“Vozes de uma Estrela Distante” é um curto tributo ao amor

“Vozes de uma Estrela Distante” é um curto tributo ao amor

O ano é 2047 no Japão desenvolvido. O país da alta tecnologia, do karaokê, do anime e das saias e uniformes escolares tradicionais. Mas ainda assim, não há tecnologia para amenizar o efeito da distância em um relacionamento. O curta animado “Vozes de uma Estrela Distante” (“Hoshi no koe”, no original), do diretor Makoto Shinkai, não fala somente de um doloroso afastamento espacial (e intergalático), mas também de diferentes objetivos de vida, diferença entre maturidade e juventude, e da superação e dos sacrifícios que devemos assumir para alcançar nossas ambições – com todo o ônus que isso traz.

Em mundo não tão distante…

Mikako e Noboru em "Vozes de uma Estrela Distante"
Mikako e Noboru em “Vozes de uma Estrela Distante”, 2002, dirigido por Makoto Shinkai. (Imagem: reprodução)

A princípio, o mundo da jovem Mikako não é muito diferente do nosso. Ela vai a uma escola normal e volta de bicicleta com seu ~amigo~ Noboru. Juntos, eles esperam a estrada ser liberada depois de o trem passar. E como todo adolescente, ela cultiva sonhos ambiciosos. Enquanto olham para céu, em um de seus retornos para casa, ela conta a ele que pretende se tornar piloto de um Tracer (espécie de robôs de combate espacial), trabalhando na ONU e travando batalhas siderais no espaço – contra criaturas denominadas Tarsians. 

Sob um contexto futurista, desenvolve-se o drama do relacionamento à distância do casal. As “vozes” às quais o título da versão em português se refere são as mensagens escassas que eles trocam por celular. O que em um relacionamento à distância comum se resolveria em segundos, contando com um bom sinal de Wi-Fi, para eles demora meses. E quanto mais anos-luz Mikako avança no espaço – e em direção aos seus objetivos – mais longa se torna a espera pelas poucas palavras de retorno.

Estética marcante e original na animação de Makoto Shinkai

Em 25 minutos de duração apenas, a narrativa é construída de modo pouco convencional, com alguns diálogos e uma série de falas reflexivas. Nós, as espectadoras, ouvimos menos as “vozes” das mensagens trocadas – já que são poucas – e mais as expressões de dúvida, insegurança e aflição dos dois namorados, separados pelos seus objetivos distintos de vida. 

Mesmo sendo um exemplar de anime, com todas as premissas estéticas que esse título exige, o diretor Makoto Shinkai imprime inegavelmente um visual inédito e instigante neste curta. Produzido inteiramente em seu computador caseiro, um Power Mac G4, o traço da animação é distinto do que costumamos ver no anime mainstream (Shonen, ou mesmo em Slice of Life). 

Vozes de uma Estrela Distante - Makoto Shinkai
Cena de “Vozes de uma Estrela Distante”. (Imagem: reprodução)
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O enquadramento também foge do usual. Em especial nas cenas terrestres em que ela recorda do colégio, vemos muitas vezes os personagens enquadrados em um plano aberto. Destaca-se o primeiro momento em que vemos os Tracers. Mikako e Noboru os enxergam no pôr do sol, voando à distância. Os dois adolescentes ocupam o primeiro terço da tela, enquanto todo o lado direito permanece azul escuro da noite. Logo a seguir, com uma mão em seu ombro, ela comunica que um dia vai pilotar uma daquelas “naves”. 

A luz – se é que é possível utilizar este termo em animação – também é diferente em momentos terráqueos, mais “estourada”, tornando menos nítida as imagens, quase como que em memórias. Já as cenas de batalha espaciais – em um cenário belíssimo – são nítidas e didáticas. Este permanece, portanto, sendo o mundo real da protagonista, enquanto sua vida corriqueira e terrestre do passado assemelha-se mais a um devaneio.

Mikako em Vozes de uma Estrela Distante
Mikako em “Vozes de uma Estrela Distante”, curta de Makoto Shinkai. (Imagem: reprodução)

Amadurecer sem perder a ternura

Enquanto isso, para Noboru, os meses que separam os envios dos recebimentos das mensagens se tornam anos. Um toque extra de drama para uma geração de espectadores que se desacostumou a esperar poucos minutos para que o tique do Whatsapp se torne azul. Até que finalmente, já adulto, ele anuncia desistir de vez da espera. Para ela, o que foram poucas batalhas e tiros, duraram anos e anos terrestres. A velha lógica de que no espaço distante – não me pergunte o porquê – o tempo passa mais devagar. Ela ainda tem a juventude toda pela frente, enquanto ele precisa encarar sua fase adulta.

No entanto, mesmo deixando um gosto amargo e triste pelo inevitável término de um relacionamento que não encontra meios nas leis da física de continuar existindo, o filme não é de modo algum pessimista sobre o amor. Pelo contrário, mesmo com os sacrifícios e os obstáculos intransponíveis, ele sobrevive. Talvez não como algo palpável e presente, mas como uma memória viva, cuja importância – ao contrário do tempo e do espaço – não obedece às leis das relatividade. 


Edição realizada por Isabelle Simões.

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Criança que queria ser bailarina, depois foi querer virar oceanógrafa, que depois sonhou em ser fotógrafa da National Geografic, para depois querer ser escritora. Acabou virando jornalista (no diploma) e professora (na carteira de trabalho – RIP). Adulta, só daqui uns anos.
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