This is Us: a arte de transformar a dor e ressignificar a vida

This is Us: a arte de transformar a dor e ressignificar a vida

Nos dizeres de Clarice Lispector, “a vida é um soco no estômago”. Não estamos imunes ao sofrimento e situações cotidianas de dissabores. Viver é sempre um risco iminente. A narrativa seriada “This is us, apesar de trazer episódios de alívio cômico e saber lidar com o aspecto trágico de forma bem humorada, não romantiza a árdua tarefa de viver e sobreviver aos contratempos que fogem do nosso controle, por mais que sejamos protagonistas de nossas próprias veredas.

AVISO: O texto contém spoilers de This is Us

Não há limão tão azedo que você não possa transformar em algo parecido com limonada.” Esse ensinamento proferido por Dr. K (Gerald McRaney), médico que realizou o parto dos trigêmeos de Rebecca (Mandy Moore) e Jack (Milo Ventimiglia), já resume no primeiro episódio aquilo que a espectadora pode esperar da série. Contudo, como nos ensina Dr. K, ainda que não tenhamos um roteiro determinado sobre nossas formas de estar no mundo, podemos arrancar lições da dor, transformando a acidez do limão em algo palatável.

Atendendo aos ensinamentos do sábio médico, Jack transformou o sofrimento de perder o terceiro filho em um lampejo de esperança: ele adotou uma criança negra que fora abandonada na sede do Corpo de Bombeiros e levada para a maternidade, no mesmo dia em que os trigêmeos nasceram.

Dr. K (Gerald McRaney) e Jack Pearson (Milo Ventimiglia) no piloto de “This is Us”. (Imagem: reprodução) 

A temática do racismo em “This is Us”

Randall (Sterling k. Brown) fora abandonado pelo pai biológico William Hill (Ron Cephas Jones), que à época fazia uso problemático de substâncias psicoativas. Apesar de ter sido um músico talentoso, o mundo é um lugar hostil para os grupos socialmente subalternizados; assim, William, um homem negro, desempregado e dependente químico, não viu alternativa, senão deixar o seu filho recém-nascido na porta do Corpo de Bombeiros.

No início da trama, quando Randall decide encontrar seu pai biológico, motivado pelo ressentimento de ter sido rejeitado, logo supomos o quão desumano e desajustado seria William. Ao longo da narrativa, somos surpreendidas e obrigadas a rever nossas ideias preconcebidas sobre o personagem. Ao conhecer a história, a exclusão social e os caminhos espinhosos por que William passou, logo começamos a desenvolver empatia e admiração pelo personagem, que é um poço de amor, resiliência e humanidade.

Desconstruindo a delimitação de espaços entre os gêneros que atribuem aos homens o universo da racionalidade, agressividade, objetividade, e à mulher o âmbito do sentimentalismo, da subjetividade, da fragilidade, os personagens masculinos em “This is Us, salvo raras exceções (como é o caso de Kevin que, a priori, segue o padrão do macho pegador, solteiro e garanhão), são sensíveis, amorosos, além de pais e maridos dedicados.

Randall Pearson (Sterling k. Brown) e William (Ron Cephas Jones) em "This is Us"
Randall Pearson (Sterling k. Brown) e William (Ron Cephas Jones) em “This is Us”. (Imagem: reprodução)
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Filho de um pai biológico extremamente doce e educado e criado por um pai adotivo cuja ternura não cabe nele, Randall tornou-se um homem afetuoso, humanizado e íntegro, apesar de ter recebido muito soco da vida, em razão de ocupar um lugar social silenciado estruturalmente e subordinado nas relações hierárquicas de poder. Mesmo tendo crescido em uma família de classe média, tendo acesso a uma educação de qualidade, Randall, assim como as pessoas negras de igual classe social, não esteve imune à segregação racial. Por ser negro e adotado por pais brancos, o personagem experimentou os efeitos da discriminação racial ao longo de sua vida.

Desde criança, ele já sofria preconceito dos colegas de escola e até mesmo de seu irmão adotivo Kevin (Justin Hartley), bem como era sempre preterido por seus avós maternos que não conseguiam disfarçar o tratamento desigual dispensado a Randall, por ele ser uma criança adotada e negra, o oposto dos gêmeos. Por sofrer racismo, Rebecca e Jack sempre tentaram proteger Randall da hostilidade do mundo externo. Assim, com a atenção dos pais voltada essencialmente para Randall e sua irmã Kate, que sofria bullying na escola em face de ser gorda, Kevin passou a sentir-se preterido em relação aos irmãos e, por consequência, começou a desenvolver uma relação inamistosa com Randall.

Por pertencer a um lócus social excludente em que a humanidade e voz dos negros são constantemente anuladas, Randall teve de se desdobrar e exigir de si mesmo mais do que o normal. Desta maneira, desde a infância, ele se destacava na escola como um aluno acima da média e tornou-se um homem financeiramente bem-sucedido. Em face das condições sociais que tentam invisibilizar a população negra, Randall conviveu com a pressão contínua de sobressair-se e provar à sociedade que um homem negro é tão ou mais competente que um homem branco, desenvolvendo, assim, crises de ansiedade e ataques de pânico.

A série rompe com o estereótipo racial e foge das narrativas tradicionais que condicionam aos personagens negros posições de subalternidade. “This is Us” dá destaque ao personagem de Randall que, mesmo tendo sido abandonado pelo pai biológico, é um homem negro meigo, extremamente forte, seguro e o mais bem sucedido dos três irmãos. Inclusive, Randall Pearson é um papel que rendeu ao ator Sterling K. Brown diversos prêmios, dentre eles o Emmy (2017) e o Globo de Ouro (2018) de Melhor Ator em uma Série de Drama, sendo o ator mais premiado em “This is Us”. Em face de toda a resiliência, ternura e complexidade que envolvem o personagem de Randall, ele é um exemplo de que se a vida lhe sorrir amarelo, não devolva o sorriso.

A gordofobia sofrida por Kate

Kate (Chrissy Metz) em "This is Us"
Kate (Chrissy Metz) em “This is Us”. (Imagem: reprodução)

A série é um prato cheio para revermos nossos pensamentos tantas vezes colonizados e limitados que confundem diferenças com desigualdade. Kate Pearson (Chrissy Metz), desde criança sofre discriminação em razão do seu sobrepeso. Por não atender aos padrões de beleza hegemônica, ela é excluída na escola pelo grupo de meninas magras e consideradas belas.

A cada episódio de gordofobia sofrido, Kate encontra um porto seguro na figura do pai, que está sempre disposto a ampará-la e ajudá-la a superar o olhar de condenação dos outros. Como Rebecca era mais rígida na cobrança de que Kate seguisse uma dieta alimentar para emagrecer, a menina desenvolve certo distanciamento em relação à mãe, construindo um vínculo maior com Jack. De todos os filhos, Kate, na fase adulta, é a que mais sente dificuldades em superar a morte do pai, apesar do grande lapso temporal decorrido desde a morte dele.

Kate (Mackenzie Hancsicsak) e Jack (Milo Ventimiglia)
Kate (Mackenzie Hancsicsak) e Jack (Milo Ventimiglia). (Imagem: reprodução)

O sentimento de culpa em relação à trágica morte de Jack contribui ainda mais para que ela se torne uma adulta com compulsão alimentar e, por conseguinte, sofra a rejeição de ser uma mulher fora do modelo aceitável de beleza feminina, que apregoa corpos perfeitos e incute na mentalidade das mulheres que só tendo as medidas da modelo de capa de revista serão desejadas e amadas. 

A pressão social por ter um corpo condizente com os padrões normativos leva Kate a tentar perder peso a todo custo. Assim, ela se tornou uma adulta sem autoconfiança e que por não acreditar em si mesma tenta realizar-se na vida do irmão Kevin, vivendo à sombra dele, até conhecer Toby (Chris Sullivan), por quem se apaixona e a ajuda na difícil tentativa de olhar para si sem autocomiseração.  

Sobre a série

This is Us” é uma série de televisão americana criada por Dan Fogelman e transmitida pela emissora NBC desde 20 de setembro de 2016. Em 27 de setembro de 2016, a emissora NBC encomendou 18 episódios para a primeira temporada da série. Em janeiro de 2017, a NBC renovou a série para mais duas temporadas de 18 episódios cada.

This is Us traz à tona a complexidade do que é estar no mundo e ser um sobrevivente das adversidades cotidianas, dando destaque às diferentes formas de opressão em uma sociedade que reproduz e cristaliza estereótipos, como também estigmatiza as pessoas em rótulos. Tudo isso em razão da nossa eterna deficiência em enxergar e respeitar a humanidade das pessoas. 

Escrito por:

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Jornalista, pós-graduada em Comunicação, Semiótica e Linguagens Visuais, estudante de Direito, militante femimista, autora do livro A Árvore dos Frutos Proibidos, desenhista, cinéfila e eterna aprendiz na busca do aprender a ser.
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