The Handmaid’s Tale: mais críticas à violência contra a mulher na 2ª temporada

The Handmaid’s Tale: mais críticas à violência contra a mulher na 2ª temporada

Depois de uma primeira temporada surpreendente, perguntava-se como The Handmaid’s Tale seria continuada. A série já havia alcançado a parte final da jornada de June/Offred no livro homônimo de Margaret Atwood. Como exceção de um epílogo ambientado 200 anos depois da trajetória da protagonista, todo o conteúdo do livro fora adaptado. Então, como a série prosseguiria? 

[O TEXTO CONTÉM SPOILERS DA TEMPORADA] 

Com a estreia da segunda temporada, a pergunta logo foi respondida. June não conseguiria a fuga pretendida. Pelo contrário, não apenas voltaria a Gilead como enfrentaria mais da violência já apresentada ao público. Em razão disso, todos foram levados a crer que seria uma temporada mais violenta. E embora tenha começado assim, houve amenização ao longo dos episódios, que buscaram trabalhar a origem dos personagens e do próprio sistema. No entanto, era apenas uma breve pausa para a retomada nos episódios finais. Afinal, afora a discussão da necessidade ou não do uso da violência como técnica de entretenimento, não se pode ignorar que o universo de The Handmaid’s Tale é baseado nessa violência originada de nossa própria sociedade.

Através de episódios dolorosos e emocionantes, a segunda temporada The Handmaid’s Tale chegou ao fim, e a série foi renovada para uma terceira. Talvez não tenha agradado tanto pelo teor da surpresa como a temporada anterior. Talvez tenha levantado mais discussões acerca do debate entre crítica e uso da violência. Talvez tenha tocado ainda mais em feridas já abertas numa sociedade que ignora os atos de violência cotidianos e institucionalizados. Mas prendeu, apesar de tudo, e comoveu ao trazer essa perspectiva pessimista de uma realidade não tão distante.

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Uma chance de fuga

A primeira temporada encerrou-se com a incerteza do futuro de June (Elisabeth Moss). Levada por olhos, do mesmo modo que no livro, era incerto se estaria diante de uma oportunidade de fuga ou de uma punição. E no meio-termo dessa dúvida, a segunda temporada iniciou sua trajetória.

Com o auxílio de Nick (Max Minghella) e do movimento Mayday, June consegue escapar. No entanto, o caminho para a liberdade é mais árduo do que se espera. A rota de fuga é imprevisível. Nem ela nem Nick possuem conhecimento do passo seguinte. Ou se eles algum dia alcançarão a fronteira de Gilead. June passa meses escondida, enquanto sua gravidez prossegue. Cada passo em falso é um risco de ser capturada. Cada ajuda concedida é um risco de que mais pessoas sejam condenadas pela sua liberdade.

Não obstante, June é confrontada pela decisão de ter que deixar Hannah (Jordana Blake) em Gilead. Hannah, a filha primogênita que ela não vê desde a sua captura. De um lado, a escolha entre fugir do sistema e dar uma chance de vida à filha que espera. De outro, a filha que lhe foi retirada e obrigada a crescer em um sistema de opressão legalizada. E para decidir, June revisita a relação com Hannah no passado, bem como a relação com a sua própria mãe, Holly. Holly, que era feminista e lutava pelos direitos de outras mulheres, que tantas vezes fez escolhas que June somente foi entender quando mãe também.

Quando June finalmente toma a decisão, ela lhe é retirada. O sonho de liberdade fica cada vez mais distante. E a repressão pela desobediência é a consequência daquela que ousou desafiar Gilead. Conduzida de volta à casa de Fred (Joseph Fiennes) e Serena Joy (Yvonne Strahovski) Waterford, June/Offred precisa encontrar outra forma de sobreviver à violência.

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A punição arquitetada por Gilead

A segunda temporada de The Handmaid’s Tale aproveitou para explorar mais os personagens secundários. Mas também explorou os territórios além, como as Colônias e o Canadá. Nas Colônias, Emily (Alexis Bledel) e Janine (Madeline Brewer) vivem uma realidade ainda mais torturante que a de Gilead. Diariamente, sobrevivem a trabalhos forçados e convivem com outras mulheres que, como elas, transgrediram as regras do sistema. Nem todas eram aias. Algumas esposas e defensoras da república também foram enviadas para lá. E assim descobriram que a posição de privilégio de uma mulher não a exclui da opressão. Apenas a coloca em um lugar de pretenso conforto e ilusão.

As Colônias, diferentemente do que se prega, não são territórios que, aleatoriamente, foram assolados pela poluição e mudança do meio ambiente. Foi um lugar projetado especificamente para a punição das transgressoras. É como um inferno arquitetado para aquelas que não aceitam as imposições. Uma saída para o contingente que não representa perigo o suficiente para a execução ou que é necessário à manutenção do regime, como no caso das aias. Uma ameaça cujas proporções tornam-se maiores quando contadas por tias como Tia Lydia (Ann Dowd)

Contudo, após um atentado e a morte de diversas aias, Emily e Janine são reintegradas. De volta às suas funções, são alocadas em novas casas para repetição dos ritos de estupro. Diferentemente do que as pessoas de Gilead pensam, aquelas mulheres não aceitam pacificamente as relações sexuais a que são submetidas. Elas recusam, mas são ameaçadas. E, como June bem destaca, ausentam-se de seus próprios corpos para sobreviver.

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Quem consegue fugir

No Canadá, Luke (O-T Fagbenle) e Moira (Samira Wiley) tentam seguir com suas vidas. Moira foi estuprada, de aia tornou-se escrava sexual para os prazeres ocultos de comandantes em transgressão às normas que eles mesmos estabeleceram e defendem – é o que se pode chamar de cifra oculta de Gilead. No entanto, há mais na história dela. Moira, assumidamente homossexual, tinha uma esposa antes de Gilead. Descobre-se, nesta temporada, que sua esposa foi brutalmente assassinada.

Luke, por sua vez, perdeu sua esposa e sua filha. Sem notícias acerca da sobrevivência delas, não pode sequer vivenciar o luto. Mas quando o Comandante Fred, Serena e Nick fazem uma visita ao Canadá para estreitar as relações, ele recebe uma notícia importante. Não apenas recebe notícias de June como recebe uma chance de fazer algo por sua família e por todas aquelas que foram violentadas por Gilead. Com um conjunto de cartas em mãos, Luke denuncia os atos de opressão e abre as cortinas de uma república até então fechada. Isto extermina as chance de acordo entre os dois Estados e fortalece as críticas ao regime.

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As nuances das relações entre mulheres

A segunda temporada se esforça em aprofundar nas diferentes relações entre as mulheres, as principais vítimas de Gilead. Explora a dinâmica de relacionamento e psicologia por trás das diferentes classes de mulheres, mas também entre mulheres das mesmas classes. Os rótulos, como se sabe, são utilizados para enfraquecer o poder coletivo. Mães, putas, aias, esposas, econoesposas, tias, marthas, vestes vermelhas, vestes azuis, vestes cinza, vestes verdes. São todas ferramentas de desagregação para que indivíduos oprimidos sejam segregados pelas nuances de uma mesma violência.

Aos poucos, porém, as mulheres de Gilead percebem que precisam se unir. Primeiro as aias. Vítimas de violência sexual constante. Mulheres de identidades e histórias anuladas, pois aquela que não tem passado não tem motivo de luta. Mulheres sem nome, tornadas propriedades. Mas, então, elas começam a relembrar. Relembram os períodos de liberdade – ainda que parcial – e do significado de seus nomes. Compartilham histórias e identidades para se fortalecer. E para não deixar que ninguém esqueça quem elas foram e quem elas são.

Na primeira temporada, a união das aias já havia sido mostrada. Agora, porém, é possível vislumbrar também a união de esposas e marthas. Serena Joy e outras esposas unem-se para tentar ganhar poder através da possibilidade de leitura da Bíblia. Já as marthas, revelam sua união ao auxiliar June em uma tentativa de fuga. A resistência existe e demanda união.

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A rivalidade de Serena e Offred 

Certamente, a relação mais explorada e mais destacada entre mulheres distintas é a relação entre Serena e June/Offred. É uma relação conflituosa de mulheres colocadas como inimigas pela sociedade. Serena é a esposa, a mulher com um suposto poder, mas incapaz de dar filhos ao seu marido. E isto a consome, pois sua função designada é ser mãe. Offred é a aia, a mulher fértil colocada cujo ventre é colocado à disposição do Estado. No entanto, é também a mulher sexualizada por sua fertilidade. É a mulher estuprada por homens que, como o comandante, são os verdadeiros detentores do poder. É a mulher objetificada, que por sua sexualidade e fertilidade é invejada pela esposa, mesmo que seja o primeiro alvo de uma violência institucionalizada.

Serena sente como se a filha de Offred fosse sua – ou devesse ser. É um sentimento de posse por algo que ela não pode ter. E ela sente raiva daquela mulher que é intermediária entre sua situação e o preenchimento de sua função natural de mãe. A raiva, por ela nutrida, apenas aumenta diante do interesse sexual de Fred por Offred. E mesmo violentada também, Serena é partícipe de uma das cenas mais brutais de estupro da série.

Quando o comandante Fred é afastado por um atentado, Serena e Offred deixam a rivalidade parcialmente de lado em prol de uma dinâmica que beneficie a ambas. Não é uma anulação das diferenças, mas o princípio de uma criação de empatia. A relação é destruída com o retorno de um comandante ainda mais violento. Mas algo ainda permanece, algo que influenciará as decisões futuras de Serena Joy.

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A violência em tela

Desde sua estreia, The Handmaid’s Tale gera polêmica pelo uso da violência. Seria o excesso de violência, sobretudo sexual, necessário à crítica realizada pela série? A discussão é válida e importante, uma vez que a violência como mero entretenimento pode servir como estímulo à prática dela.

Não é de longe uma série fácil. E a segunda temporada apresenta cenas bastante incômodas, as quais podem gerar gatilhos. Cenas de estupro são constantes, mas uma em específico causa ainda mais repulsa. Offred, grávida, é estuprada por Fred por desafiá-lo, mas sob a justificativa de antecipação do parto. E depois é presenteada por esse homem, como se o ato pudesse ser compensado. E talvez o mais chocante da cena seja que Serena, outra mulher, agredida já por Fred, observa o ato pacificamente.

A cena de Serena é também marcante, pois representa o rompimento da ilusão. Serena sempre se posicionou como se Gilead reforçasse seu poder. Mas o mínimo desvio dos interesses já é motivo suficiente para sua punição. Quando novas possibilidades são apresentadas a Serena, e ela diverge de Fred, é punida com a agressão física. Posteriormente, quando novamente transgride as regras ao defender o direito de leitura para as mulheres, é mutilada. Em Gilead, nenhuma mulher está a salvo.

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A resistência

Mesmo diante da violência, a resistência persiste. E existem diversas formas de resistir. É possível resistir como Emily, que se envolveu com outra mulher quando era expressamente proibido e que manifestou toda a raiva contida nos episódios finais da temporada. É possível resistir como a jovem Eden (Sydney Sweeney), que foi introduzida na série como a esposa de Nick, uma jovem de 15 anos que foi ensinada que o casamento obrigatório a levaria ao amor, mas que descobriu esse sentimento com outro homem e morreu em defesa de um amor muito diferente do pregado por Gilead. E como June. E como tantas mulheres resistem.

June foi separada da família. Tornada aia, estuprada. Amou, engravidou. Fugiu, retornou. Foi violentada e agredida de inúmeras formas. Reencontrou a filha num encontro emocionante. Foi separada da filha. Teve outra filha em um parto emocionante, uma cena de uma mãe e de uma filha que resistiram a todas a dificuldades e que lutaram para viver. Foi separada dela também. Reuniu-se à filha. E então pode fugir novamente.

A temporada termina com a colaboração entre diversas mulheres. Foram elas que possibilitaram a fuga de June. Elas planejaram e arriscaram suas vidas para que June e sua filha pudessem ter um futuro melhor. Quando June encontrou com Serena, por um minuto pode-se pensar que não daria certo, mas Serena compreendeu que, em Gilead, sua amada Nichole jamais poderia ser livre. E abdicou de seu sonho de ser mãe pelo futuro dela. Então June seguiu em frente. Mas ela retornou. Deixou Holly, a filha com o mesmo nome de sua mãe, mas também a Nichole de Serena, com Emily, que fugiu com a ajuda de um comandante. E retornou para Gilead para que sua outra filha, Hannah, também pudesse ter um futuro.

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Futuro incerto

The Handmaid’s Tale é mais do que apenas violência de entretenimento. Os gatilhos não são poucos. As críticas e o questionamento dos propósitos sempre serão válidos. Mas a série é importante, porquanto é uma metáfora do que se é vivido hoje. Mulheres são condenadas a vidas de exploração agora, aqui, do lado, na frente. Não se pode ignorar o que já é realidade. Mas pode-se tentar. É possível unir forças, resistir e lutar do mesmo modo que as personagens da série estão fazendo.

É difícil prever o rumo de The Handmaid’s Tale. Ainda que os roteiristas tenham afirmado se ater ao que é descrito no epílogo do livro, muito foi ultrapassado. Nunca se soube da filha esperada por June, ou se ela, de fato, conseguiu sair de Gilead em algum momento. O que se pode presumir, por essa segunda temporada, é que Gilead está prestes a enfrentar a força dos que são oprimidos. Os episódios finais trazem a promessa de que essa república baseada na violência, sobretudo a sexual, seja incendiada. Promete mais explosões, mais reviravoltas. Promete que a resistência revide com toda a força que a aqueles que possuem alguma esperança desejam. 

Handmaids Tale


Handmaids TaleO Conto de Aia

Margaret Atwood

Editora Rocco

Tradução: Ana Deiró

368 páginas

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Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
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