E a Mulher Criou Hollywood: o resgate da presença feminina no início do cinema

E a Mulher Criou Hollywood: o resgate da presença feminina no início do cinema

Dizem que a História é contada pelos vitoriosos. Partindo dessa premissa, poderíamos explicar a falta de mulheres, pessoas negras e LGBTQ nas narrativas históricas padrão. As minorias não têm o direito de contar sua história. Com o cinema não poderia ser diferente. Se você abrir qualquer livro sobre a história do cinema nos seus primórdios, vai se deparar com uma série de nomes, como Georges Méliès, D.W Griffith ou Charlie Chaplin. Não há nenhum nome feminino entre os pioneiros do cinema, dando a falsa impressão de que as mulheres não participaram da construção da sétima arte. Pois aí que é você se engana! Você sabia que Alice Guy-Blaché criou o primeiro filme narrativo, seis meses antes de seu pupilo, o próprio Méliès, fazê-lo? E a Mulher Criou Hollywood(no original: Et la femme créa Hollywoodé um documentário que busca resgatar a presença das mulheres no começo da máquina que hoje chamamos de cinema.

As roteiristas e diretoras Julia e Clara Kuperberg, através de entrevistas com mulheres que trabalham na indústria cinematográfica, retraçam o papel que pioneiras como Lois Weber, Mary Pickford e Anita Loos tiveram na consolidação do cinema como um meio de arte de massa, além de discutir os motivos da ausência das mulheres na indústria.

Cari Beauchamp no documentário "E a Mulher Criou Hollywood"
Fala de Cari Beauchamp (pesquisadora, roteirista e filmmaker) no documentário “E a Mulher Criou Hollywood”, 2016.

“E a Mulher Criou Hollywood”: elas chegaram quando o cinema ainda era mato

Antes de o sistema de estúdio e da criação dos sindicatos para regular o cinema chegar, a sétima arte não era algo rentável. Sua origem remonta ao século XIX, quando alguns visionários, como os Irmãos Lumière e Alice Guy-Blaché, começaram a produzir pequenos filminhos, que eram exibidos nos intervalos dos shows de Vaudeville da época. Era tudo muito experimental.

O caráter experimental e sem lucros desse cinema possibilitou que mulheres e judeus pudessem trabalhar nesse meio. Para uma mulher, não havia muitos empregos. Você poderia escolher ser estenógrafa, por exemplo. Contudo, no alvorecer do cinema, muitas escolheram ir para a Califórnia trabalhar com cinema. Por costurar ser considerado algo “de mulher”, algumas foram as primeiras editoras de filmes. Elas realizavam a montagem dos filmes, colando um frame no outro e depois colorindo-os a mão.

Uma das primeiras montadoras da época foi Margareth Booth, que recebeu um Oscar honorário em 1978 por sua contribuição ao cinema. Ela foi pioneira do que chamamos de “invisible cutting” (corte invisível, em tradução livre), uma forma de montar o filme de maneira suave, sem que a espectadora perceba a transição entre uma cena e outra. Ela começou trabalhando para D.W Griffith e depois para o magnata Louis B.Mayer, presidente da MGM. Booth reinou soberana nesse estúdio por quatro décadas.

Margareth Booth, montadora por mais de quatro décadas na MGM
Margareth Booth, montadora por mais de quatro décadas na MGM. Imagem: reprodução

Ao longo dos anos 20, conforme o cinema crescia, a presença das mulheres aumentava. Não era apenas por trás das câmeras que as mulheres estavam conquistando cargos. Frente às câmeras, tínhamos Lillian Gish, uma das atrizes mais bem pagas da época. Ela conta, em um trecho de “E a Mulher Criou Hollywood, que chegou a brigar com Griffith, com quem fez mais de dez filmes, para que a cena saísse como ela queria.

O diretor teria dito a ela: “Se você é tão esperta, Senhorita Gish, vá lá e faça do seu jeito”. Acabou que o jeito da atriz era melhor que o proposto por Griffith. Nos anos 30 em diante, isso seria mais difícil. Tamanha ousadia sempre custava um preço. Se você fosse Bette Davis, por exemplo, pagaria a conta sendo posta na geladeira por seu estúdio, a Warner Brothers, por querer se meter demais, falar demais.

Tivemos pioneiras em todos os setores. Anita Loos, por exemplo, era a maga dos diálogos. Segundo Thomas Schatz, em seu livro “O gênio do sistema: a era dos estúdios em Hollywood, escrever para o cinema mudo era uma arte bastante especializada. Cada roteirista dominava uma parte desse processo. Havia aquele que inseria as gags, as piadinhas, que davam um sabor diferente ao texto, por exemplo. Anita era uma maga porque sabia fazer tudo isso com maestria.” Ela começou escrevendo roteiros nos anos 10 e, à medida que o cinema foi se especializando, Loos também foi se aprimorando. Chegou até mesmo a escrever um manual de como escrever roteiros. Sobre ela Schatz diz:

“Por volta de 1926, era a maior roteirista da MGM e uma das poucas capazes de desenvolver uma ideia até chegar ao roteiro final”.

Julia e Clara Kuperberg
As diretoras do filme “E a Mulher Criou Hollywood”, Julia e Clara Kuperberg. Imagem: reprodução

Além disso, Anita escreveu “Os homens preferem as loiras, um sucesso tão grande que lhe deu a liberdade de abandonar o cinema e viver apenas do lucro desse livro. Ele foi adaptado para a Broadway, mas é mais conhecido pela adaptação para o cinema, com Marilyn Monroe e Jane Russell nos papéis principais. Segundo o documentário, a Lorelai de Loos foi a primeira “loira burra inteligente” do cinema.

A lista de grandes roteiristas de Hollywood dessa época também inclui Frances Marion, responsável por mais de 40 filmes, como Stella Dallase “The Poor Little Rich Girl. Ganhou dois Oscar por Melhor Roteiro. Ela foi treinada por ninguém menos que Lois Weber, outra pioneira do período, diretora de filmes. Aliás, Weber era conhecida por sempre tentar puxar outras mulheres para o cinema, seguindo a lógica de “uma ajuda a outra a subir”. Frances trabalhou como freelancer, assim como sob contrato para os estúdios. Como outras roteiristas, ela era bastante próxima dos magnatas de estúdio, que confiavam muito em seu bom gosto.

Mary Pickford, uma das primeiras mulheres a fundar um estúdio de cinema, e Frances Marion, roteirista
Mary Pickford, uma das primeiras mulheres a fundar um estúdio de cinema, e Frances Marion, roteirista. Imagem: reprodução

Muito antes de uma mulher comandar um estúdio, o que aconteceria a Sherry Lansing na Fox Pictures, somente nos anos 80 Mary Pickford sentiu o gosto de estar à frente de um. Querendo mais controle sobre os seus papéis e a maneira como era paga por eles, ela fundou a United Artists ao lado de Charlie Chaplin e Douglas Fairbanks. Além disso, a criação da UA ia ao encontro das mudanças que aconteciam no cinema. Com a ascensão do sistema de estúdio, o objetivo da UA era distribuir filmes de alto padrão sem a regulamentação imposta pelos estúdios convencionais.

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Elas foram jogadas para escanteio pelo sistema predatório

Em 1927, o filme “O Cantor de Jazz causou uma revolução em Hollywood. Tratava-se do primeiro filme com diálogos falados já visto. A partir desse marco, uma série de transformações sacudiu a terra dos sonhos.

Se no começo do século o cinema era visto como uma arte menor, no final da década de 20 isso já não era mais verdade. Os principais estúdios, aqueles que fariam a máquina girar, já estavam formados: MGM, Warner Brothers e Universal. Nos anos 30, cada um deles conteria a própria marca, ou seja, algo que fazia com que a espectadora olhasse um determinado filme e soubesse de que estúdio era. Por exemplo, a MGM fazia filmes glamourosos, escapistas, ao passo que a Warner Brothers prosperou no ramo dos filmes de gângster, com James Cagney e Edward J.Robinson, que continham forte crítica social. Porém, antes de chegarmos à era de consolidação do sistema de produção, passamos por um evento muito importante: a crise de 29.

A crise de 1929 foi a melhor coisa que aconteceu aos estúdios de cinema. Ao contrário do que se pensa, foi a época em que eles mais lucraram. Segundo Thomas Schatz, a MGM foi uma das maiores beneficiárias desse momento, e foi nessa época que os melhores filmes começaram a ser feitos, com destaque para musicais com crítica social e números elaborados como “Cavadoras de Ouro”.

Além disso, como é demonstrado em “E a Mulher Criou Hollywood“, foi a crise de 29 que retirou todas as mulheres dos postos que ocupavam. Isso porque homens vindos das melhores universidades da Costa Leste começaram a migrar para o cinema, ou seja, a tirarem os cargos dessas mulheres. A criação dos sindicatos decidia o valor das mulheres, logo, elas não podiam mais estar à frente de roteiros e direção. Foram invisibilizadas. Algumas chegaram a treinar seus colegas, e eles acabavam colhendo os louros.

O movimento que invisibiliza as mulheres por trás das câmeras é o mesmo que as traz para frente delas. O culto às estrelas, algo que não tinha tanta força nos anos 20,  ganha força a partir dos anos 30, apoiado por uma imprensa com suas revistas de fofoca estilo Photoplay. O lugar das mulheres era como atrizes, cultuadas pela mídia e pelo próprio estúdio onde trabalhavam.

Também criavam-se rivalidades entre elas, como a suposta rixa entre Bette Davis e Joan Crawford, para estimular a competição entre as atrizes. Na verdade, era apenas o sistema predatório de estúdio colocando suas garras para fora, de maneira totalmente desleal, em uma linha de produção que descartava quem era mais velha, ou nem tão rentável.

Elas resistem apesar das adversidades

Algumas mulheres conseguiram furar a bolha da invisibilidade e fazer carreira dentro do cinema. Um desses casos célebres é o da diretora Ida Lupino. Ela começou como atriz, consolidou uma carreira nos filmes noir e isso a possibilitou partir para a carreira atrás das câmeras. Um dos mais famosos filmes noir, inclusive, é de sua direção, “O mundo odeia-me. Edith Head também teve uma carreira muito prolífica como figurinista em Hollywood. Ela tem oito Oscars por Melhor Figurino, e chegou até a inspirar a personagem Edna da animação “Os Incríveis”.

Ida Lupino criou a própria produtora de filmes ao lado do marido.
Ida Lupino. Criou a própria produtora de filmes ao lado do marido. Imagem: reprodução

Uma das entrevistadas de “E a Mulher Criou Hollywood, dá uma declaração muito verdadeira: que, apesar de as coisas terem melhorado um pouco, o número de mulheres trabalhando na indústria cinematográfica ainda é pior que os do Congresso. Apesar de todos os esforços, a lógica do Clube do Bolinha continua. Precisamos provar duas vezes mais que merecemos estar nesse ambiente.

Os dados são alarmantes. Apenas cinco mulheres foram indicadas ao Oscar de Melhor Direção, isso em 90 anos de premiação, por exemplo. Um documentário como “E a Mulher Criou Hollywood” tem um papel fundamental no entendimento desses dados e da nossa própria trajetória enquanto mulheres dentro da indústria. É o resgate de uma história esquecida, que gera revolta e frustração, porque mulheres como Alice Guy-Blaché inovaram primeiro, mas nunca levaram os louros por isso. Porque as faculdades, os livros esquecem de nós. E, na História, temos um negócio chamado memória, algo muito importante. Sem memória, você não tem história. É a partir dessa memória esquecida que podemos olhar para o futuro e traçar caminhos para lutar contra a invisibilidade dentro da indústria cinematográfica.

Olhar para essas pioneiras é perceber que furaremos por bem ou por mal a bolha do Clube do Bolinha. Temos muito do que nos orgulhar e agradecer a essas mulheres!

Para saber mais:

Confira um trecho do documentário abaixo:

Imagem em destaque: Colagem feita por Jessica Bandeira.

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Tradutora e noveleira. Criou, em 2014, o canal sobre cinema clássico no YouTube, o Cine Espresso, para espalhar na Internet o amor pelos filmes esquecidos. Gosta de chá preto acompanhado de um bom livro.
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