[TEATRO] Leopoldina, independência e morte: Quando o patriarcado escreve a história

[TEATRO] Leopoldina, independência e morte: Quando o patriarcado escreve a história

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Em 07 de Setembro de 1822, às margens do riacho Ipiranga e montado em seu belo cavalo, D. Pedro I (príncipe regente do Brasil), vestindo um traje de gala característico da nobreza, impunha sua espada, num gesto forte e altamente simbólico e gritava a plenos pulmões que naquele momento o Brasil se declarava independente de Portugal. A frase, atribuída a D. Pedro I e que marcou a independência do Brasil, “Independência ou Morte”, ficou famosa, assim como a imagem (idealizada) de seu feito, que acabou sendo eternizado pelo famoso pintor acadêmico Pedro Américo, em sua obra “O Grito do Ipiranga”.

Naturalmente, a história que resumo e descrevo acima é exatamente como aquela que me recordo ter aprendido nos bancos da escola, em meados dos anos 80. Não posso afirmar como a história da Independência do Brasil é contada hoje aos estudantes de nosso país, mas evidentemente que hoje sei que a famosa pintura de Pedro Américo é nada mais do a visão teatral imaginada pelo artista e que serviu, como muitas outras obras daquele período, para fortalecer e legitimar a imagem do imperador e da monarquia.

A verdade é que D. Pedro I, em 07 de Setembro de 1822, estava a caminho do Rio de Janeiro retornando de uma viagem a São Paulo, que fizera com o propósito de apaziguar um conflito na província, assim como em Minas Gerais, de grupos contrários às ideias de José Bonifácio, então Ministro do Governo. Leopoldina de Habsburgo, princesa e esposa de D. Pedro I, foi nomeada por ele como a chefe do Conselho de Estado e Princesa Regente Interina do Brasil, durante sua ausência. Pressionada por notícias vindas de Portugal, convocou, em 02 de Setembro de 1822, uma reunião com o Conselho de Estado e, apoiada por Jose Bonifácio, assinou um decreto que garantiu a Independência do Brasil.

Leopoldina enviou dois emissários (major Antônio Ramos Cordeiro e Paulo Bregaro) até D. Pedro, com diversas correspondências: cartas de sua autoria, de José Bonifácio; duas de Lisboa – uma de seu pai D. João VI e outra com instrução das Cortes, exigindo o regresso imediato do príncipe e a prisão e processo de José Bonifácio, e a última de Chamberlain (amigo de confiança do príncipe D. Pedro).

As cartas, entre outras coisas, tiveram o objetivo de aconselhar D. Pedro a anunciar a já Independência do Brasil. Os emissários encontraram D. Pedro às margens do rio Ipiranga, esgotado de sua viagem, doente, acometido por problemas intestinais que o obrigaram a parar de ponto em ponto, com uma comitiva reduzida e montados em burros, que eram mais fortes para subir a serra. E assim, aconselhado pela Princesa Regente Interina do Brasil, ele declarou a independência de nossa nação.

A história de nosso país, assim como a de todas as outras nações, é contada por homens. Portanto, é natural e sabido que muitas mulheres colaboraram com grandes feitos históricos em todo o mundo, mas por uma questão cultural e social, a história mundial, e também a do Brasil, relegou às mulheres o papel apenas de parideiras e material de troca para garantir ascensão social e política, aquisição de riquezas e terras para muitos dos ilustres senhores desde o início da era “civilizada”.

A peça teatral “Leopoldina, independência e morte” e o resgate histórico do protagonismo de uma mulher nas conquistas de nosso país

Leopoldina

O espetáculo teatral Leopoldina, independência e morte, com texto e direção de Marcos Damigo, estrelado pela talentosa Sara Antunes (Princesa Leopoldina) e Joca Andreazza (José Bonifácio), traz luz a um dos mais importantes feitos da história brasileira, e esclarece o quanto foi decisiva a participação de Leopoldina para a Independência do Brasil.

Leopoldina, independência e morte estreou este ano no dia 26 de maio, no CCBB-SP, e terminou sua primeira temporada em 21 de junho. Com casa lotada e aclamados de pé, o espetáculo produzido por Fernanda Moura – da Palimpsesto Produções Artísticas – e patrocinado pelo Banco do Brasil, destaca o papel da Princesa Leopoldina neste processo histórico e recria três fragmentos da vida da arquiduquesa austríaca que virou Imperatriz no Brasil: sua chegada, sua paixão por D. Pedro I e, por fim, o delírio que consumiu seus últimos dias.

Leopoldina, nascida na Áustria, em 22 de Janeiro 1797, pertencia à Casa de Habsburgo-Lorena, nobre família e uma das mais antigas dinastias da Europa, a qual reinou sobre a Áustria de 1282 até 1918, dentre outros territórios. Era filha do último imperador do Sacro Império Romano-Germânico Francisco II, (o qual, a partir de 1804, passou a ser apenas o “Imperador da Áustria”, com o título de Francisco I), e de sua segunda esposa e prima Maria Teresa da Sicília, Princesa das Duas Sicílias, de um ramo da Casa de Bourbon.

Foi uma arquiduquesa muito bem instruída nas artes e ciência. Faziam parte da formação dos arquiduques e das arquiduquesas estudos regulares de leitura, escrita, aritmética, alemão, francês, italiano, latim e religião. Em seguida, dedicavam-se à dança, ao desenho ou à pintura, à história, à geografia, às ciências naturais, à música e ao cravo. Mantinham hábitos requintados e atividades frequentes entre os palácios de Schönbrunn, de Hoffburgo e de Luxemburgo.

Leopoldina teve uma infância marcada pela rigidez com os estudos, estímulos culturais diversos e as sucessivas guerras que ameaçavam o império de seu pai. Gostava muito de ler e de estudar ciências naturais, sobretudo mineralogia, botânica, zoologia, astronomia e física. Portanto, Leopoldina ao se casar com D. Pedro, já era uma jovem formada e instruída, com conhecimentos em várias línguas, habituada a receber imperadores de todo o continente europeu, com habilidades políticas, conhecimento em artes de toda espécie e botânica.

Maria Leopoldina. Retrato por Joseph Kreutzinger (1815)

Possivelmente, teve uma educação superior a de D. Pedro, o que justifica a postura de Leopoldina em aconselhar o príncipe regente em situações diversas, dispondo de sua confiança (de D. Pedro), inclusive para assumir a regência do país nas ocasiões em que ele esteve ausente, ou na desenvoltura com que a princesa tratava chefes de estado que eventualmente se encontravam em solo tupiniquim, sendo fluente em vários idiomas.

Casaram-se por procuração em 13 de maio de 1817, e somente quando chegou ao Brasil – no Rio de Janeiro, onde estava instalada a corte Portuguesa – em 05 de novembro de 1817, com 19 anos, é que conheceu D. Pedro I.

Nascida Caroline Josepha Leopoldine Franziska Ferdinanda von Habsburg-Lothringen, adotou o nome Maria Leopoldina por simpatia à corte e para aproximar-se do povo brasileiro. Apaixonou-se perdidamente por D. Pedro, que sabidamente nunca lhe fora fiel – tendo inclusive assumido um romance com Domitila, que pode ter sido uma das causas do tamanho sofrimento que a levou à morte precoce com 29 anos.

Com grande simpatia pelo povo brasileiro e discreta aliança com José Bonifácio, foi importante na decisão de D. Pedro por ficar no Brasil, contrariando seu pai D. João VI, que exigia que seu filho voltasse a Lisboa, assim como na proclamação da Independência. Porém, mesmo sendo atuante como conselheira política, estrategista e com diplomacia o suficiente para auxiliar D. Pedro em recepções, nunca teve seu papel valorizado, sendo sempre relegada à responsabilidade de gerar um sucessor do trono.

  • Viveu casada 10 anos e esteve grávida nove vezes, sempre com gestações de risco, sofreu alguns abortos, perdeu para doença alguns filhos, mas teve êxito em deixar para o Brasil, o imperador que daria continuidade ao SEU legado – D. Pedro II.

  • Virou Imperatriz do Brasil, ao lado de D. Pedro I, em 01/12/1822.

  • Viveu presa e impossibilitada de participar da corte, que não a suportava, e desprezada pelo marido, que nunca a tratou com carinho, tampouco com cordialidade, ficando pior na ocasião que assumiu seu romance com Domitila.

O espetáculo Leopoldina, Independência e Morte é quase uma poesia, tamanha riqueza histórica que nos apresenta a excelente interpretação de Sara, que consegue capturar o sofrimento dessa mulher incrível que, como muitas de nós, foi silenciada, trocada como mercadoria e sofreu sozinha, quase exilada de sua pátria, o desprezo e a crueldade do homem que amava, a mediocridade da corte portuguesa, mas que deixou um legado rico em cultura e botânica (ela foi responsável por expedições com cientistas, pintores, bibliotecários e especialistas em geral que pudessem ajudá-la em seu projeto: a construção de uma biblioteca e a escrita de livros e glossários sobre a fauna e a flora do Brasil. Incentivou também a criação do Museu de História Nacional da antiga Casa dos Pássaros).

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Marcos Damingo encontrou no ensaio, publicado pela escritora e psicanalista Maria Rita Kehl, no livro “Cartas de uma Imperatriz” (Estação Liberdade), o estopim para definir o recorte de uma história tão rica e interessante, enfatizando a transformação da princesa europeia em estadista consciente de seu tempo histórico.

É uma pena que o espetáculo tenha terminado sua temporada, pois a peça nos dá grande ideia de quem foi Leopoldina, seus feitos e sua grande importância em nossa história. Porém, mais do que tudo, deixa evidente que, apesar de sua história ter mais de cem anos, a luta travada por ela, enquanto mulher que devia se submeter ao estado e ao seu marido, ainda se faz presente na vida de todas nós mulheres, em maior ou menor escala. Afinal, ainda não temos uma lei que legalize o aborto, leis mais severas que protejam mulheres, num país com uma das maiores taxas de violência de gênero e um entendimento social e político que reconhece a equiparidade entre homens e mulheres, garantindo os mesmo direitos legais, sociais e trabalhistas para todos os indivíduos, independentes de seu gênero.

Dito isso, espero que Leopoldina, Independência e Morte receba atenção merecida de empresas interessadas em patrocinar cultura no Brasil, seguindo o excelente exemplo do Banco do Brasil, e nos presenteie a todos e todas, com uma segunda temporada do espetáculo, talvez até mais longa, na ocasião das comemorações do 7 de setembro. Afinal, a Independência do Brasil foi assinada por Leopoldina, a grande mulher ao lado de D. Pedro. Já está mais do que na hora de nossa sociedade reconhecer que sem a força e coragem de nossa Princesa regente, nosso destino talvez não fosse o mesmo.

“Para entender a transformação sofrida por Leopoldina no Brasil é preciso pensar na princesa não só como estrangeira mas como exilada (…) Era como estar afastada de si mesma. Ela se esforçava para cumprir seu dever, como um modo de ainda conservar o que considerava o melhor de si (…) Ainda ficava satisfeita em ocupar a posição infantil de menina obediente, ainda preferia alienar-se de sua própria condição para satisfazer o desejo de um outro, um outro do sexo masculino, tanto faz se o marido ou o pai, desde que estivesse em posição de autoridade diante dela, que lhe dissesse o que fazer, que aprovasse seu sacrifício”.

(Trecho do artigo escrito por Maria Rita Kehl, intitulado “Leopoldina, ensaio para um perfil”, publicado no livro “D. Leopoldina – Cartaz de uma Imperatriz”.)


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Mulher, mãe, profissional e devoradora de filmes. Graduada em Psicologia pela Universidade Metodista de São Paulo, trabalhando com Gestão de Patrocínios e Parceiras. Geniosa por natureza e determinada por opção.
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