A importância da representatividade de “This is Us”

A importância da representatividade de “This is Us”

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This is Us é uma série de televisão criada por Dan Fogelman, que recentemente encerrou sua quarta temporada. Focando na história dos integrantes da família Pearson, a série explora os altos e baixos da vida de diversos personagens enquanto percorre épocas diferentes de suas trajetórias. Estendendo sua atenção aos personagens que vão se unindo à família com o passar do tempo, e narrando a história de forma não-linear, This is Us tem um campo de possibilidades infinitas para dar continuidade ao seu universo.

AVISO: Spoilers a seguir

Em uma história permeada tanto por tragédias quanto alegrias, o público é introduzido ao eixo principal da trama, o casal Jack (Milo Ventimiglia) e Rebecca Pearson (Mandy Moore) e seus filhos Kevin (Justin Hartley), Kate (Chrissy Metz) e Randall (Sterling K. Brown), a quem chamam de ‘’os três grandes’’. Passando por histórias de amor e luto, a vida se desenrola para o trio, enquanto lidam com questões em seus casamentos, empregos, filhos, etc.

Rebecca (Mandy Moore) e Jack (Milo Ventimiglia) em This is Us.
Rebecca (Mandy Moore) e Jack (Milo Ventimiglia) em This is Us | Imagem: divulgação

Uma das características mais significativas de This is Us e que torna a série tão relevante, além das escolhas narrativas, é sua vasta representatividade, bem como a abordagem de temas sociais importantes. Desde o princípio a espectadora é introduzida às jornadas de Kate, cuja trajetória envolve tanto autoaceitação quanto gordofobia, e Randall, um homem negro adotado por uma família de pessoas brancas. Essas questões não apenas são aprofundadas, como também abrem espaço para novos personagens com novas singularidades a serem exploradas.

Durante o tempo todo, a presença de tantas minorias e questões sociais é tratada de forma natural. Em momento algum a série parece usar dessa característica para se autopromover. Pelo contrário, a naturalidade com que os temas são abordados os coloca em uma posição que deveria existir em todas as obras 一 a de que a diversidade é básica para que se atinja um retrato fidedigno da realidade.

A representação de personagens negros em This is Us

Randall Pearson é um homem muito inteligente, praticamente um prodígio. Ele é bem sucedido, profissional e competente em tudo que faz. E embora seja assim desde a infância, isso nunca o protegeu de sofrer racismo até por parte de sua própria avó materna.

O personagem cresceu rodeado de pessoas brancas, e teve que buscar por conta própria pela comunidade negra que o acolheu e o ajudou a compreender a própria identidade. Seus amorosos pais tiveram uma longa jornada para entender que, se não viam Randall como o homem negro que era, então não o viam de verdade. 

Apesar disso, Randall, sua esposa e filhas moram em um bairro repleto de brancos, onde ele precisa explicar cada movimentação diferente que acontece em sua casa para os vizinhos. A pressão de sempre ter algo para provar está presente desde a infância, onde o menino passa horas de seu dia estudando, e sempre sofre para mostrar a todos que é o melhor. 

A vida de Randall terá uma grande reviravolta ao finalmente encontrar seu pai biológico, William Hill (Ron Cephas Jones), um homem com uma vida sofrida, que abriu mão de Randall por não ter condições de criá-lo. William foi um ativista, um músico, poeta e que não se conforma em ver a postura passiva de Randall aos comportamentos preconceituosos dos vizinhos. Ele vem para tirar o filho da zona de conforto e fazê-lo questionar o que pode fazer por si mesmo e pela sociedade. O contato breve que os dois têm até o falecimento de William muda a vida de Randall para sempre. 

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This is Us está repleta de mulheres negras inteligentes e independentes. Beth Pearson (Susan Kelechi Watson) era uma bailarina talentosa antes de ir para a faculdade de arquitetura e conhecer Randall, com quem se casaria anos mais tarde. Ela precisa passar por uma jornada pessoal para redescobrir seu amor pela dança, e decidir investir nisso apesar as dificuldades.

Tess (Eris Baker), Randall (Sterling K. Brown), Annie (Faithe Herman), Beth (Susan Kelechi Watson) e Deja (Lyric Ross)
Tess (Eris Baker), Randall (Sterling K. Brown), Annie (Faithe Herman), Beth (Susan Kelechi Watson) e Deja (Lyric Ross) em This is Us | Imagem: divulgação

As filhas do casal, Tess (Eris Baker), Annie (Faithe Herman) e Deja (Lyric Ross) também possuem suas individualidades e histórias. Deja é resultado das inquietações que William gera na vida da família, que fazem com que Randall e Beth decidam adotar. Beth afirma que eles devem buscar uma criança um pouco mais velha, visto que os casais, em grande maioria, buscam adotar bebês. 

Assim, Deja entra para a família Pearson, advinda de um complicado contexto familiar. Aos treze anos ela sofreu muito, esteve em muitos lares adotivos e traz uma bagagem com a qual ninguém da família é capaz de se identificar. Ela precisa se adaptar à nova realidade, ao mesmo tempo em que lida com a ausência da mãe biológica. 

Embora sejam primas, Beth e Zoe (Melanie Liburd) foram criadas como irmãs. Zoe foi morar com a família de Beth pois foi sexualmente abusada pelo próprio pai. É ela quem representa uma mulher em quem Deja consegue se espelhar em seu momento mais difícil. A sororidade e a empatia entre as mulheres de This is Us está frequentemente em cena, e elas podem buscar amigas e familiares em suas tristezas, dores e questionamentos pessoais. 

A representatividade LGBTQ+ em This is Us

William amou muito a mãe de Randall, que acabou falecendo no parto. Após isso, ele conseguiu amar novamente, e teve um relacionamento com Jessie (Denis O’Hare), homem que conheceu em um grupo de apoio para toxicodependentes. A bissexualidade de William gera estranhamento em Randall em um primeiro momento, mas depois é encarada de forma natural. 

William Hill (Ron Cephas Jones)
William Hill (Ron Cephas Jones) em This is Us. | Imagem: divulgação

O personagem é abertamente descrito como bissexual, aspecto positivo, visto que a invisibilidade com a qual pessoas bissexuais sofrem faz com que, muitas vezes, até a palavra seja apagada e esquecida.

Tess Pearson se descobriu lésbica ainda na pré-adolescência. Ela encara muitas inseguranças para se abrir quanto à isso. Quando finalmente decide contar aos pais, Beth e Randall são muito compreensivos e amorosos com a filha, fazendo com que ela se sinta segura e acolhida para falar sobre sua sexualidade. Todos da família reagem bem à revelação de Tess, desde sua avó até sua irmã mais nova. Assim, This is Us escolhe retratar um ambiente familiar saudável e confiável para que uma jovem descubra sua sexualidade.

A autoaceitação de Kate Pearson: de gordofobia à distúrbios alimentares

Desde o princípio da história de Kate, o público é introduzido ao seu desejo de perder peso. Kate sofre gordofobia desde a infância, e seus pais nunca souberam lidar com isso. Enquanto Rebecca se sentia desconfortável em ver a filha comendo, mas tinha medo de impor limites quando isso se manifestava de forma compulsiva, Jack não se importava, pois achava que a filha era linda e que não havia problema algum.

Kate cresce com inseguranças com relação à própria aparência. Após a morte de seu pai, acaba se envolvendo em um relacionamento abusivo, o que deixa marcas em seu psicológico por muito tempo. Ela foi ridicularizada pelas ‘’amigas’’ na infância, maltratada em relacionamentos, constrangida em público, e todas essas situações colaboram para uma autoimagem negativa.

Na vida adulta, Kate é saudável. Ela luta contra a compulsão por comida em momentos de tristeza, faz exercícios regularmente, tem uma dieta saudável e mantém a mente ativa. Ela conhece Toby (Chris Sullivan) em um grupo de apoio para pessoas gordas, e os dois embarcam em uma história de amor juntos. 

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Em paralelo com o passado, onde Kate sofreu diversos preconceitos, com Toby ela encara um relacionamento feliz, repleto de respeito, onde ela se sente amada e livre para ser quem realmente é. Assim, ela redescobre sua paixão pela música, volta a cantar, se forma na faculdade e percebe o quanto quer ser mãe.

Em This is Us, são abordadas questões relativas às dificuldades da gravidez de Kate. Seu peso e idade são encarados pelos médicos como um fator que praticamente a impossibilita de ter um filho. Assim como sua mãe, ela acaba sofrendo um aborto, e precisa lidar com o luto e encontrar forças para seguir em frente. 

Kate (Chrissy Metz) e Toby (Chris Sullivan) na quarta temporada
Kate (Chrissy Metz) e Toby (Chris Sullivan) em This is Us. | Imagem: divulgação

Após engravidar novamente, Kate tem um parto prematuro e o bebê acaba nascendo com uma deficiência visual. Nomeado em homenagem ao avô, Jack Damon (Blake Stadnik) tem momentos de seu futuro revelados ao público através dos flashforward, vivendo sua carreira de cantor e tendo seu primeiro filho.

A gordofobia sofrida por Kate é abordada nos mais diferentes aspectos. Desde o constrangimento em restaurantes e aviões, por não conseguir assentos do seu tamanho até o preconceito dentro de sua própria família, com comentários cruéis de sua avó. 

As nuances da vida de Kate mostram seus sonhos, medos e culpas. Ela é uma mulher sensível, artística e amorosa. A cada temporada ela é trabalhada com mais profundidade, constituindo um dos arcos mais interessantes da série. 

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No grupo de apoio, Kate também conhece Madison (Caitlin Thompson), uma jovem extremamente magra que se vê como gorda. No início a moça desperta raiva em Kate, mas a medida que as duas se aproximam, ela descobre que Madison na verdade sofre de distúrbios alimentares. 

As duas se tornam grandes amigas, e enquanto Kate tenta convencer Madison a reconhecer o seu problema, Madison está presente ajudando Kate em seus momentos mais importantes. Futuramente ela ficará grávida de Kevin, e revelará o quanto sua gravidez foi considerada impossível por conta dos distúrbios alimentares.

Alcoolismo, depressão, ansiedade e as questões aparentemente invisíveis

Além de William, outro personagem que precisa procurar ajuda por conta de problemas com o vício é o próprio Jack Pearson. O patriarca da família tem um longo arco para vencer o alcoolismo, e seu filho Kevin enfrentará o mesmo problema no futuro. 

Ao partir em uma longa jornada para saber mais sobre o pai, Kevin descobre que seu tio Nick (Griffin Dunne) ainda está vivo. Enquanto ambos projetam a memória de Jack um no outro, eles lutam contra o alcoolismo lado a lado, e acabam ficando muito próximos.

Nick (Griffin Dunne) em This is Us.
Nick (Griffin Dunne) em This is Us. | Imagem: divulgação

O alcoolismo não é o único problema que a família Pearson demora a perceber. A depressão de Toby também o atinge com muita força quando ele para de tomar os antidepressivos para aumentar as chances de Kate engravidar. O casal precisa então se unir para enfrentar a doença.

A ansiedade também é abordada na série. Randall sofre com crises da doença, e reluta durante as quatro temporadas para buscar ajuda. Ele acaba cedendo quando sua filha Tess tem uma crise por não conseguir falar de sua sexualidade na escola nova. Em conversas com Beth, William revelou que também sofria de ansiedade.

Representações de gênero sem estereótipos em This is Us

Em This is Us não há medo de retratar homens sensíveis e afetuosos. Não é como se não existissem padrões de masculinidade no universo da série (eles não apenas existem, como trazem muitas inseguranças aos personagens, e muitas vezes os impedem de falar sobre seus problemas), mas os homens de This is Us vencem essas imposições sociais frequentemente, buscando serem homens melhores para suas famílias e amigos.

Um exemplo é Kevin, um personagem complexo e que tem novas camadas de sua personalidade exploradas a cada temporada. Ele deseja profundamente ser pai, construir uma família e viver um amor. Diferente do que se espera, ele não performa um clichê como personagem masculino, mas inova a medida que a série se aprofunda em suas questões emocionais.

Kevin (Justin Hartley) em This is Us.
Kevin (Justin Hartley) em This is Us. | Imagem: divulgação

Kevin tem como espelho seu pai. Jack é um personagem que parece perfeito na maior parte do tempo. Ele tirou sua mãe de uma situação de violência doméstica, e dedicou todos os seus esforços para ser o melhor marido e pai que conseguiu. Ele pediu que seu melhor amigo, Miguel Rivas (Jon Huertas), cuidasse de sua família se algo ruim acontecesse com ele. E após sua morte, Miguel é incansável ajudando Rebecca (com quem se casa anos depois) a reconstruir sua vida. 

Miguel é porto-riquenho, e o fato de ser um homem latino já colabora para que ele sofra preconceito na sociedade norte-americana. Além disso, ele é constantemente apagado, tanto pelos filhos, que o culpam pelo divórcio no passado, quanto pelos Pearson, que não simpatizam com seu casamento com Rebecca.

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Além dos homens, as mulheres da série também possuem representações interessantes. Desde carreira até maternidade, todas as questões são abordadas de formas diferentes, e cada mulher demonstra quereres diferentes. Enquanto Kate quer muito ser mãe, Deja foi uma gravidez indesejada para Shauna (Joy Brunson), que não queria ter filhos tão cedo.

Histórias cíclicas

Cena da 4ª temporada
Cena da 4ª temporada de This is Us. | Imagem: divulgação

This is Us não é linear nem na narrativa e nem nos sentimentos dos personagens, e frequentemente velhos problemas que pareciam superados retornam. Um exemplo é a relação entre Randall e Kevin. 

De um lado, Kevin sentiu a vida toda que, por ser negro e adotado, Randall atraia para si toda a atenção e amor dos pais, fazendo com que ele se sentisse abandonado e descontasse sua frustração no irmão.

Do outro lado, Randall, que no início da série parecia apenas querer a atenção e a amizade de Kevin, gradativamente revela um desprezo pelo irmão (especialmente na última temporada). Em suas piores fantasias, ele tem a vida, as atitudes e até o apartamento parecidos com a figura que ele vê de Kevin. Embora os dois se amem, tenham tido muitos bons momentos na infância e na vida adulta, essas questões nunca desaparecem ou são superadas, e são regurgitadas na primeira oportunidade.

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As desavenças com os pais também permanecem, e por vezes os três grandes parecem ter sido marcados de forma muito mais profunda pelos momentos ruins. A família Pearson precisa vencer constantemente os rancores, os medos e as questões mal resolvidas. Como Kate decide se abrir para Rebecca na vida adulta, após anos de uma relação conturbada com a mãe, todos os personagens precisam aprender a perdoar (aos outros e a si próprios) e pedir perdão. No fim das contas, a vida é uma grande luta para não deixar a dor se sobressair, mas viver o amor em sua plenitude.

Big Tree em This is Us
Big Tree em This is Us. | Imagem: divulgação

Um aspecto interessante é o quanto a maioria dos impasses da série parecem fruto de dificuldades de observar as situações sob outra perspectiva. Em uma série repleta de representatividade, a dificuldade de se colocar no lugar do outro é uma das maiores vilãs.

Uma característica que torna This is Us tão única é o quão humanos e próximos da realidade os personagens são. As histórias que o público vê poderiam acontecer em qualquer família. E é por isso que a representatividade se destaca de forma tão positiva, porque, através da narrativa envolvente e inteligente, um discurso de diversidade é reforçado 一 negros, mulheres, LGBTs, pessoas com deficiência, todos eles existem e têm individualidades, sonhos, histórias para contar e amores para viver.

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A espiral de memórias de This is Us conecta o público com a história, e mostra que a vida é escrita no tempo que cada pessoa tem. Não existem casos perdidos ou pessoas que não possam, assim como os vagalumes da pequena Kate, encontrar seu caminho. A única situação irremediável é a morte. Fora isso, sempre há uma chance de superar todos os males através do amor.


Edição/revisão por Mariana Teixeira.


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Estudante do curso de Jornalismo. Gosta muito de cinema, literatura e fotografia. Embora ame escrever, é péssima com informações biográficas.
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