A amizade feminina vista pelo cinema de Agnès Varda e Claudia Weill

A amizade feminina vista pelo cinema de Agnès Varda e Claudia Weill

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Na década de 1970, os movimentos feministas europeu e estadunidense passavam por sua segunda fase. Foi exatamente nessa época que Agnès Varda e Claudia Weill produziram e lançaram dois grandes filmes de suas carreiras. Em março de 1977, “Uma Canta, A Outra Não” estreou na França e, pouco mais de um ano depois, em agosto de 1978, “Girlfriends” teve sua estreia em Nova Iorque.

Os dois filmes narram histórias sobre casais de amigas, mas cada um deles propõe pontos de vista distintos sobre o feminismo, a mulher como indivíduo e o que seria a amizade feminina. Portanto, é interessante resgatar duas obras tão clássicas e compará-las com os dias atuais, visto que os temas abordados continuam relevantes.

O otimismo de Agnès Varda

Cena musical de "Uma Canta, A Outra Não", de Agnès Varda
Cena musical de “Uma Canta, A Outra Não”, de Agnès Varda.

Ativista feminista, Agnès Varda entrelaça muito bem a narrativa pessoal de “Uma Canta, A Outra Não” com o movimento feminista francês. O filme também é marcado por uma narração em off, assinatura clássica da diretora, e pela presença de fotografias e correspondências através de cartas e postais, elementos que também se tornariam centrais em suas produções ao longo da carreira.

O longa-metragem traz a história de Pauline (Valérie Mairesse), uma estudante que adentra uma loja por acaso e questiona o fotógrafo sobre as mulheres expostas em suas fotos. Ao reconhecer uma das fotografadas como sua ex-vizinha e descobrir que ela é a então esposa do artista, um reencontro entre as duas é marcado. Dali em diante, Pauline e Suzanne (Thérèse Liotard) nunca mais teriam suas vidas separadas, mesmo quando certa distância geográfica se instalasse entre elas em diferentes ocasiões ao passar dos anos. 

Em parte colorido pela moda dos anos 70, pelas paisagens em estações mais quentes e pela arte criada por Pauline – agora chamada Pomme (maçã, em francês) –, “Uma Canta, A Outra Não” é um musical feminista que mantém o bom-humor mesmo tratando de temáticas tão profundas. Questões como aborto, domínio patriarcal, solidão feminina e maternidade têm seu espaço, mas todas são, de certa maneira, finalizadas com um sorriso no rosto das personagens. 

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Inclusive, esse talvez também seja o principal ponto de debate entre quem gosta do filme e quem o critica. A escolha ativa por uma visão otimista pode ter sido uma vontade de Varda em evidenciar certa resiliência de suas personagens e enaltecer o poder do feminismo na vida das mulheres, tendo que, para tal, “simplificar” os acontecimentos. Contudo, isso também pode gerar incômodo em quem acha que essa perspectiva não contribui para fortalecer a imagem feminina, reduzindo-a uma nota só (incômodo esse que aumenta quando se junta ao recorte raso da diversidade de corpos, tratando apenas de mulheres brancas, cis, hétero, magras, etc). 

O pessimismo – ou realismo – de Claudia Weill

amizade feminina
A cena de abertura de “Girlfriends” já demonstra o nível de intimidade da amizade entre Anne (deitada) e Susan (fotografando).

Para a construção de “Girlfriends”, Weill parte de uma perspectiva pessoal assim como Varda, mas mais íntima, indo além do desejo de contar uma história sobre o universo feminino e inserindo parte de sua personalidade e suas características na protagonista.

Não que Varda não tenha talvez feito isso em seu próprio longa, mas nesse caso, quando entrevistada, Weill abertamente disse que queria que a história seguisse uma mulher oposta às protagonistas “de sempre”: loiras, boazinhas, alegres. Sua vontade era de dar destaque àquelas que geralmente eram vistas apenas como as “melhores amigas”: engraçadas, mas não cobiçadas tanto pelos homens por serem menos atraentes que a principal ou simplesmente por não estarem dispostas a agradá-los.

E essa é realmente a estética em “Girlfriends”: Susan (Melanie Mayron), a protagonista “não-tradicional”, tem alguns casos amorosos, enquanto a loira Anne (Anita Skinner), que comumente seria a estrela, se casa logo ao início da trama (um caminho que também não garante uma vida perfeita). 

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A questão é que o longa vai muito além dessa mera inversão de expectativas. O evento principal que desencadeia todo o restante da história é quando Anne deixa o apartamento que dividia com Susan para começar a montar sua vida com o noivo Martin (Bob Balaban). A relação de amizade das duas é pautada nessa convivência há anos e Susan se sente traída ao ser forçada para uma vida independente. 

Diante do ocorrido, as duas se separam assim como Pomme e Suzanne no filme de Varda, mas o efeito é oposto: elas não imaginam carinhosamente o que a outra poderia estar fazendo ou torcem para que se encontrem, mas guardam rancor a cada interação mal sucedida. Esse amargor entre elas é tão válido quanto o afeto, até mesmo por ser fruto de anos compartilhados.

A heteronormatividade nessas relações femininas

O recorrente tema da maternidade no filme da Agnès Varda.
O recorrente tema da maternidade no filme da Varda.

Apesar do contraste entre as duas produções no quesito do tom dado à narrativa, tanto o filme francês quanto o estadunidense moldaram suas histórias em personagens hétero. Como a própria Varda comentou ao antecipar críticas antes da estreia, algumas feministas francesas achavam que ela não era “anti-homens” o suficiente. 

Bom, não é uma questão contra o masculino, nem de que para mostrar relacionamentos femininos de grande força eles tenham que obrigatoriamente se desenvolver romanticamente. Entretanto, é curioso identificar esse tipo de recorte delimitante, ainda mais se tratando da época na qual os longas foram realizados. 

Em “Uma Canta, A Outra Não”, não há nem mesmo menção de mulheres lésbicas ou bissexuais. O discurso das protagonistas é fundamentado no corpo feminino e em sua liberação. Portanto, há um grupo de mulheres que canta sobre teorias feministas e não há uma personagem sequer que não seja hétero?

Uma hipótese para justificar isso é a de que o roteiro de Varda se pauta muito pela dualidade homem e mulher, focando nessa binariedade até mesmo pela questão da maternidade, da concepção humana e dos papeis pré-determinados de “pai” e “mãe” dentro do conceito de família.

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Cenas de "Girlfriends". À esquerda, Eric e Susan discutem. À direita, a recém-chegada Ceil incentiva Susan a "se conectar com o próprio corpo".
Cenas de “Girlfriends”. À esquerda, Eric e Susan discutem. À direita, a recém-chegada Ceil incentiva Susan a “se conectar com o próprio corpo”.

Em “Girlfriends”, por sua vez, o título já parte de uma noção ambígua, um vez que, em inglês, girlfriend pode servir tanto para “namorada”, quanto para apenas especificar o gênero feminino (“girl”) da palavra amigo (“friend”). 

Esse é o mal entendido que acontece entre Susan e Ceil (Amy Wright), a nova colega de apartamento da protagonista. A novata flerta com ela em uma cena, sendo interrompida por Susan, que explica que a mulher com quem morava antes não era sua parceira. 

Em contrapartida, quando reconecta-se com Eric (Christopher Guest), um caso que teve logo depois da partida de Anne, e ele pergunta o motivo dela ter saído tão depressa do apartamento, Susan explica que naquele momento estava magoada por um término recente e ri.

O filme flerta com essa noção de que a relação entre as duas personagens principais era tão intensa quanto um namoro ou casamento, mas desdenha da personagem que teria interesse romântico nela. Uma das principais razões para isso é pelo filme ser contado a partir da perspectiva cínica de Susan, que não dá abertura para ninguém, barreira que é ainda mais reforçada após a decepção com Anne. 

A necessidade do cinema feito por elas, para elas

Por trás das câmeras – à esquerda: Thérèse Liotard, Agnès Varda e Valérie Mairesse; à direita: Melanie Mayron e Claudia Weill.
Por trás das câmeras – à esquerda: Thérèse Liotard, Agnès Varda e Valérie Mairesse; à direita: Melanie Mayron e Claudia Weill.

O principal ponto que os dois filmes suscitam – e isso já partindo de sua existência, sem sequer adentrar em suas narrativas –, é o fato de que todas as histórias merecem ser contadas.  Afinal, nem todas pensam da mesma maneira; as experiências de vida das mulheres são múltiplas e cada uma possui sua vivência tanto na sociedade quanto dentro (ou não) do movimento feminista.

Mulheres dóceis, amargas, amigas, inimigas: todas existem, muitas outras também. O importante é dar acesso e oportunidade para que mais de nós possam contar as próprias histórias e também ficções, ainda mais no cinema que é uma arte tão transformadora e educativa. 

Varda e Weill pautaram, com apenas dois filmes e em uma mesma época, abordagens bem diferentes entre si que influenciaram diversas outras cineastas. A inspiração perdura décadas depois e nos faz imaginar tudo que ainda podemos criar pela frente, tanto com o resgate dessa vertente feminina (e feminista) da história do cinema, como com a nova geração de mulheres espalhada em todas as etapas da produção cinematográfica.


Edição e revisão por Isabelle Simões.


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Graduada em Publicidade e Cinema pela UFMG, se interessa pelos mais diversos assuntos. Comediante por natureza e professora por acaso, se descobriu escritora por necessidade. Sonha em ser uma poliglota fluente, mas não consegue focar em estudar um só idioma por vez.
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