Metrópolis, de Thea von Harbou: o sci-fi mais influente de todos os tempos

Metrópolis, de Thea von Harbou: o sci-fi mais influente de todos os tempos

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O expressionismo alemão é um movimento cinematográfico da década de 1920 que aborda tramas misteriosas em espaços urbanos, com dramaticidade exagerada, maquiagem pesada e distorcida, cenários fantasiosos, entre outros recursos que deixaram tudo mais sombrio. Grandes clássicos desse movimento são o Gabinete do Doutor Caligari, Nosferatu e Metrópolis.

A ideia principal do movimento era traduzir os sentimentos dos personagens nos cenários e maquiagens. Por consequência, esses recursos eram exagerados, melancólicos e angustiantes, dependendo do contexto. Como é uma escola de cinema composta pela junção entre a pintura e o teatro, os cenários e as expressões faciais eram muito trabalhadas, pois as câmeras geralmente faziam poucos movimentos e as filmagens eram paradas ou de ângulos inusitados.

Além disso, o conceito de belo era rejeitado pelos expressionistas e trabalhava-se muito com jogos de luz e sombra. Já as narrativas tinham pouca preocupação com ordem cronológica e estavam mais interessadas na participação do espectador. Dessa forma, o propósito era fazer quem assiste aos filmes imaginar o que está além da tela, elaborar um final e pensar sobre os questionamentos e reflexões que os roteiros abordavam.

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Aliado ao jogo de luz e sombra está a dicotomia dos personagens. Assim, com características ambíguas, eles eram divididos em um eu que deseja rebelar-se e transformar sua realidade e um eu que é submisso e aceita a realidade como ela é. A situação da Alemanha no início do século XX contribuiu para a explicação dessa dicotomia, já que o medo da tirania e do caos estavam muito presentes no período de pós-guerra.

 Atores no filme "Gabinete do Doutor Caligari", um clássico do expressionismo alemão.
Atores no filme “Gabinete do Doutor Caligari”, um clássico do expressionismo alemão. (Foto: reprodução)

Em 1924, contudo, a leve estabilidade econômica e política da Alemanha fez com que o movimento da Nova Objetividade tirasse um pouco da força do expressionismo, já que nem tudo era unicamente dor e sofrimento agora. Nessa segunda metade da década de 1920, surge também a Revolução Conservadora, movimento que estava em oposição ao individualismo e ao materialismo. Abordando questões tecnológicas, muitos dizem que tal movimento foi uma das ideias base pro nazismo. Portanto, “Metrópolis” (1927) está inserido nessa nova fase do cinema alemão, já que faz críticas ao materialismo e aborda maquinário e tecnologia, mas não deixa de fazer parte do expressionismo alemão, sendo dirigido por um de seus maiores nomes, Fritz Lang.

Metrópolis, o filme

Roteirizado por sua esposa, a autora Thea von Harbou, “Metrópolis” é o filme de ficção científica mais influente do mundo. Abordando luta de classes, clonagem, robótica, materialismo e capitalismo, foi o primeiro filme de ficção científica distópica tido como patrimônio mundial da humanidade pela Unesco, em 2001. Além de ser inspiração para dezenas de filmes como “Blade Runner” e “Star Wars“, a criação de Harbou inspira também clipes de bandas e artistas como Queen, Madonna e Sepultura.

A cidade em que se passa o filme foi elaborada com base em Manhattan, com prédios enormes, centenas de carros, aviões e trânsito. As filmagens de algumas cenas foram feitas com maquetes, iluminadas de forma inovadora para parecer que tudo estava em movimento. Ou seja, 8 segundos de cena poderiam ser feitos em até 8 dias. Além disso, foram feitos 200 mil figurinos e a quantidade de figurantes foi cerca de 36 mil pessoas, muitas delas crianças que moravam na rua.

Bastidores das gravações do filme "Metrópolis".
Bastidores das gravações do filme “Metrópolis”. (Foto: reprodução)

Por conseguinte, a grandiosidade de Metrópolis custou à produtora 5 milhões e meio de marcos alemães. Esse valor foi aproximadamente o triplo do que havia sido combinado, quase levando a empresa a falência. Mesmo com toda a grandiosidade, o lançamento do filme foi um fracasso. O roteiro estava muito a frente de seu tempo, e com mais de três horas de duração os espectadores logo se entediavam. Por esse motivo, o longa foi reeditado e cortado algumas vezes, sem nenhuma participação de Lang ou Harbou, chegando a ser exibido com até uma hora e meia de duração.

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Anos após ter sido doada por um dos trabalhadores de produtora para o Museu del Cine, em Buenos Aires, uma das fitas originais de “Metrópolis” foi felizmente exibida por curiosidade. Através de análise das partituras da trilha sonora – que na época era tocada ao vivo junto ao filme – a fita foi reconhecida como original, tendo apenas 4 cenas faltantes. Assim, somente em 2008, o filme foi atualizado e a trilha sonora refeita, sendo possível apreciar tamanha obra de arte em sites como Youtube.

Bastidores da cena do apocalipse em "Metrópolis".
Bastidores da cena do apocalipse em “Metrópolis”. (Foto: reprodução)

A narrativa de “Metrópolis” ocorre em 2026, numa sociedade capitalista autoritária e dicotômica: a elite habita o nível superior, o que lembra o Paraíso cristão, e os trabalhadores habitam o nível inferior, completamente consumidos pelas máquinas e o sistema opressor. Além disso, há o nível intermediário, onde pode-se observar a grande cidade, carros e outros elementos urbanos.

Em uma espécie de Romeu e Julieta de classes, Freder (Gustav Fröhlich), o filho do Senhor de Metrópolis, se apaixona por Maria (Brigitte Helm), líder dos operários que os motivava a buscar o mediador entre os níveis e habitantes da cidade. Ao saber disso, o pai de Freder, Joh Fredersen (Alfred Abel), encomenda um robô capaz de imitar perfeitamente Maria para acabar com seus discursos motivacionais e impedir o romance dos dois jovens.

Maria é sequestrada para que ocorra tal clonagem e aqui está um dos estereótipos mais famosos dos filmes de ficção científica: o cientista maluco. Rotwang (Rudolf Klein-Rogge) é o inventor que se propõe a criar um robô humanoide que seja capaz de imitar com perfeição as características humanas de Maria.

A máquina e seu criador, Rotwang.
A máquina e seu criador, Rotwang. (Foto: reprodução)
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Para conseguirem gravar com precisão os movimentos da robô e torná-la o mais próximo possível de uma mulher adulta, o figurino usado por Brigitte era uma armadura feita de madeira, pintada de modo que parecesse ser de metal quando exibida. O corpo bípede e humanizado do robô influenciou outras criações do cinema como o androide C-3PO de “Star Wars”.

Ademais, com o sucesso da clonagem, a robô assume a posição de Maria mediante os trabalhadores. Em seguida, começa a incitá-los a fazer uma revolução armada, explicando-lhes que as máquinas os consomem vivos. O veredito dos revolucionários é então matar as máquinas. Dessa maneira, a trama aborda o tema da luta de classes com grandeza.

Momento em que Maria está sendo clonada no filme de Fritz Lang.
Momento em que Maria está sendo clonada. (Foto: reprodução)

A dicotomia revelada entre a Maria verdadeira e a Maria clonada é um dos elementos mais bem trabalhados no filme e no expressionismo alemão. Ao ver o discurso da robô, pregando o assassinato e violência e não mais a paz, Freder a acusa de não ser a verdadeira Maria. Tal acontecimento faz com que os trabalhadores, já com os nervos muito aflorados, partam para cima dele. A partir desse momento, a narrativa ganha um tom caótico, como se fosse possível perceber que a cidade, tida sempre como viva, estava entrando em colapso.

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Posteriormente, Maria se depara com o início de uma inundação, tida como apocalipse. Aliás, uma das cenas mais fortes do filme vêm a seguir: centenas de crianças correm o risco de morrerem afogadas se Maria não for capaz de levá-las para a superfície. Depois de minutos de tensão, com a ajuda de Freder, as crianças são salvas. Em seguida, dão espaço para mais um ponto alto do filme: a perseguição à Maria, tida agora como bruxa, já que incitou tanta desordem e trouxe a morte para a cidade.

O filme termina com a revelação do mediador que Maria tanto pregou para os trabalhadores em seus discursos de motivação e paz: o coração. A máxima “o mediador entre o cérebro e as mãos deve ser o coração” surge quando Freder media à união entre os trabalhadores e seu pai, representada por um aperto de mão.

A mediação entre classes sociais distintas feita pro Freder. Cena do filme "Metrópolis".
A mediação entre classes sociais distintas feita pro Freder. (Foto: reprodução)

O livro que inspirou o roteiro do filme

A estreia de Thea von Harbou no Brasil deu-se com o livro “Metrópolis”, lançado pela editora Aleph em 2019. O livro foi traduzido diretamente do alemão por Petê Rissatti e traz posfácio de Marina Person, análise de Franz Rottensteiner, texto de Anthony Burgess e o programa do filme para seu lançamento.

O livro reflete a realidade das mulheres da época de forma muito mais clara. A objetificação feminina é trazida à tona o tempo todo, não problematizada mas exposta. Mulheres eram vistas como objetos de posse, exclusivamente maternas e cuidadoras. Portanto, Maria é praticamente tida como uma santa, ou a própria Virgem Maria, quando conversa com os trabalhadores sobre a necessidade de encontrarem um mediador. Desta forma, ela tenta os convencer que o melhor caminho para a melhoria social não é a luta, mas sim o diálogo e a paciência. 

Edição de "Metrópolis", livro de Thea von Harbou, publicada pela editora Aleph.
Edição de “Metrópolis” publicada pela editora Aleph. (Foto: reprodução)

Além disso, as máquinas da cidade de Metrópolis são ainda mais antropomorfizadas no livro. Elas têm fome e a entrega e relação com os trabalhadores é quase erótica, existindo uma substituição de qualquer devoção humana pela devoção à máquina. Ademais, os homens são capazes de interpretar os desejos e gritos das máquinas, sempre sedentas por seus corpos e corações. A cidade é retratada como um ser vivo, com vontades próprias, capaz até de falar e ter um coração e cérebro. 

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O sonho de Freder com a mulher com as feições de Maria, que chama de Babilônia, e a morte que tocava uma flauta feita de osso humano é mais detalhado no livro. A narrativa explora referências bíblicas e aflora a representação da mulher como destruidora, pecadora, prostituta e culpada por espalhar dor e caos na cidade. Na Bíblia cristã, a mulher é a responsável pelo pecado original por ter cometido um ato de rebeldia e desobediência. Portanto, o fardo de pecadora é carregado por todas as mulheres que descendem de Eva. Em “Metrópolis”, portanto, a crença não é diferente, pois as mulheres são retratadas como destruidoras e malignas.     

Cena de "Metrópolis", filme de Fritz Lang.
Sonho de Freder protagonizado por Babilônia, mulher com feições de Maria.

O tipo de narração escolhido por Thea torna possível compreender questionamentos pessoais dos personagens, entrar em suas mentes e descobrir o que lhes aflige. A leitura prende a leitora com facilidade e desperta enorme curiosidade quando certos pontos ficam à mercê de descobertas pessoais. Um exemplo é quando Maria percebe a grande enchente que está acometendo o nível inferior, mas não sabe de onde vem a água. 

Clímax do filme, o apocalipse que está atingindo a cidade e deixa centenas de crianças por pouco submersas na água, é também mais dramatizado no livro, durando alguns capítulos que deixam a leitora tão sem ar quanto no longa, assim como a perseguição de Maria, tida agora como bruxa, não mais como santa. 

Os extras do livro são de extrema importância para uma experiência ainda mais completa de “Metrópolis”, permitindo o aprofundamento sobre a vida de Harbou, além de conter encartes e curiosidades sobre a produção do filme.

Thea von Harbou

Thea von Harbou
A autora Thea von Harbou. (Foto: reprodução)

Nascida em 27 de dezembro de 1888 e oriunda de uma família importante, Thea vendeu sua primeira história aos nove anos. Ao entregar-se para a profissão de escritora na década de 1910, embarcou na carreira de roteirista após lançar alguns romances de sucesso. Casou-se com Fritz Lang durante as filmagens de “A morte cansada” e permaneceram casados por 11 anos, produzindo uma dúzia de filmes juntos nesse período.

Após o sucesso de “Metrópolis”, a dupla, infelizmente, foi convidada por Goebbels a trabalhar com ele no ministério da propaganda. Lang opta por mudar-se para Paris e depois para os Estados Unidos. Porém, Thea, que já tinha ideias nacionalistas, filia-se ao partido nazista e continua escrevendo roteiros. Ela até dirige dois filmes durante o período que contribuiu para a Alemanha nazista.

Thea von Harbou e Fritz Lang.
Thea von Harbou e Fritz Lang. (Foto: reprodução)

Depois da guerra, Harbou foi presa e alegou ter aceitado o convite nazista para colaborar com os imigrantes indianos em suas fugas da Alemanha. Acabou sendo desnazificada e se sustentava trabalhando com legendagem de filmes. Thea veio a falecer em junho de 1954, após as complicações de uma queda na reexibição do filme “A morte cansada”, tragédia que encerra de forma significativa a vida da autora e roteirista.


Edição/revisão por Isabelle Simões e revisão por Mariana Teixeira.


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Psicóloga, mestranda e pesquisadora na área de gênero e representação feminina. Riot grrrl, amante de terror, sci-fi e quadrinhos, baterista e antifascista.
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