O Homem Invisível: uma alegoria sobre relacionamentos abusivos

O Homem Invisível: uma alegoria sobre relacionamentos abusivos

O Homem Invisível, novo longa de Leigh Whannell estrelado por Elisabeth Moss, entrega uma peça de suspense que sufoca muito mais pelo reconhecimento de uma sensação real do que pelo terror a que se propõe. A narrativa é uma alegoria dolorosa das violências sofridas por quem vive um relacionamento abusivo.

Aviso: o texto abaixo contém spoilers do filme

A premissa de O Homem Invisível

O Homem Invisível é, originalmente, uma novela de ficção científica do escritor H. G. Wells (“Guerra dos Mundos”, “A Ilha do Dr. Moreau”) lançada em 1897, que serviu de base para a história do longa de mesmo nome dirigido por Hames Whale e estreado em 1933 

No entanto, reboot assinado por Leigh Whannel, lançado em 2020, reescreve o cerne da história, atualizando não somente a narrativa e a construção científica para o mundo contemporâneo, como também redesenhando o ponto de vista principal de onde acompanhamos o filme: os predecessores eram focados no homem de seu título, agora acompanhamos umA personagem principal e sua dolorosa tentativa de sobreviver.  

Cecilia Kaas (Elisabeth Moss) nos mostra o terror psicológico que tem vivido – de forma resumida e sufocante – já na primeira cena do filme. Em uma sequência na qual não se respira duas vezes, acompanhamos a personagem acordar no meio da madrugada e escapar por pouco de uma casa altamente vigiada – e isso só após ter conseguido drogar o companheiro abusivo no intento. 

Elisabeth Moss na primeira cena de "O Homem Invisível"
Elisabeth Moss na primeira cena de O Homem Invisível. (Foto: reprodução)
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Duas semanas depois, vivendo em uma casa protegida e desconhecida pelo ex-companheiro, Cecilia ainda não consegue sair nem mesmo ao jardim para buscar a correspondência com resquícios da sensação de estar sendo vigiada e o medo de voltar a ser violentada. Somente a notícia do aparente suicídio do ex-marido, trazida pela irmã de Cecilia, Emily (Harriet Dyer), traz algum tipo de paz e sensação de normalidade para a vida dela. 

É com a morte do ex também que o filme começa a apresentar seus elementos de suspense: Cecilia e Emily, que também é sua advogada, precisam comparecer presencialmente para a leitura da herança – e, após isso, a personagem de Moss começa a vivenciar situações estranhas e inexplicáveis que a fazem acreditar que, de alguma maneira, o ex-companheiro, que era um cientista famoso, se tornou invisível a persegue. 

As alegorias construídas em O Homem Invisível

Ao adentrarmos no elemento que trará o suspense e algumas partículas de terror para o filme, aprofundamos também na alegoria do relacionamento abusivo na narrativa de sci-fi – muito além da referência já literal ao abuso psicológico e físico sofrido pela protagonista. 

O Homem Invisível (crítica)
Cena de O Homem Invisível. (Imagem: reprodução)

Sendo perseguida por algo invisível e “escondido”, aos poucos Cecilia é isolada de todas as pessoas de seu ciclo de apoio: tanto por ser desacreditada da história que conta, tanto porque seu abusador planta mentiras e forja situações para isolá-la. Ela é chamada de louca, mentalmente instável, criadora de fantasias por todos ao seu redor. Qualquer semelhança com a realidade dura e crua é mera coincidência. 

A personagem de Moss chega a ser internada em uma clínica psiquiátrica, acusada de um crime que não cometeu e fadada ao “diagnóstico” da loucura pela combinação do descrédito e das armações do ex-companheiro agora invisível. Ele a segue e nem lá o seu calvário tem uma pausa – é justamente ao ser internada que a falta de esperança em fugir ou conseguir seguir sua vida toma conta de Cecilia de forma arrebatadora. E onde descobre que perdera inclusive o direito ao próprio corpo. 

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O roteiro de Whannel ao construir a alegoria ficcional baseada na metáfora visual do abuso psicológico e físico é quase impecável neste ponto. O diretor também deu total liberdade para a opinião de Elisabeth Moss sobre essa construção – buscando a opinião de uma mulher sobre o ponto de vista da violência e da representação feminina em O Homem Invisível.

Elisabeth Moss
Cena de O Homem Invisível. (Imagem: reprodução)

A atuação de Moss, inclusive, é o ponto alto do filme. A forma como encarna a personagem e consegue trabalhar as cenas com o desespero, a força e a falta de fôlego mais do que cabíveis à personagem, tornam a experiência de acompanhar Cecilia uma mistura de angústia e pânico. Para quem acompanha June em The Handmaid’s Tale, é automático comparar as personagens e perceber que a essência de Moss e de suas personagens que fogem de violências está ali. 

Fator que reforça a potência da atriz em O Homem Invisível também é a fotografia e os movimentos de câmera. Ao focar a história em Cecilia, temos a maioria dos planos, aberto ou fechados, travados em Moss – incluindo belíssimos planos-sequência muito bem orquestrados na narrativa. Esse jogo de câmeras é também o que sustenta a narrativa de um personagem que não aparece: a maior parte das interações de Cecilia com o vilão é também uma interação com “o nada”, com o vazio, com um jogo de luz ou sombra. 

Um vilão que não se vê

Há um outro detalhe sutil, mas memorável na construção de O Homem Invisível. A preocupação em manter o foco na vítima, na personagem feminina e sua fuga – somada ao recurso estilístico da metáfora de um personagem invisível – fazem com que não se veja o rosto do vilão até a última cena. Ou pelo menos, que não se veja o rosto dele propriamente. 

O Homem Invisível (crítica)
Cena de O Homem Invisível. (Imagem: reprodução)

Durante todas as cenas, referências e flashbacks do filme, o rosto de Adrian Griffin (Oliver Jackson-Cohen) está recoberto por sombras, em perfil mal enquadrado. Escondido por algum objeto, o rosto sempre aparece fora do foco, fora do quadro. Já o rosto de Cecilia Kass é o que preenche as telas – dividido poucas vezes com os personagens secundários. 

É somente no último momento, em que Adrian é finalmente confrontado por Cecilia e a narrativa busca seu fim, que finalmente vemos o abusador em sua forma completa, iluminado e interagindo com outra pessoa, finalmente podendo atuar e se apresentar. Mas, ainda assim, o protagonismo é de Cecilia e de sua busca pela fuga, pela liberdade de existir e viver para além daquele homem. 

Elisabeth Moss e Oliver Jackson Cohen em parte da última cena de "O Homem Invisível".
Elisabeth Moss e Oliver Jackson Cohen em parte da última cena de O Homem Invisível. (Foto: reprodução)

A produção longa e duvidosa de O Homem Invisível

A produção de O Homem Invisível, na verdade, começou há mais de uma década, inicialmente com David S. Goyer (conhecido pelas trilogias Blade Batman: O Cavaleiro das Trevas) anunciado como roteirista em 2006.  

Sem avanços, já em 2016, o filme foi reformulado como parte de uma série de reboots dos “monstros clássicos” da Universal Studios chamada Dark Universe, ao lado de A Múmia A Noiva de Frankenstein, com Ed Solomon (Truque de Mestre 1 e 2) responsável pelo roteiro e Johnny Depp com o papel do personagem-título. 

Somente em 2019 o projeto chega às mãos de Leigh Whannel – finalmente descartado de fazer parte de qualquer universo clássico – antes anunciado pelo estúdio cinematográfico – e descartando o anúncio de Depp como parte do projeto.  

Leigh Whannel e Elisabeth Moss nas gravações de "O Homem Invisível"
Leigh Whannel e Elisabeth Moss nas gravações de O Homem Invisível. (Foto: Divulgação)
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Assistindo o que o filme se tornou nas telas em 2020, não deixa de existir o pensamento de o que será que teria sido de um projeto que trouxe bases sólidas e bem trabalhadas da superação de abusos físicos e psicológicos se a produção pensada em monstros, com um ator envolvido em uma briga judicial justamente por relacionamento abusivo, tivesse se mantido em mente. E mantido, também, um ator com “peso” no nome, que provavelmente exigiria protagonismo ao aparecer no longa – coisa que não acontece em O Homem Invisível.

É verdade que Elisabeth Moss também traz uma questão: a atriz é constantemente confrontada pelas visões de sua religião (a cientologia), embora tenha pontuado em entrevistas e na sua carreira que luta pela representação feminina, pela luta feminista e contra a violência misógina – por mais contraditório que as duas coisas pareçam postas lado a lado. Ela defende, inclusive, que seu trabalho em The Handmaid’s Tale casa diretamente com suas crenças e a torna completa pessoal e artisticamente.  

Mas, afinal, em que O Homem Invisível peca?

Leigh Whannel é conhecido pelos roteiros violentos e psicologicamente aterrorizantes de sequências como Jogos Mortais e SobrenaturalA proposta ao assinar roteiro e direção dreboot de O Homem Invisível era construir outra narrativa do cinema de terror no qual construiu seu nome. Portanto, as publicidades, as entrevistas, o trailer, tudo caminhava com a mesma proposta. 

Porém, na tela, o que presenciamos é muito mais uma narrativa de suspense com alguns elementos visuais explícitos e sanguinolentos que nos lembram, ao longe, ser da mesma mente por trás de Jogos Mortais – e talvez seja aqui justamente onde o filme perde parte de seu potencial. 

Elisabeth Moss em cena de "O Homem Invisível".
Elisabeth Moss em cena de O Homem Invisível. (Foto: reprodução)

É fácil dividir o longa em duas metades – tomando por divisor de águas a morte da irmã de Cecilia pelas mãos de Adrian e o encarceramento da personagem principal acusada do crime. Da primeira cena até a citada no início deste parágrafo, o filme se construía em uma narrativa mais lente e de violências pontuais intensas – características de um suspense psicológico pautado na agonia, na angústia, em ataques de pânico. E é isso que acreditamos que vamos consumir – magnificamente – por toda a primeira parte de O Homem Invisível. 

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Mas, de repente, tudo se torna muito rápido, apressado, com sangue jorrando pela tela em um contraste confuso e fora do lugar. A própria cena do assassinato pega quem assiste de surpresa de tão deslocada que parece.  

Do meio para o final, O Homem Invisível tenta trazer diversos elementos mal trabalhados e mal encaixados de um tipo de cinema de terror que não conversa com a primeira metade – e só consegue causar um grande estranhamento do público enquanto a atuação de Moss tenta segurar as pontas. 

A impressão que temos é que Whannel tentou mesclar a experimentação de uma nova narrativa de medo para sua carreira ao mesmo tempo que também tentava amarrar sua zona de conforto enquanto roteirista e diretor – e acabou por não conseguir muito bem amarrar as duas coisas. 

Elisabeth Moss

A liberdade é um caminho de gatilhos 

Porém, ainda assim, O Homem Invisível é relicário de gatilhos, medos e pesadelos – principalmente para as mulheres que o assistirem. É verdade que homens também sofrem em relacionamentos abusivos, mas o relacionamento em questão retratado no filme traz o elemento da misoginia costurado intrinsecamente na sua representação. 

Cecilia Kass é afogada pela presença, pelo poder e pela crença de que Adrian é melhor do que ela. A obra retrata que Cecilia existe apenas para ele e que ela deve ser grata por isso. Já o irmão de Adrian – outro homem – valida todo o discurso do abusador sem pensar duas vezes. 

De forma implícita, todo o filme coloca a pergunta: “como é possível que um gênio como Adrian seja um monstro?” É impossível de se acreditar. É mais fácil e mais crível descreditar a “mente delirante” da vítima, tentar desprovê-la de identidade, questionar se não está exagerando seus traumas, suas dores porque, afinal, é normal que mulheres sejam histéricas, medrosas, fantasiosas. 

crítica
Cena de O Homem Invisível. (Imagem: reprodução)
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Nessa construção, o desfecho final de O Homem Invisível se torna absolutamente necessário. Ao perceber os caminhos da narrativa, qualquer espectadora se preocupa rapidamente com que tipo de encerramento toda a agonia terá.  

Guacira Lopes Louro diz que o cinema também exerce pedagogias de identidade no nosso meio social. Em uma sociedade em que relacionamentos baseados em violência misógina são naturalizados, minimizados e acabam de forma trágica, o desfecho redentor e vingativo de Cecilia Kass é um alento de que é possível escapar e sobreviver. 

No que perde (e muito) em tentar alcançar o cinema de terror, O Homem Invisível ganha – por mérito da atuação impecável de Moss e de sua afinação com essa parte do roteiro – ao retratar o desespero, a desesperança e o aperto no peito de quem sofre nas mãos de um abusador – alegórica e literalmente. E também o alívio de conseguir sair viva. 


Edição/ revisão por Isabelle Simões.

Escrito por:

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Jornalista, fotógrafa, feminista e lésbica cearense. Ariana torta e viciada em qualquer série, filme ou livro que tenha mulheres amando mulheres, tem voltado sua atuação à defesa dos direitos humanos e à luta por visibilidade e representatividade lésbica. Não dispensa uma pizza ou uma balinha de gengibre das que vendem no ônibus. Nas horas vagas se atreve a escrever ficção científica.
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