Mulheres na História do Cinema: Lois Weber

Mulheres na História do Cinema: Lois Weber

Metade dos filmes feitos antes de 1925 foram escritos por mulheres. E não somente: além de roteiristas, elas ocupavam diversas posições de poder na nascente cadeia de produção cinematográfica, notadamente também como diretoras e editoras. Entre elas, Lois Weber — roteirista, diretora, produtora e atriz —, uma das mais proeminentes cineastas de sua época, considerada uma das “três grandes mentes” da era do cinema mudo, ao lado de nomes de peso como D. W. Griffith e Cecil B. DeMille. Seus filmes tinham forte cunho social e político, abordando questões como métodos contraceptivos e controle de natalidade, equidade salarial entre gêneros, abolição da pena de morte, miséria urbana, subvalorização de educadores, hipocrisia religiosa, sexualidade, dependência de drogas e capitalismo de consumo.

Nascida em Pitsburgo, Pensilvânia, em 1879, Lois Weber era uma criança prodígio em uma família religiosa de classe média. Costumava tocar piano e evangelizar pela cidade. Na juventude, mudou-se para Nova York e trabalhou em instituições religiosas que prestavam assistência a pessoas em situação de pobreza e miséria. “Ela nunca foi uma pregadora, realmente, mas sempre uma ativista pelos pobres”, diz o produtor Dennis Doros, co-fundador da Milestone Films, que está lançando versões restauradas dos filmes da cineasta.

Após o trabalho de evangelização e assistência, Weber seguiu como pianista em uma turnê pelos Estados Unidos, trocando mais tarde o palco de concertos pelo de teatro, onde conheceu o então gerente de palco Phillips Smalley, com quem viria a se casar. Iniciou no cinema em 1911, junto ao marido, que atuava como produtor, diretor e ator, não chegando, porém, a alcançar o mesmo reconhecimento e influência.

Lois Weber foi pioneira em técnicas como o split-screen (divisão da tela em dois ou mais quadros) e a dupla exposição (múltipla exposição de fotogramas para gerar imagens sobrepostas). Ingressou no emergente sistema de estúdio em 1913, tendo sido nomeada prefeita do Universal City Complex e não tardando a se tornar a maior diretora dos estúdios Universal. Foi a primeira mulher induzida ao Motion Picture Directors Association (Associação de Diretores de Filmes, em tradução livre) e, em 1917, criou seu próprio estúdio, o Lois Weber Productions, em Los Angeles.

Lois Weber no estúdio. Imagem: reprodução
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Em mais de 25 anos de carreira, Weber escreveu e dirigiu cerca de 40 longas e mais de 100 curtas-metragens, sempre advogando por maior complexidade e variação nos plots de roteiro. Foi mentora de atrizes como Mary MacLaren, Mildred Harris, Claire Windsor e Billie Dove, dirigindo-as em papéis maduros escritos por ela, muito diferentes das personagens limitadas e estereotipadas normalmente interpretadas por mulheres em filmes da época. Este trabalho de mentoria rendeu-lhe a fama de star-maker, embora o título tenha ofuscado sua contribuição como roteirista e diretora nos tempos em que atuava em seu próprio estúdio.

Pioneirismo técnico e a ousadia narrativa de Lois Weber

Weber se tornou a primeira mulher a dirigir um filme dramático de longa-metragem em 1914, com “The Merchant of Venice” (O Mercador de Veneza, em tradução livre). No ano seguinte, lançou “Hypocrites” (Hipócritas, 1915), uma de suas mais famosas e controversas obras, unindo suas costumeiras críticas sociais ao seu pioneirismo técnico e ousadia narrativa.

O filme começa com um retrato de Weber, assinado “Yours sincerely, Lois Weber” (algo como “Atenciosamente, Lois Weber”). Esse tipo de introdução, a partir de fotografias, era habitual em relação ao elenco dos filmes (de fato, a introdução do elenco segue-se a de Weber), mas raramente era usada para introduzir o diretor.

Na primeira cena de “Hypocrites”, vemos os “portões da verdade”, por onde passa a “verdade nua” — interpretada por uma atriz literalmente nua, o que gerou debate no Conselho Nacional de Censura, atrasando a estreia do filme. A figura foi inserida na edição final através da técnica de dupla exposição, tornando-a translúcida, mas bastante visível.

A “verdade nua” em uma cena de Hypocrites (1915).
A “verdade nua” em uma cena de “Hypocrites” (1915).

Como o próprio nome sugere, o filme é uma crítica à hipocrisia social, feita através de alegorias diversas, a partir de duas personagens principais: Gabriel, um monge medieval que esculpe a “estátua da verdade” e acaba assassinado pela multidão raivosa, chocada pela figura nua da escultura, e a já mencionada “verdade nua”, que segura sempre um espelho que mostra a verdade sobre a política, a sociedade, o amor, a falsa modéstia e o lar; a hipocrisia contida em cada uma dessas esferas sociais.

Enfim aprovado pelo Conselho Nacional de Censura, “Hypocrites” foi um enorme sucesso de público e crítica, rendendo 119 mil dólares, um valor seis vezes maior que o de seu custo de produção, de 18 mil dólares (lembrando que são valores de 1915, altíssimos para a época). Weber tornou-se nome de prestígio e passou a ter quase que total liberdade criativa na Universal, além de distribuir seus filmes pelas maiores marcas do estúdio. A diretora salientava sempre seu entendimento do cinema como forma de arte. Em um artigo da época, intitulado “The Greatest Woman Director” (“A Maior Diretora Mulher”), o entrevistador comenta: “Você se torna imbuído por seu entusiasmo, você acredita na alta missão da tela [de cinema], como ela acredita. […] Você se sente inspirado por reflexos de seus ideais”.

Mas “Hypocrites” não foi o primeiro filme a trazer à tela o pioneirismo de Weber. A técnica de split-screen havia sido usada em um de seus primeiros filmes: “Suspense“, de 1913. No curta, que tem pouco mais de 10 minutos de duração, uma mulher (chamada de “a esposa” e interpretada pela própria Weber) fica sozinha em casa enquanto cuida de seu bebê, após a saída da empregada. Um homem, “o vagabundo”, avista a serviçal saindo da residência e decide invadi-la.

O primeiro split-screen divide a tela em três partes, mostrando a esposa, o marido e “o vagabundo”. O característico letreiro dos filmes mudos exibe a fala do marido, que por telefone avisa que chegará tarde e pergunta se a esposa ficará bem; ao mesmo tempo, vemos o invasor na entrada da casa, espionando, tentando descobrir se há alguém. O segundo split-screen mostra os mesmos personagens, dessa vez com a esposa avisando ao marido que há alguém rondando a casa, enquanto “o vagabundo” encontra a chave da porta dos fundos, deixada pela empregada debaixo do tapete, e adentra a residência.

Técnica de split-screen em uma cena de Suspense (1913) - Lois Weber
A técnica de split-screen em uma cena de “Suspense” (1913).

Ainda durante a montagem em split-screen, vê-se o invasor cortando o fio da linha telefônica e interrompendo a ligação — algo largamente reproduzido em filmes posteriores de terror e suspense —, deixando o marido ainda mais alarmado. Ele rouba um carro e sai em disparada a caminho de casa, sendo perseguido pela polícia. O cuidado estético é notável durante as cenas de perseguição: em vez de enquadramentos tradicionais, vemos os policiais pelo espelho retrovisor do carro dirigido pelo marido.

 Suspense 1913 - Reflexo retrovisor - Lois Weber
O reflexo dos policiais no retrovisor, durante cena de perseguição em “Suspense” (1913).

Em 1916, no auge de seu sucesso, Weber lança “Shoes” (Sapatos), sobre uma garota que trabalha em uma loja e contribui com o sustento de sua família. Seus sapatos estão em péssimas condições, cheios de buracos, mas não lhe sobra dinheiro para comprar um novo par. Desesperada, ela acaba prostituindo-se para conseguir dinheiro, aparecendo com sapatos novos no dia seguinte.

Um pôster do filme o descrevia como “três semanas na vida de uma garota semi-escrava, levada ao pecado sem que seja culpada por isso“. “Shoes” denunciava as condições degradantes de jovens que adentravam o mercado de trabalho, na época, especialmente na área de varejo, onde eram exploradas e mal remuneradas, e a situação de mulheres levadas à prostituição por viverem em condição de miséria.

Mary MacLaren em "Shoes" (1916)
Mary MacLaren em “Shoes” (1916)

Também em 1916 foram lançados “Where Are My Children?” (Onde Estão Meus Filhos?) e “The Dumb Girl of Portici” (A Garota Muda de Portici – “dumb”, no título, não é algo como “estúpida”, mas refere-se ao fato de a personagem ser muda). “Todas as pessoas inteligentes sabem que controle de natalidade é um assunto de interesse público“, dizia um texto introdutório de “Where Are My Children?”. Na época, métodos contraceptivos e aborto (também abordado no filme) eram ilegais nos Estados Unidos, e o longa acabou banido em alguns estados, sob alegação de que não era apropriado para “pessoas decentes”. Apesar da censura, o filme foi o maior sucesso da Universal naquele ano.

“The Dumb Girl of Portici”, por sua vez, era ambientado em uma Itália do final do século XVII, período em que a região era governada por representantes do rei da Espanha. A produção é estrelada pela prestigiada bailarina russa Anna Pavlova, que interpreta uma pescadora muda seduzida por um homem nobre. Chama a atenção, no filme, o trabalho de reconstituição histórica e as elaboradas cenas de ação, muitas vezes envolvendo multidões de atores e figurantes. Embora se afaste um pouco da temática social de Weber, “The Dumb Girl of Portici” a torna uma das primeiras mulheres (se não a primeira) a dirigir cenas de ação, algo pouco comum mesmo nos dias de hoje.

Lois Weber e Anna Pavlova
Lois Weber (esquerda) no set de “The Dumb Girl of Portici” (1916), com Anna Pavlova. Imagem: reprodução

Mas, apesar de todo o seu pioneirismo e ao contrário de Griffith e DeMille, Lois Weber é o que Shelley Stamp — professora de cinema da Universidade da Califórnia e autora de “Lois Weber in Early Hollywood” (“Lois Weber no Início de Hollywood”, em tradução livre) — chama de “ponto cego” na história do cinema. Enquanto seus contemporâneos são considerados os “pais” do cinema norte-americano, a contribuição de Weber tem sido ignorada ou marginalizada em quase todos os estudos sobre o nascimento e desenvolvimento da sétima arte, mesmo os mais específicos, sobre a era do cinema mudo. Na época de sua morte, em 1939, aos 60 anos, Weber já se encontrava falida e praticamente esquecida. Por que isso aconteceu?

O nascimento de Hollywood e a marginalização feminina na indústria cinematográfica

Nas primeiras décadas do século XX, o cinema ainda encontrava-se em fase de experimentação, sendo pouco visto como uma oportunidade de negócio. Às mulheres, ainda pouco bem-vindas no mercado de trabalho e relegadas a cargos específicos, como secretárias e datilógrafas, o cinema apresentava-se como uma opção muito mais atraente. À medida que se desenvolvia, porém, ele começou a ser visto como um negócio lucrativo, transformando-se em indústria. O advento do cinema sonoro, no final da década de 20, marca essa transição.

A Grande Depressão contribuiu para este cenário, atraindo para a indústria cinematográfica um número cada vez maior de homens que já não conseguiam oportunidades em suas áreas de formação — e que pouco ou nada sabiam sobre cinema. As mulheres, então, começaram a ser excluídas da indústria. Os que sobreviveram à crise transformaram-se em grandes empresários, tendo início a ascensão de grandes estúdios e do modelo de produção em cadeia.

Surgiram sindicatos de trabalhadores da área, aos quais mulheres não eram bem-vindas. Teve início a Era de Ouro de Hollywood, com seus característicos romances melodramáticos, concebendo o filme menos como arte e mais como entretenimento e mercadoria. O cinema social e político de Lois Weber perdeu espaço tanto quanto seu gênero.

Lois Weber no set de “The Angel of Broadway” (1927). Imagem: reprodução

Se antes mulheres ocupavam posições de poder nos bastidores, agora estrelavam diante das câmeras, subordinadas a produtores, roteiristas e diretores, todos homens, atuando em filmes que as estereotipavam e sexualizavam, ou em cargos tidos como “femininos”, contribuindo com o “visual” do filme, por exemplo, como responsáveis pela maquiagem e figurino. Na melhor das hipóteses, eram instrutoras ou ajudantes de homens em posições outrora ocupadas por elas, atuando como revisoras de roteiro ou caçadoras e desenvolvedoras de talentos. Elas os encontravam, instruíam, ensinavam… e eles levavam todo o crédito.

Vítima de uma realidade machista e patriarcal, Lois Weber resistiu até 1934, ano de seu último filme e único sonoro. Para Shelley Stamp, talvez as mulheres tivessem maior espaço na indústria cinematográfica, hoje em dia, não houvesse a história esquecido Lois Weber. A autora relembra o papel político e inclusivo do cinema, pela perspectiva da cineasta: “Ela era uma vocal defensora da capacidade do cinema de retratar questões sociais complexas em narrativas populares. Ela considerou o cinema o que chamou de ‘uma linguagem sem voz’, e com isso acho que ela quis dizer que o cinema tinha a capacidade de transmitir ideias a qualquer pessoa, independentemente de seu nível educacional.”.

FONTES:
  • ET LA Femme Créa Hollywood. Clara Kuperberg; Julia Kuperberg. 2016.

  • JAMES, Caryn. Lois Weber: the traiblazing director who shocked the world. BBC. Mar. 2019.
  • MAHAR, Karen Ward. Women Filmmakers in Early Hollywood. The Johns Hopkins University Press. Baltimore, Maryland, 2006.
  • MOVSHOVITZ, Howie. Lois Weber, Hollywood’s Forgotten Early Pioneer, Has 2 Films Restored. NPR: National Public Radio. Jan. 2019.
  • STAMP, Shelley. Lois Weber in Early Hollywood. University of California Press. Oakland, California, 2015.


Edição realizada por Isabelle Simões.

Escrito por:

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Laysa Leal é bacharel em Cinema e Audiovisual com foco em roteiro, direção de arte e crítica especializada. Apaixonada por artes visuais, tem formação profissionalizante em fotografia e atua também como fotógrafa. Não dispensa uma boa música e está sempre pelo circuito de shows e festivais, uma das poucas ocasiões em que prefere o frenesi à quietude de museus e galerias de arte ou ao conforto de salas de cinema.
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