Sisters With Transistors: as pioneiras da música eletrônica

Sisters With Transistors: as pioneiras da música eletrônica

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Quando a música feita por meio de máquinas, sintetizadores, moduladores e posteriormente computadores foi criada, a ideia era trazer à tona a possibilidade e a necessidade de superar os limites da música erudita, e a superação de limites sempre foi uma especialidade das mulheres. Retratando o caminho da música eletroacústica desde a década de 1920, o documentário Sisters With Transistors, de Lisa Rovner, dá ênfase nas mulheres pioneiras deste processo e traz nomes como Bebe Barron, Pauline Oliveros, Maryanne Amacher, Delia Derbyshire, Daphne Oram, Laurie Spiegel, Suzanne Ciani, Wendy Carlos, entre outras.

Com máquinas enormes e engenhosas, as pioneiras descobriram representações gráficas do som, estudaram o modo como ouvimos, como o som externo pode produzir sons internos e desenvolveram softwares para composição. A audição, o ouvido humano e a maneira como captamos e interpretamos os sons passam por uma importante transformação na música dessas mulheres, que buscaram constantemente entender como realmente ouvimos internamente.

Sisters with Transistors e a liberdade sonora da tecnologia

Maryanne na capa do documentário "Sisters With Transistors"
Maryanne na capa do documentário “Sisters With Transistors” | divulgação

A partir da tecnologia dos sintetizadores, era possível fazer tudo sozinha: a musicista compunha, interpretava, performava e tocava. A filosofia do Do It Yourself (“Faça Você Mesma”) esteve bastante ligada à música dessas pioneiras porque não havia outro jeito de fazer além de fazerem elas mesmas, de inventarem novas possibilidades e novos sons, afinal, era um mundo novo que estava sendo descoberto e explorado por elas.

As experimentações se intensificaram nas décadas de 1960 e 1970, já que foi um período de transgressão tão rico para a música e para a juventude de modo geral, mas antes disso as mulheres já estavam transgredindo. Mas não é porque elas tinham liberdade em criar suas composições que elas eram ouvidas.

A música eletrônica demorou muito para ser vista como música, já que havia um certo medo de que os músicos “reais” seriam substituídos pelas máquinas e atrelada a esta dificuldade as mulheres não eram vistas como compositoras, fato inclusive que leva Pauline Oliveros a escrever um texto para o The New York Times com o título “And Don’t Call Them ‘Lady’ Composers” (em português, “E Não Chame Elas de ‘Senhoras’ Compositoras”), questionando “que tipo de autoimagem as meninas podem ter, então, com metade de seus pares as desprezando porque foram desencorajadas da chamada atividade masculina e enroladas em cobertores rosa?”.

Trecho do documentário "Sisters with Transistors", de Lisa Rovner. Na imagem: a compositora Pauline Oliveros
Trecho do documentário “Sisters with Transistors”. Na foto: a compositora Pauline Oliveros

Descobertas auditivas das pioneiras

O documentário Sisters with Transistors traz diversas novidades criadas pelas mulheres retratadas. É interessante dizer que a produção conta com gravações feitas na época em que elas estavam criando esse novo mundo tecnológico, então é extremamente prazeroso sentir que estamos juntas nessas descobertas; é como se Daphne Oram estivesse te contando pessoalmente que descobriu como extrair ondas sonoras de representações gráficas e que Éliane Radigue descobriu algo que chamou de “proposição sonora”, em que podia entender o funcionamento de feeback sonoro e controlá-lo.

Daphne Oram | Foto: reprodução
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Dentre outros estudos e descobertas estão as de Pauline Oliveros e Maryanne Amacher. Oliveros era obcecada em entender o que os sons faziam e seus efeitos e processos internos, porém ela afirma não estar interessada em criar entretenimento ou alguma obra de arte, mas sim “algo que me ajude a crescer e mudar como pessoa e em relação aos outros”. A preocupação de Pauline com o modo como interpretamos os sons também era a de Maryanne, que estudava os sons da cidade de Boston através de microfones conectados por cabos telefônicos que foram instalados em oito pontos da cidade.

Maryanne Amacher | Foto: reprodução

O documentário também nos apresenta a trajetória de Laurie Spiegel, que fez uma das primeiras músicas de computador, “Appalachian Groove”, e compunha perfurando cartões e processando-os no computador da Bell Labs, onde trabalhava. Spiegel desenvolveu também um software para suas composições chamado Music Mouse (neste vídeo você pode ter uma ideia de como funciona o programa), que transformava o Macintosh em um instrumento utilizando a lógica da máquina como forma de expressão.

Laurie Spiegel | Foto: reprodução

Mulheres e trilhas sonoras 

Mesmo com o pioneirismo feminino e com tantas descobertas e experimentações, a primeira mulher envolvida na produção da trilha sonora de um filme foi Bebe Barron ao lado de Louis, no filme “Fobidden Planet” (1956). Na época, os meios formais não reconheciam música eletrônica como música, portanto a trilha foi chamada de “Tonalidades eletrônicas”.

Bebe Barron e Louis
Bebe e Louis Barron | Foto: reprodução

Posteriormente, em 1962, Delia Derbyshire deu vida à música-tema da série televisiva Doctor Who, escrita de forma básica por Ron Grainer e interpretada por ela com toda a maestria que ouvimos. O problema é que o nome da musicista só apareceu nos créditos pela faixa 50 anos depois, reforçando o quanto essas mulheres eram inviabilizadas na indústria musical.

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Delia Derbyshire | Foto: reprodução

A primeira trilha sonora feita totalmente por uma mulher para uma produção hollywoodiana foi criada por Suzanne Ciani em 1980, em um filme também dirigido e produzido por mulheres, “The Incredible Shrinking Woman” (1981), de Lily Tomlin. A próxima vez que isso aconteceria seria 14 anos depois. Muito desse intervalo de tempo também diz respeito as posições de poder ocupadas por homens dentro de produções cinematográficas e que priorizam outros homens.

“Como se exorciza a misoginia da música clássica? Com dois osciladores, um toca-discos e um delay de fita.”

– Pauline Oliveros

Mais do que um documentário, Sisters With Transistors é um manifesto inspirador e reflexivo. Inspirador porque conseguimos enxergar possibilidades onde antes poderíamos não ver. A obra nos mobiliza a pensar que é possível criar e performar música totalmente sozinha. E é reflexivo porque se não houvesse o documentário, possivelmente não veríamos tantas compositoras da eletroacústica juntas, nem saberíamos do legado delas.

A maioria dessas mulheres precisou criar novas formas de compor porque precisaram destruir barreiras que impediam com que elas fizessem música e fossem reconhecidas. Portanto, o documentário é essencial para nos identificarmos e talvez desejarmos ser como elas.

Além disso, ao nos depararmos com as inovações de cada uma, imaginamos então quantas outras invenções e descobertas poderíamos ter em todos os campos se os homens não tivessem excluído as mulheres desses espaços?

Sisters with Transistors
Cena de “Sisters with Transistors” | Imagem: Delirium Nerd

Foto em destaque (reprodução): Clara Rockmore, intérprete de teremim e uma das pioneiras da música eletrônica.

Edição e revisão por Isabelle Simões.


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Autora

Psicóloga, mestranda e pesquisadora na área de gênero e representação feminina. Riot grrrl, amante de terror, sci-fi e quadrinhos, baterista e antifascista.
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