“The Last Kingdom” e a representação feminina em séries medievais

“The Last Kingdom” e a representação feminina em séries medievais

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Não é de hoje que as séries de TV em geral possuem problemas quando se trata de personagens femininas. Seja por falta de desenvolvimento, hipersexualização ou pela própria ausência de mulheres dentro de um universo, a indústria midiática deu suporte a uma representação machista da mulher durante muito tempo. Em histórias ambientalizadas em universos medievais, a situação piora significativamente, e a visão desumana com a qual a mulher é retratada é potencializada por desculpas relativas ao período histórico no qual a série se passa. As mudanças na representação da mulher na mídia são muito recentes. Estabelecer um protagonismo feminino sem sexualização é uma luta constante. A partir desse ponto de vista, a série The Last Kingdom apresenta um novo patamar de representatividade, embora não consiga fugir de alguns clichês.

AVISO: O texto a seguir contém spoilers da série

Adaptada da série de livros “Crônicas Saxônicas”, do autor inglês Bernard Cornwell, a série de TV se passa no ano de 872, onde reinos que viriam futuramente a formar a Inglaterra estavam sendo dominados pelos Dinamarqueses, e acompanha a jornada do protagonista Uhtred (Alexander Dreymon). Nascido em uma família saxã, ainda criança ele vê seu pai morrer em uma batalha contra os vikings e é levado por um deles como servo, para vir a ser adotado após algum tempo pela família a qual servia. Futuramente, toda a família que adotou Uhtred será assassinada em um ataque, que será atribuído ao protagonista, forçando-o a buscar refúgio em Wessex, último reino saxão a não ser conquistado.

Uhtred (Alexander Dreymon)
Uhtred (Alexander Dreymon) em “The Last Kingdom”. Imagem: reprodução

Geralmente, em filmes e séries medievais a desculpa do período histórico é usada para justificar uma construção sexista das personagens. Ou elas são constantemente hipersexualizadas, com cenas de nudez desnecessárias e cenas de estupro narradas sob um viés nocivo, ou são tratadas como criaturas sem personalidade que existem apenas para cuidar dos filhos e da casa. Quando se trata de “The Last Kingdom”, a série não escapa completamente de alguns clichês, mas traz um viés novo e positivo na construção de personagens femininas. 

Todas as mulheres de “The Last Kingdom” possuem personalidade forte, independente do estilo de vida que escolheram seguir, além delas quebrarem vários padrões e clichês. Começando por Hild (Eva Birthistle), uma freira guerreira que é tolerante com diferentes crenças, mesmo em um período de tanta intolerância. Aethelflaed (Millie Brady) é uma princesa que fora treinada desde jovem para saber guerrear, mas também para governar. E Aelswith (Eliza Butterworth), sua mãe e esposa do rei Alfred (David Dawson), uma rainha de personalidade extremamente forte, que contraria todos sempre que achar necessário.

Seja em um campo de batalha, em uma igreja, na corte ou cuidando da casa e da família, nenhuma delas é apenas um objeto na vida do protagonista, nenhuma delas ocupa todo seu tempo em cena apenas como figuração. Todas as mulheres em “The Last Kingdom” têm anseios, crenças, ideais e sentimentos. Não importa se estão lutando com uma espada ou com palavras, elas têm influências que ultrapassam o clichê de servirem como mero recipiente emocional para o protagonista, além de suas próprias histórias, conflitos e dilemas.

Brida (Emily Cox)
Brida (Emily Cox) em “The Last Kingdom”. Imagem: reprodução

A força feminina é introduzida com Brida (Emily Cox), amiga e amante de Uhtred, que possui uma jornada semelhante a dele. Brida também fora levada desde criança do meio saxão, onde nascera, para ser criada entre os dinamarqueses. A diferença é que ela não passa pelas mesmas dúvidas de Uhtred. Enquanto ele ainda pensa em sua terra natal, no reino que é seu por direito e na herança material e cultural que deixou para trás, Brida está muito feliz e bem resolvida com a vida que leva, e não deseja de forma alguma abrir mão da liberdade que tem para viver conforme os costumes da sociedade que deixou para trás (motivo que a leva a sair da companhia de Uhtred e ir buscar seu destino sozinha).

Brida é vítima de uma maldição que a impede de ter filhos e acaba sofrendo vários abortos toda vez que consegue engravidar, o que culmina em um grande pesar para a personagem, que acaba carregando sua dor e tragédia sozinha. O sofrimento acaba se mesclando com diferentes aspectos de suas consequências, tornando as decisões da personagem durante o passar do tempo cada vez mais complexas. Após partir de Wessex, deixando Uhtred para trás, Brida lutará ao lado dos dinamarqueses como uma guerreira implacável, tanto em sua força física quanto emocional.

The Last Kingdom
Mildrith (Amy Wren) em “The Last Kingdom”. Imagem: reprodução

Em seguida, a figura feminina que acompanhará Uhtred será Mildrith (Amy Wren), a mulher com a qual ele virá a se casar por conta de uma sutil exigência do rei Alfred, que o faz na tentativa de que o guerreiro estabeleça vínculos duradouros com Wessex. Diferente de Brida, Mildrith quer levar uma vida dentro dos conformes da sociedade saxã, tendo uma fé cristã muito intensa que futuramente se torna motivo de desavença dentro do casamento (pois Uhtred é um homem pagão). Futuramente, o guerreiro a abandonará para viver um romance com a rainha Iseult (Charlie Murphy), outra personagem de grande importância na série, pois ela terá um papel decisivo para o reino de Wessex, usando seus dons de feiticeira para salvar Eduard, filho do rei Alfred e herdeiro do trono.

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The Last Kingdom
Iseult (Charlie Murphy) em “The Last Kingdom”. Imagem: reprodução

Iseult também salvará Hild (Eva Birthistle) de um estupro, e a relação amigável e respeitosa das duas também quebra um clichê de ódio tanto entre mulheres quanto entre devotos com crenças muito diferentes, relação essa que possuía um potencial para ser muito mais explorada, infelizmente. Junto com Uhtred, Iseult vive um romance muito intenso. O porém é que Uhtred abandona Mildrith com o filho deles e futuramente também partirá de Wessex, deixando os filhos para trás para serem criados por outras mulheres. A série não consegue fugir do fato de que as mulheres na vida de Uhtred acabam muitas vezes cuidando de seus filhos enquanto ele vive sua vida e traça sua jornada.

Na verdade, Uhtred é o responsável pela perpetuação de muitos clichês e pela dificuldade de desenvolvimento de muitas personagens. Durante as duas primeiras temporadas, têm-se a sensação de que a partir do momento que um determinado personagem não se encaixa na jornada de Uhtred, ele é removido do caminho em algum momento. Os guerreiros que o acompanham morrem e são substituídos por novos frequentemente. As mulheres estão em sua vida enquanto as motivações delas coincidem com as dele (que parecem variar, dada a impulsividade do personagem), e a partir do momento em que a presença delas não se encaixa mais na trama do protagonista, elas morrem, vão embora para seguirem seus rumos ou ficam em Wessex tomando conta de suas vidas.

Embora sejam excelentes personagens e muito bem escritas, qualquer arco que não esteja diretamente ligado a Uhtred acaba se resumindo a tramas políticas, passando a sensação de que não há tempo para aprofundar as vidas de outros personagens.

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Hild (Eva Birthistle) em “The Last Kingdom”. Imagem: reprodução

Embora um dos clichês mais presentes na série seja o de que boa parte das mulheres que aparecem na vida de Uhtred se tornam interesses amorosos do protagonista, isso não acontece com Hild (Eva Birthistle), personagem que é introduzida nos últimos episódios da primeira temporada, uma freira com muita compaixão e sabedoria ao agir. Ela tem sua fé como guia e cujos princípios e motivações estão muito claros. Hild também é uma guerreira, que ajuda Uhtred nas batalhas, lutando ao seu lado. A única relação entre ambos é uma grande amizade, onde um dá apoio e suporte ao outro sempre que necessário. Na verdade, é justamente em sua relação com Uhtred que é possível ver um exemplo de tolerância e respeito de sua parte.

Em diversos momentos de “The Last Kingdom”, é Hild quem dá suporte e apoio nas situações mais importantes para o protagonista em Wessex, enquanto outros personagens o rejeitam por julgarem suas ações como atos de um pagão. Em todas as formas e rompendo com inúmeros estereótipos, Hild honra sua fé e seus princípios com ensinamentos bastante atuais.

The Last Kingdom

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Um ponto em que a série caminha de forma positiva se trata de que as personagens femininas não são hipersexualizadas. As poucas cenas de nudez da série são justamente as cenas de sexo, que embora frequentes, não são constantes. Os estupros não são utilizados como motivação para as mulheres, e fica bem claro o sofrimento e o trauma delas. Contudo, esse tema atinge um aspecto muito positivo quando se trata de narrativa, justamente ao explorar a tragédia que ocorre com Thyra, irmã de Uhtred e única sobrevivente ao ataque realizado por um grupo viking, que culminou na morte de todo o restante da família.

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Thyra (Julia Bache-Wiig) em “The Last Kingdom”. Gif: reprodução

Thyra (Julia Bache-Wiig) é sequestrada no dia de seu casamento. Ela é levada como refém e mantida em cativeiro durante anos, sendo estuprada durante esse período. A série dá a entender o que aconteceu, mas não há qualquer cena explícita sobre a violência sexual, e ao ser libertada, a moça está completamente transtornada. Portanto, há um paralelo com a personagem Sansa, da série Game of Thrones, pois Thyra, ao escapar, faz com que um dos homens que a estuprou (e justamente o rapaz que a perseguia desde a infância e que a sequestrou) seja morto por cães.

A diferença é que essa vingança não resolve todos os problemas da personagem e não faz com que ela automaticamente se sinta mais forte, pelo contrário, a moça está mais abalada ainda, e é levada para Wessex para ser cuidada e tratar de seus traumas. Futuramente, é Thyra quem reconhecerá que a princesa Aethelflaed está sofrendo violência por conta de seu esposo, rei da Mércia.

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Aethelflaed (Millie Brady) em “The Last Kingdom”. Gif: reprodução

Aethelflaed (Millie Brady) , princesa de Wessex e senhora da Mércia, é uma guerreira habilidosa, porém muito além disso. Ela possui conhecimento estratégico e administrativo, além de sabedoria para governar, portanto o seu perfil é o de uma verdadeira rainha.

Durante a terceira temporada de “The Last Kingdom”, o rei Alfred encontra-se em um dilema. Acometido por uma terrível doença, em breve ele virá a falecer e o jovem Eduard governará o reino. A preocupação de Alfred não é em vão, visto que o rapaz não possui as habilidades necessárias para ser um rei, e torna-se um paralelo interessante e melancólico observar a sabedoria e competência de Aethelflaed para governar em comparação a seu jovem irmão, destinado ao trono apesar da inexperiência.

A relação de Aethelflaed com o seu esposo, um homem cruel que inicialmente estabelece um relacionamento abusivo e opressor para com ela, também se torna uma batalha que a personagem encara com força e coragem. Aethelflaed, apesar de viver na idade média, é um exemplo muito atual de como o caminho para as mulheres é sempre duas vezes mais difícil.

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Skade (Thea Sofie Loch Naess) em “The Last Kingdom”. Imagem: reprodução

Outra personagem importante é Skade (Thea Sofie Loch Naess), uma vilã cujo impacto na série demora a se desvelar. Skade é uma feiticeira manipuladora e movida apenas por seus próprios desejos, que acaba sendo, durante muitos momentos, uma verdadeira femme fatale. Caindo em alguns clichês e rivalizando com praticamente toda e qualquer mulher que cruza seu caminho, seu propósito fica um pouco obscuro e o fim de sua jornada mais ainda.

Embora a construção de sua identidade traga vários elementos interessantes e macabros, seu poder é questionável, deixando a espectadora um pouco em dúvida se as consequências da maldição que ela lança em Uhtred são reais, se ela é verdadeiramente uma feiticeira muito poderosa, ou se tudo não passa de um efeito placebo por conta do medo que o herói sente. Ainda assim, ela é uma das únicas personagens na série que tem forças para verdadeiramente aterrorizar o guerreiro, sem precisar de nada além de palavras, e sua determinação e astúcia fazem dela uma mulher poderosa que causa um abalo significativo em Uhtred.

Com uma abordagem que foge consideravelmente dos clichês sexistas que estiveram tão presentes na forma como as mulheres são representadas na arte cinematográfica durante muito tempo, a série tem diversas nuances que rendem grandes reflexões. Em muitos sentidos, “The Last Kingdom” dá passos positivos na construção de personagens femininas dentro dos mais diferentes universos da ficção, embora ainda sejam passos de formiga.

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Estudante do curso de Jornalismo. Gosta muito de cinema, literatura e fotografia. Embora ame escrever, é péssima com informações biográficas.
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