradas. Em diversos momentos, Aethelflaed tem mais visão de governo que seu irmão. Ainda assim, ela e Edward conseguem concordar, buscando seguir o sonho do pai antes de seus objetivos pessoais. 

Embora Edward nem considerasse a irmã como governante da Mércia em meio à crise de liderança, Uhtred vê nela a líder que o povo precisava. Com Aethelflaed assumindo o comando do reino, o romance entre ela e Uhtred parece ter encontrado seu fim ou, ao menos, ter sido suspenso por um tempo (visto que ela teve de jurar castidade enquanto estiver no poder). Isso não abalou, no entanto, a fidelidade do guerreiro para servi-la em batalha.

Aethelflaed (Millie Brady) em The Last Kingdom.
Aethelflaed (Millie Brady) em The Last Kingdom. (Imagem: Netflix)
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A quarta temporada de The Last Kingdom foi composta em sua grande maioria por episódios repletos de ação e tensão. Ainda assim, muitos personagens foram explorados de forma mais profunda. Tanto Uhtred demonstrou muito desenvolvimento quanto os demais personagens do universo da série foram aprofundados de forma independente ao protagonista. Mesmo aqueles que saíram um pouco de cena, como Hild (Eva Birthistle), se retiraram por conta de suas próprias escolhas, e não porque não interessavam mais à jornada de Uhtred. O público recebeu uma temporada impecável, que mostra que a série trilha um caminho muito promissor. 

As mulheres de The Last Kingdom, sejam inglesas ou dinamarquesas, pagãs ou cristãs, guerreiras, nobres ou apenas jovens querendo descobrir seu lugar no mundo, seguem seus caminhos com intensidade. Elas impactam a história dos reinos ao escrever suas próprias histórias, buscando encontrar seus próprios destinos. Afinal de contas, o destino é tudo.


Edição e revisão por Isabelle Simões.

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Estudante do curso de Jornalismo. Gosta muito de cinema, literatura e fotografia. Embora ame escrever, é péssima com informações biográficas.
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