Feud – Bette & Joan: O machismo hollywoodiano como construção da rivalidade feminina

Feud – Bette & Joan: O machismo hollywoodiano como construção da rivalidade feminina

Feud: Bette and Joan, série criada por Ryan Murphy (American Horror Story, Glee, Nip/Tuck) e exibida pela FOX, foi ao ar no dia 05 de março e encerrou com 8 episódios, sendo o último exibido no dia 23 de abril. Feud: Bette and Joan vai muito além da apresentação de um dos casos mais famosos de rivalidade da história de Hollywood. Em seu primeiro episódio, a série demonstra como Hollywood nos anos dourados já descartava suas atrizes, como espécies de produtos que passaram do lote de fabricação a medida que a idade avançasse. 

[Não contém spoilers]

A série desde o início mostra que Bette Davis (Susan Sarandon) e Joan Crawford (Jessica Lange) tinham certas divergências pessoais sobre o passado, embora o longa “O que teria acontecido com Baby Jane?” (1962) tenha sido o primeiro trabalho das duas juntas. A famosa briga teria sido por causa da disputa pelo sucesso? O medo de uma “tomar” o espaço e as oportunidades da outra?

Sabemos como a mídia manipuladora constrói papéis divergentes e contribui para a distorção dos fatos, apenas com o intuito de gerar mais audiência e público, e, consequentemente, mais dinheiro para quem está por trás da divulgação das produções cinematográficas. Ambas atrizes realizaram papéis marcantes e consolidaram na mesma época suas carreiras na MGM e Warner Brothers. Será que a glamourosa Hollywood dos anos dourados e a mídia, na época, não foram o principal fator da construção da rivalidade de Bette Davis e Joan Crawford?

Vemos no início da série, que apesar de Joan Crawford cobrar exaustivamente de seu produtor a busca por papéis interessantes correspondentes à capacidade do seu talento (ganhou 1 Oscar de Melhor Atriz por “Alma em Suplício”, de 1945), a atriz não recebia mais oportunidades de atuação há 3 anos. Foi quando percebeu que não podia mais depender da “boa vontade” dos produtores, geralmente homens, que ela descobriu o livro “O que teria acontecido com Baby Jane?”, do autor Henry Farrell, publicado em 1960 pela editora Rinehart & Company. Joan foi atrás de Bette – condenada então a papéis coadjuvantes e pouco significativos por causa da sua idade – seduzindo-a de que este seria o papel perfeito para desabrochar novamente sua carreira.

Com a ideia que o longa seria um filme de sucesso, juntas elas conseguiram alavancar a realização do longa com a direção de Robert Aldrich (“A Morte Num Beijo”, de 1955 e “Com a Maldade na Alma”, de 1964), interpretado por Alfred Molina. As duas, apesar das divergências pessoais que serão demonstradas ao longo dos episódios, nutriam uma espécie de respeito mútuo devido ao talento de cada uma, e foi durante a produção de “O que teria acontecido com Baby Jane?” que uma passou a conhecer de fato a outra, e perceberam como Hollywood descartava as estrelas que ajudaram a construir quando eram jovens e belas. 

Feud
Cena do piloto de Feud

A série é exibida como um falso documentário, onde ao longo dos 8 episódios reúne depoimentos de personagens que conviveram com as atrizes na época, como Olivia de Havilland (Catherine Zeta-Jones) – atriz de “…E o Vento Levou” (1939) e Joan Blondell (Kathy Bates) – atriz que foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por “The Blue Veil” (1951). Todos esses depoimentos ajudam a desvendar as origens da rivalidade de Bette e Joan. Ao mesmo tempo é demonstrado na série os bastidores da produção de “O Que Teria Acontecido com Baby Jane?” e os anos seguintes ao lançamento do filme. Notamos como as atrizes foram reduzidas ao esquecimento, tanto nas oportunidades de trabalho, quanto nas homenagens pelos grandes festivais. 

“Uma briga não nasce do ódio, mas da dor”.

– Olivia de Havilland, no piloto de FEUD

Bette Davis era uma mulher segura de si e muito a frente de seu tempo. Não tinha medo de manifestar suas opiniões no ambiente de trabalho, e era conhecida nos bastidores como uma mulher de “temperamento forte”, termo utilizado, inclusive hoje em dia, para classificar as mulheres que se recusam a servirem de enfeites decorativos.

Bette emitia suas opiniões negativas ou positivas para quem quer que fosse, mesmo consciente de trabalhar numa profissão predominantemente masculina nos meios de produção. Já nessa época desafiava os padrões de gênero impostos às mulheres, mesmo dotada de privilégios, e recusa aceitar as amarras de um casamento que a condenava no papel de dona de casa, como demonstra em um dos diálogos marcantes com seu ex-marido. 

Joan Crawford  sabia muito bem como “jogar o jogo” de Hollywood para conseguir o papel que era correspondente ao seu talento. Conhecida por sua beleza, os produtores reservavam os melhores papéis de destaque para Joan, e devido a todo o machismo inserido nos meios de produção – onde a beleza era mais importante para as mulheres que o talento – sempre estava preocupada com sua aparência, tentando aparentar o mais jovem possível diante das câmeras, até mesmo quando sua juventude havia passado. 

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Joan Crawford e Bette Davis em “O Que Terá Acontecido a Baby Jane?” (1962)

Uma ausência sentida na composição das personagens eleitas para contar sobre os bastidores desta epopeica e mítica obra Hollywoodiana é a da personagem Elvira, empregada das irmãs Jane e Blanche Hudson, interpretada no filme original por Maidie Norman. Curioso notar que o “esquecimento” desta personagem fundamental para o desfecho de “O que teria acontecido com Baby Jane?” faz com que a série seja realizada unicamente por atrizes e atores brancos.

A supressão da única personagem negra da trama nos faz questionar o quanto a questão de gênero ainda é vista de forma descolada da questão étnico-racial, quando sabemos que em 2017 a interseccionalidade é (ou deveria ser) uma das principais metas do feminismo. Vale ressaltar que Maidie Norman era mais conhecida por seus trabalhos para televisão, tendo atuado em mais de cem obras, entre filmes e seriados como “O incrível Hulk” (1979) e “O agente da Uncle” (1965).

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Maidie Norman, interpretando a empregada Elvira em “O que teria acontecido com Baby Jane?” (1962)

Por outro lado, se vemos a ausência da personagem que interpreta a empregada no filme, um grande destaque na série é a personagem da governanta na vida real de Joan Crawford, por quem Joan chama de Mamacita (Jackie Hoffman). Muito além de ser apenas o “braço direito” de Joan, Mamacita tem poucos diálogos no início da série, mas com o avançar dos episódios ela ganha mais visibilidade e importância, mostrando-se uma mulher sábia, que observa e conhece muito dessa máquina de criar (e destruir) estrelas que é Hollywood. Sempre cercada de celebridades e conhecedora do universo hollywoodiano, Mamacita se mostra extremamente preocupada com as questões de gênero já naquela época, principalmente por conhecer a dificuldade das mulheres que ousavam dirigir, escrever e produzir filmes nos anos dourados. 

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Mamacita dialogando com Pauline, assistente de direção de Robert Aldrich

Pauline, assistente do diretor Robert Aldrich, também é uma personagem marcante na série, lembrando os desafios da ascensão profissional de Peggy Olson (Mad Men), que em Mad Men enfrentou todo o machismo inserido no escritório de publicidade chefiado por Don Draper – um ambiente profissional que enxergava as mulheres como meros enfeites decorativos para chamar atenção e conquistar o interesse dos clientes. Assim como Peggy Olson, Pauline é questionada por sua ambição, e toda a sua experiência adquirida por vários anos trabalhando como assistente de direção, não é o suficiente para conseguir crescer num ambiente profissional predominantemente masculino.

“Uma mulher dirigindo em Hollywood? Você está fantasiando!” (Feud)

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Robert Aldrich conversando com a assistente de direção, Pauline.

No piloto da série já percebemos como essas duas atrizes talentosas, Bette e Joan, enfrentaram questões infelizmente ainda atuais como salários desiguais, assédio e a desvalorização dos trabalhos feitos por mulheres. Tudo isso amedrontava os homens por trás dos meios de produção, pois já naquela época essas duas atrizes grandiosas desafiaram o machismo estrutural nos bastidores.

Quem estava por trás da escalação do elenco e de toda a produção? Majoritariamente homens brancos, aqueles que eram os responsáveis, os que ditavam as regras. A série demonstra como “brincadeirinhas” sexistas faziam parte da rotina das atrizes. Podemos ver que não mudou muita coisa, pois a naturalização do assédio no ambiente de trabalho ocorre até hoje, como nos casos atuais que são divulgados. 

Se hoje em dia uma denúncia de assédio já causa tamanha polêmica com comentários misóginos e culpabilização da vítima, imagina enfrentar isso nos anos 50? A regra era simples: quanto mais inexperiente e consequentemente mais jovem a atriz fosse, mais supostamente controlável ela seria. Somando essas questões ao quesito da juventude e beleza, era um prato cheio para que os produtores e diretores cometessem os atos mais machistas e sexistas nos bastidores. 

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Bette Davis (Susan Sarandon) sobre o clube do bolinha em Hollywood

Feud – Bette & Joan é uma alfinetada certeira no cerne do machismo da produção cinematográfica, e mostra como o grande vilão de toda a origem da rivalidade de duas grandiosas atrizes estava muito bem disfarçado nos bastidores, nos lugares que o público não vê. A série mostra como a Hollywood dos famosos anos dourados era pequena demais para aceitar essas duas mulheres igualmente talentosas e brilhantes que desafiaram os estereótipos de donzelas, assim como aquelas mulheres que sonhavam e desafiavam o direito de pertencimento e crescimento na produção cinematográfica.

Quantas diretoras igualmente incríveis poderiam ter realizado filmes memoráveis e importantes para a história do cinema se não houvesse o “clube do bolinha” que Hollywood infelizmente é até hoje? É lamentável pensar que as mulheres foram valorizadas apenas na era do cinema mudo, como podemos ver no excelente documentário “E A Mulher Criou Hollywood” (2016) de Julia e Clara Kuperberg. À medida que o cinema passou a ser reconhecido como uma profissão respeitável e, principalmente, lucrativa, as mulheres que já trabalhavam e produziam excelentes obras, foram silenciadas e destinadas a papéis menores nos meios de produção. De diretoras, roteiristas, montadoras e produtoras, passaram a assistentes.

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Depois da guerra as mulheres iam trabalhar nas fábricas de avião e tudo o mais, mas a guerra tinha acabado. Rosie, a Rebitadeira, foi mandada de volta para a cozinha. Era assim no fim dos anos 40 e começo dos anos 50, não havia muitas mulheres trabalhando em Hollywood. Só nos anos 70 e 80 os números começaram a aumentar, mas nunca foi como antes. Em 2015, 6% dos melhores 250 filmes foram dirigidos por mulheres. Só 12% foram editados por mulheres, 10% foram escritos por mulheres. Um dos piores exemplos de desigualdade de gênero em qualquer indústria hoje em dia é a indústria cinematográfica. Ninguém sabia que Frances Marion escreveu mais de 50 filmes. Ninguém sabia que Lois Weber era a diretora mais bem paga da era do cinema mudo. Ninguém sabia que a primeira pessoa a colocar uma história narrativa na tela foi Alice Guy-Blaché. Só nos lembramos do pupilo dela, Méliès. E ela fez os primeiros filmes sonoros. Quem diria que ela trabalhava com som em 1906 com uma engenhoca chamada chronophone? Nos lembramos de diretores homens, mas não lembramos de Alice Guy-Blaché, dela ter sido antecessora dele, dela ter feito o primeiro filme narrativo seis meses antes dele. […] Felizmente, veio o movimento feminista” (Fala de Cari Beauchamp, pesquisadora, roteirista e filmmaker no documentário ‘E a Mulher Criou Hollywood’, 2016, dirigido por Julia Kuperberg e Clara Kuperberg) Imagem: CineclubeDelas

Um dos muitos pontos altos da série criada por Murphy é que dos 8 episódios, 4 foram dirigidos por mulheres. São eles: o terceiro, “Mamãezinha querida”, por Gwyneth Horder-Payton, o quarto, “Mais, ou menos“, por Liza Johnson, o sétimo, “Abandonada!” por Helen Hunt e o último, “Quer dizer que todo esse tempo poderíamos ter sido amigas?“, dirigido novamente por Gwyneth Horder-Payton. Isto demonstra que a produção da série está preocupada não apenas em discutir e debater a questão da representação e da representatividade de gênero como tema desta primeira temporada, mas também que está imbuída de um espírito igualitário no que tange os modos de produção da obra.

Certamente não é à toa que o episódio dirigido por Liza Johnson seja o mais abertamente feminista e questionador no sentido de colocar nas palavras das personagens vários dados do sexismo com o qual Hollywood pavimentou seu modo de fazer cinema. Abaixo veremos o diálogo no qual Pauline demonstra claramente seu desconforto e seu desejo em querer dirigir o roteiro que ela mesma escreveu como já mencionado acima.

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Mamacita dialogando com Pauline, assistente de direção de Robert Aldrich (episódio 4)

Não podemos perder de vista que o sexismo é internalizado não apenas pelos homens, mas também pelas mulheres que são vítimas desse sistema ao minar por completo sua autoconfiança e as fazer questionar inclusive acerca de suas capacidades cognitiva e intelectual para determinadas profissões. Na sequência deste diálogo com Mamacita, Pauline pretendia uma aproximação com Joan Crawford (musa que idealizou para estrelar seu primeiro filme em carreira solo). Porém, ao se aproximar da diva esperando uma imediata aceitação de seu projeto aparentemente irrecusável, vemos um dos diálogos mais tristemente interessantes da série. Até porque o óbvio ainda precisa ser dito.

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Joan Crawford expondo os motivos pelos quais recusa o projeto de Pauline, assistente de direção de Robert Aldrich (episódio 4)

Importante mencionar que o quinto episódio, dirigido pelo próprio Ryan Murphy, é um dos clímax da série, pois emula o tão famoso caso envolvendo o Oscar de 1963. Sem mencionar detalhes do capítulo, há uma cena em particular, filmada em um grande, demorado e magistral plano sequência no qual acompanhamos com uma câmera nas costas de Jessica Lange, toda a trajetória de Joan Crawford dos bastidores da premiação até a sua chegada ao palco no momento do anúncio do prêmio de melhor atriz daquele ano. Neste episódio, todas as tensões até então exploradas no seriado explodem de forma catártica para ambas as personagens, cada uma por um motivo diferente, deixando claro que um filme nunca se esgota no “the end” visto ao final de uma projeção junto com os créditos.  

Feud- Bette e Joan certamente fará o público questionar muito por trás dos bastidores do cinema, fazendo com que passemos a observar quais filmes temos assistido e a valorizarmos mais a produção feita por mulheres.

Numa escala de 10 filmes favoritos, você consegue listar ao menos 5 filmes dirigidos por mulheres?

Será que não está na hora de conhecermos diretoras que nem sempre são agraciadas nos grandes festivais de cinema, uma vez que historicamente estes sempre valorizaram mais as obras feitas por homens? Grande parte dos filmes de diretoras, que vem sendo cada vez mais notadas e premiadas pelos festivais (principalmente os mais alternativos) ao redor do mundo, muitas vezes não chegam sequer a estrear em circuito comercial, fazendo com que o acesso a eles fique restrito ao universo da internet.

Ao terminar de assistir a Feud- Bette and Joan e ver como o machismo hollywoodiano, aliado à mídia manipuladora, exerceu muito bem seu papel nocivo na construção do maior caso cinematográfico de rivalidade feminina – apenas com objetivo de lucrar – podemos fazer a mesma pergunta que Bette Davis faz no longa “O Que Terá Acontecido a Baby Jane?” e repetida nos bastidores de gravação mostrados na série:

“Todo esse tempo, nós poderíamos ter sido amigas?”

Feud
Sim, talvez poderíamos ter sido grandes amigas, se não fosse toda essa manipulação machista nos bastidores hollywoodianos.

Texto escrito em parceria por Isabelle Simões e Samantha Brasil.

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