[OPINIÃO] Estamos na temporada de indicações ao Emmy e a tendência mais importante ainda pode ser a violência contra as mulheres

[OPINIÃO] Estamos na temporada de indicações ao Emmy e a tendência mais importante ainda pode ser a violência contra as mulheres

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Por que esta é a marca registrada das séries queridinhas da crítica?

Chegou a temporada dos prêmios Emmy, pessoal! Pode abrir o champanhe e prepare-se para escolher os mais bem vestidos e, mais uma vez, para fazer vista grossa para o fato de que metade das séries indicadas na categoria de Melhor Drama possuem cenas frequentes de violência contra mulheres que nem sempre são justificadas na narrativa.

Pelo menos este ano, a maioria das séries indicadas na categoria de Melhor Drama não são tão abertamente misóginas quanto foram nos últimos anos. This is Us e The Crown não mostraram cenas nas quais mulheres foram mal tratadas e The Americans usa a violência na série para passar uma mensagem moral (e tende a não apenas brutalizar mulheres). Ontem escrevi sobre Stranger Things e a forma como as mulheres são retratadas na série, mas no geral a violência gratuita contra mulheres foi evitada. Então sobraram Westworld, Game of Thrones e The Handmaid’s Tale, três séries que ou possuem premissas problemáticas ou mostram/mostraram machismo violento.

A premissa de Westworld é toda baseada na ideia de que existe um parque onde podemos ir para fazer o que quisermos sem pensar nas consequências; a ideia da libertação dos anfitriões é mostrada em duas personagens femininas importantes: Dolores e Maeve (tanto Evan Rachel Wood quanto Thandie Newton foram indicadas ao Emmy). Há cenas de violência e também de violência sexual e a crítica discutiu muito se a série é machista ou não. E, verdade seja dita, eu só assisti até a metade da primeira temporada.

Mas o que se destacou nos primeiros episódios, e pode ser que isso mude, então desculpe a minha falta de conhecimento, é o fato de que a dor das personagens principais femininas não é sexualizada. Odeio todas as cenas nas quais elas são forçadas a andar ou sentar sem roupa na frente de homens, mas a violência contra elas não é mostrada como algo criado para seduzir o telespectador. O ataque a Dolores mostrado no primeiro episódio acontece completamente fora da cena, uma raridade em um canal famoso por mostrar cenas de agressão sexual.

Emmy

É interessante observar que o personagem que mais recebe violência gráfica é Teddy (James Marsden) que, nos primeiros episódios, parece servir unicamente para mostrar as diferentes formas que um anfitrião pode morrer no parque. E apesar de sua dor também não ser sexualizada, é mais frequente do que a dor sofrida por Dolores ou Maeve, apesar de que as duas sofrem bastante.

A outra série competidora da HBO é Game of Thrones, uma inspiração para as outras séries em termos de controvérsia e níveis de audiência. Vale a pena destacar que a última temporada foi muito mais justa com as mulheres do que as temporadas anteriores, mas é impossível esquecer que durante várias temporadas houve diversos episódios onde foi mostrado estupro, assassinatos violentos e abusos de mulheres. Até paramos de fazer a cobertura da série após a cena gráfica do estupro da Sansa Stark (Sophie Turner) na quinta temporada, uma cena que não consta no livro no qual a série é baseada, e serviu apenas para chocar os telespectadores no meio da temporada.

Emmy

Parecia que toda vez que os criadores da série não conseguiam pensar em estratégias para avançar com os personagens, à medida que a história seguia até o conflito entre os Caminhantes Brancos e Westeros, faziam com que uma personagem feminina fosse agredida sexualmente. Eles até mesmo mudaram cenas que eram de sexo consensual para cenas de estupro. Se não fosse violência sexual, eles ainda mostravam violência contra mulheres apenas para chocar.

Olhe a esposa de Robb, Talisa (Oona Chaplin), por exemplo, uma personagem que nem existe nos livros (a personagem correspondente a ela nos livros ainda não morreu). Durante o infame Casamento Vermelho ela é esfaqueada na barriga, e está grávida. A câmera foca em seu rosto agonizante e na barriga sangrando. Ou a morte de Ros (Esme Bianco). Bianco pediu para ter menos cenas de nudez e sua personagem está nua quando morre. Ou melhor, somos presenteados com a cena de seu corpo nu preso a uma cama e cheio de flechas, incluindo uma em sua virilha.

Claro, houve progresso no campo de representatividade feminina em Game of Thrones. Mas será que é o suficiente para compensar pela violência frequente e gratuita que eles mostraram contra mulheres no passado? E os livros também não ficam atrás: George R. R. Martin usou o historicismo como desculpa para a quantidade de violência sexual nos livros mas, sejamos honestos, quando um dos atores diz que adorou trabalhar na séries porque ele teve a oportunidade de “estuprar mulheres lindas”, será que a razão é realmente a fidelidade histórica ou apenas uma fantasia masculina de poder?

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Claro, há outro drama importante baseado em um livro repleto de violência contra mulheres. The Handmaid’s Tale é o mais complexo do grupo porque, será que é possível contar esta história sem mostrar violência praticada por mulheres em um nível social?

No entanto, a temporada atual se afasta dos dispositivos de narrativa necessários e se aproxima da pornografia de tortura. O episódio mais perturbador da primeira temporada, “Late”, mostrou a execução de uma mulher homossexual e a mutilação genital de outra. A execução aconteceu como pano de fundo para a cena e o foco era em Emily (Alexis Bledel com uma atuação ganhadora do Emmy) e em seu sofrimento. A mutilação ocorreu completamente fora de cena; o foco foi na descoberta da mutilação por Emily e em seu sofrimento subsequente. A série conseguiu mostrar como Gilead era violenta e cruel sem mostrar muito da violência propriamente dita.

A segunda temporada começa com um grupo de Aias sendo executadas, em uma sequência arrastada que deixou os telespectadores chorando e em choque. Esta cena deveria ter satisfeito a sede de sangue para um episódio inteiro, mas logo somos presenteados com os gritos de uma Aia enquanto sua mão é queimada em um fogão e por uma cena de June (Elisabeth Moss) se mutilando.

Nessa temporada são mostradas execuções, sexo com noivas meninas, estupro e todo o tipo de horror e parece que a série se orgulha a cada nova cena, considerando-a “necessária para mostrar a maldade que ocorre em Gilead”, como se a primeira temporada não conseguisse esse efeito muito bem com muito menos conteúdo perturbador em cena. A série espera que tenhamos pena da maligna Serena Joy (Yvonne Strahovski, que recebeu uma indicação ao Emmy hoje pelo seu trabalho fascinante), mas que fiquemos confusos quando a segunda Ofglen (Tattiawana Jones) luta contra a opressão que arrancou sua língua e fez dela escrava sexual usando uma bomba suicida. Uma segunda temporada muito longa provou que a série nem sempre sabe o que fazer com as mulheres além de torturá-las para avançar com a trama e chocar os telespectadores.

The Handmaid’s Tale agora encara uma escolha interessante. Manter-se como alvo de discussões ao mostrar mulheres sendo brutalmente feridas e consequentemente nos anestesiando frente às realidades de Gilead, ou decidir usar violência menos frequentemente e como ênfase? A série corre o risco de se tornar como Game of Thrones, e isso é algo que iria diminuir muito o valor de sua mensagem.

As séries de sucesso possuem uma longa história de misoginia, mas é tempo de mudar. Com a maioria dos indicados ao Emmy tratando suas mulheres com pouco respeito, podíamos ver uma mudança e presenciar um tempo em que as personagens femininas não são sempre vítimas de abuso, mas sim heroínas que não são definidas por traumas de gênero. Mostrar esta mudança na tela também vai ajudar a mostrar que a violência contra as mulheres na vida real não é natural. A mídia afeta a realidade e, mudando a forma como as mulheres são tratadas na tela podemos criar uma geração que não vê a violência contra mulheres como algo normal.

Artigo escrito por Kate Gardner, publicado originalmente no site The Mary Sue, no dia 12 de julho de 2018. Tradução por Maria Amélia Fleury Nogueira

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Fundadora e editora-chefe do Delirium Nerd. Revisora. Apaixonada por gatos, café, cinema do oriente médio, quadrinhos e animações japonesas. Ouve muito Harry Styles e cantoras melancólicas.
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