Foodie Love: existe vida depois do amor romântico?

Foodie Love: existe vida depois do amor romântico?

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Foodie Love, nova série da HBO Espanha, não traz nada que já não tenhamos visto repetidamente no cinema e na TV. Tem romance e o lado assustador da intimidade como já vimos em Closer, de Mike Nichols. Também tem muitas digressões e conversas profundas como acompanhamos na trilogia Before de Richard Linklater. E claro, ilustra os relacionamentos dos millennials em tempos de aplicativos de namoro, também mostrado em Nowness, que por acaso compartilha a mesma protagonista de Foodie Love, a atriz catalã: Laia Costa, lembrem-se desse nome.

A conexão real em tempos de aplicativos

A série que se apresenta como “cozinhada” pela conceituada diretora e também catalã, Isabel Coixet, reproduz a antiga fórmula do boy meets girl das comédias românticas. O roteiro, entretanto, possui um relacionamento poliamoroso que engloba não somente o casal em questão, mas os prazeres e porque não a ética gastronômica. A série é bastante contemporânea, mas ao mesmo tempo tem uma verve teatral e intimista, nos levando a sentir todos os estímulos que a comida suscita. Como disse a sua “cozinheira” Isabel Coixet: “Espero que ‘Foodie Love’ aumente las ganas de comer, y de follar también.

Ele e Ela em cena de Foodie Love, série da Isabel Coixet,
Ele e Ela em cena de Foodie Love. (Imagem: reprodução)

O primeiro episódio vem na onda de Fleabag, House Of Cards e até mesmo com o comecinho de Sex And The City, quebrando a quarta parede. O casal protagonista que não tem nome e serão referidos aqui como “Ela” e “Ele”, se apresentam para a câmera contando seus pensamentos em relação a comida. Ela fala sobre a pizza que nunca realmente cumpre a promessa que se coloca em sua apresentação. Ele comenta sobre a breguice que é tirar foto dos pratos para postar no Instagram, antes mesmo de consumi-los e portanto sem saber se são realmente apetitosos. E então eles terminam em sincronia afirmando a premissa da série: se uma pessoa é aficionada por comida, deve ter algo de bom nela.

De onde vêm os Milleniuns? De que se alimentam?

Todos os objetos da cultura hipster estão presentes, o néon com frase espertinha na parede Dela, seus óculos e blazers vintage. Tem também a paixão Dele por se expressar através das meias modernosas, sem mencionar o café onde eles se encontram pela primeira vez. Tudo começa quando o casal se conhece por um algoritmo que combina gourmets em um aplicativo de dates. E enquanto eles conversam com a quarta parede – conosco – antes de se encontrarem, fica clara a ansiedade que os une nessa tentativa cega de encontrar alguém com quem se possa conectar.

Para trabalhar a ansiedade eles seguem repetindo o mantra “é só um café”. Mas depois de uns três cafés cada, a small talk, que Ele comenta que detesta, dá lugar para a inesperada pergunta Dela “você é mais de bunda ou seios?”. E nesse momento percebemos que a série trará algo refrescante mesmo que reciclado de tantas histórias já contadas.

Laia Costa como Ela, em cena de Foodie Love.
Laia Costa como Ela, em cena de Foodie Love. (Imagem: reprodução)

AVISO: Spoilers a seguir

A série é formada por oito capítulos e oito lugares diferentes. Desde um bar super exótico escondido dentro de um açougue, até um restaurante com estrelas Michelin. Vale dizer que todos eles são locações reais majoritariamente em Barcelona, que é onde se passa a série. Porém, também há rápidas passagens por Roma, França e Tóquio.

O texto e a direção de Isabel Coixet são muito bem construídos, e vai nos aquecendo episódio por episódio à medida que a intimidade vai evoluindo entre os protagonistas. Coixet faz com que a espera seja deliciosamente interessante, apesar de sabermos desde o início que eles chegarão às vias de fato, mantendo a tensão sexual latente até quase metade da série.

Uma grande parcela dessa mistura que acaba dando resultados tão frutíferos se deve ao grande talento de Laia Costa e Guillermo Pfening, ator e diretor argentino de grande destaque no país. A química entre os dois é enorme, e é importante para o bom resultado da história.

A tensão e os sentidos em “Foodie Love”

Na história, Ela é uma editora poliglota, com um passado misterioso vivido com o ex que conheceu quando vivia em Tóquio. Ele é um matemático bem sucedido por ter criado um algoritmo importante, o que acabou permitindo que tirasse um ano sabático. Por conta disso, Ele conheceu os restaurantes que queria pelo mundo.

Muito interessante a construção de Isabel com Guillermo, principalmente por ser um homem de quase quarenta anos, sul-americano, eum pouco mais machista talvez, mas muito mais aberto sentimentalmente. Esses são detalhes que Coixet domina bem. Em contrapartida, Laia personifica uma espanhola mais dona de si, mulher de trinta e poucos anos que representa a nossa geração de mulheres intelectualizadas e experientes em relação às particularidades do jogo humano. Portanto, é gratificante acompanhar esses personagens. Ela foge do estereótipo da mocinha agradável. Ele, entretanto, busca sair das amarras da masculinidade tóxica, mas sem ignorar o que a construção patriarcal significa para sua geração.

Guillermo Pfening como Ele em cena de Foodie Love.
Guillermo Pfening como Ele em cena de Foodie Love. (Imagem: reprodução)

O mais importante em Foodie Love é que acompanhamos duas pessoas vulneráveis em suas histórias de vida, mortas de medo do que pode acontecer quando elas realmente se abrem para o novo. Desde o princípio e por experiência, eles sabem que existe algo especial naquela relação, desde o primeiro café. Cabe aqui uma menção honrosa aos coadjuvantes que participam de cada um dos episódios. Como exemplo, temos o casal que trabalha junto no Café, o imigrante rider que entrega comida, e seu namorado também entregador, mas principalmente a excêntrica gerente do bar Paradiso, no segundo episódio. Apenas assistam!

Isabel Coixet a todo vapor

Nesse último ano Isabel Coixet tem estado bastante ocupada, porque além de lançar Foodie Love pela HBO, aliás, estreando a produção de conteúdos originais para o canal na Espanha, também lançou pela Netflix o longa “Elisa e Marcela“. O filme que conta em lindas imagens em preto e branco a história real do primeiro e único casal homossexual que chegou a casar na igreja. O que só foi possível porque uma delas assumiu a identidade de um primo falecido para que pudessem fingir serem heterossexuais. No Rotten Tomatoes, site que concentra críticas diversas da indústria e dos espectadores, o filme não teve muito sucesso. Porém, acreditamos que vale muito a pena assistir, até por ser uma história real e que aconteceu no início do século XX.

Isabel Coixet
Isabel Coixet. (Imagem: reprodução)

Coixet fundou sua produtora Miss Wasabi Filmes aos vinte e três anos, depois de ganhar uma câmera 8mm de presente por sua primeira comunhão. Ela comenta como normalmente as histórias a encontram e não o contrário, e já foi laureada com cinco Goya, tendo seu primeiro reconhecimento internacional pelo filme “Minha Vida Sem Mim” (2003), co-produzido com a El Deseo de Pedro Almodóvar. Esperamos que ela siga encontrando histórias tão interessantes como Foodie Love, e nos levando para além do trecho norte-americano de histórias românticas.


Edição/revisão por Mariana Teixeira.


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Jacu metropolitana com mente abstrata, salva da realidade pelas ficções. Formada em comunicação social, publicitária em atividade e estudante de Filosofia. Mais de trinta anos sem nunca deixar comida no prato.
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