The Handmaid’s Tale: as reflexões sobre a necessidade do feminismo

The Handmaid’s Tale: as reflexões sobre a necessidade do feminismo

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A série The Handmaid’s Tale é um exemplo de narrativa transmídia, advinda da obra O Conto da Aia, de autoria da escritora canadense Margaret Atwood, publicado em 1985; a história distópica sobre a opressão das mulheres numa sociedade a militar, patriarcal e teocrática, fora expandida para a ficção seriada e exibida por meio do canal streaming Hulu.

Contém spoilers da 1ª temporada!

A narrativa considerada uma ficção científica e futurista é ambientada em Gilead, um Estado totalitário, que outrora fora os Estados Unidos da América (EUA). As instâncias democráticas norte-americanas sucumbiram mediante um golpe de Estado perpetrado por um grupo de homens e mulheres, oriundo de uma classe social abastarda, branca e conservadora, intitulado Filhos de Jacob.

No enredo, o mundo vivencia uma onda de infertilidade decorrente dos efeitos da poluição e aquecimento global, o que desencadeia uma redução expressiva do número de partos e do percentual de crianças que conseguem sobreviver após o nascimento, vez que a maioria passa a morrer precocemente. Assim, surge um cenário de exaltação à maternidade como uma dádiva divina. Por conseguinte, os Filhos de Jacob, fundamentalistas religiosos, começam a defender, sem aceitar argumentos contrários, que a crescente infertilidade alastrada pelo mundo constitui uma manifestação da ira de Deus, em face das ações pecaminosas da sociedade de então.

Após usurparem o poder político por meio de uma sequência de atentados, ardilosa e irresponsavelmente imputados a grupos fundamentalistas islâmicos, os Filhos de Jacob assumem o Governo, implantando uma enxurrada de medidas antidemocráticas, misóginas, homofóbicas e neofascistas, onde os direitos humanos, sobretudo, das minorias sociais e políticas são sentenciados de morte.

The Handmaid’s Tale

A Constituição do país é suspensa, passando a população a ser regida com fulcro no Antigo Testamento da Bíblia e a República de Gilead apodera-se de 48 dos 50 estados americanos, ficando de fora apenas o Alasca e o Havaí. Nesse contexto, as mulheres são as principais prejudicadas, tendo sua emancipação política e civil suprimida. Gradualmente, elas são impedidas de exercer qualquer atividade empregatícia. Já as empresas são coagidas, segundo os ditames do novo governo, a demitirem suas funcionárias ou não mais contratarem mulheres para o labor. Em seguida, as contas bancárias tituladas por mulheres são bloqueadas e, por fim, elas são reduzidas ao papel de propriedade de seus maridos, sendo-lhes negada a cidadania.

A biologia usada como argumento para o controle sobre o corpo feminino

Os dez episódios da primeira temporada da narrativa seriada tratam em primeiro plano da história de June, protagonizada pela atriz Elizabeth Moss, que após o golpe de Estado, é coagida a se tornar uma aia, passando a ser chamada de Offred que significa “of Fred”, isto é, propriedade de Fred, o seu comandante. Aia é o termo designado para as mulheres férteis, que de modo coercitivo, são retiradas pelo Estado totalitário de seus lares e vidas habituais a fim de se tornarem objetos do Estado.

Após a captura, as aias são confinadas em alojamentos (centros de treinamentos) para serem “reeducadas” e treinadas por mulheres, intituladas “tias”, no intuito de servirem como reprodutoras aos seus comandantes (os Filhos de Jacob), homens poderosos e ligados a grupos políticos de Gilead. Assim, sob uma forma legítima, em consonância com as leis da nova república, ou seja, o Antigo Testamento, as aias são periodicamente estupradas, durante o período fértil. Contudo, os estupros são travestidos de cerimônias religiosas em que os comandantes e suas esposas leem versículos da Bíblia como um ritual prévio à violência sexual a que são subordinadas as aias.

The Handmaid’s Tale

A série, adaptação do romance distópico O conto da Aia, deixa evidente a reflexão sobre o quão a função biológica da mulher pode ser usada como pretexto para o exercício do controle social sobre a autonomia, direitos reprodutivos e a sexualidade das mulheres, que passam a ter a maternidade como pressuposto norteador de seu papel na sociedade.

Assim, em Gilead, as mulheres férteis procriam os filhos dos homens privilegiados e detentores do poder, e as inférteis, não casadas, desempenham as funções de educadoras de outras mulheres dentro do sistema (tias), operando-lhes uma verdadeira “lavagem cerebral” ou trabalham realizando os afazeres domésticos, nos lares dos comandantes (Marthas) ou, por fim, servem, às escondidas, aos prazeres lascivos masculinos em lugares restritos (Jezebel) onde somente os comandantes e homens elitizados têm acesso.

O protagonismo feminino coletivo e a sororidade entre as aias

Não é aleatoriamente que a cena do último episódio da primeira temporada de The Handmaid’s Tale correspondente ao maior ato de resistência das aias que desobedecem às ordens do sistema opressor e patriarcal, é embalada pela música de fundo da cantora, que fora ativista dos direitos civis dos negros nos EUA, Nina Simone, intitulada “Feeling Good”.

Na ocasião, as aias são recrutadas para o habitual ritual de “salvamento”. Contudo, elas se surpreendem ao deparar-se com a figura de Janine/ Ofdaniel, que deverá ser condenada à pena de apedrejamento sob a acusação de atentar contra a integridade física de uma criança e colocá-la em perigo. Após terem se munido de pedras, atendendo aos imperativos de Tia Lydia, mesmo estando suscetíveis a sanções por desacato à autoridade da Tia e do sistema, as aias rebelam-se, recusando-se a matar Janine. Ato considerado como a mais importante manifestação de empoderamento feminino coletivo e sororidade entre mulheres, verificada na série.

De modo simbólico, as aias em solidariedade à Janine, despertam a consciência de que as ações tomadas individualmente podem resultar em feitos deletérios a uma dada coletividade. Quando as mulheres passam a se perceber enquanto uma unidade, rompe-se um dos preceitos do patriarcado que cristalizam e mantêm as bases da relação de poder hierárquica de homens sobre as mulheres, qual seja: o pensamento arraigado e naturalizado de que as mulheres são rivais e inimigas umas das outras. Uma invenção da lógica patriarcal para aprisionar as mulheres na condição de oprimidas. O que pode ser verificado na narrativa seriada, logo no seu primeiro episódio, quando June/Offred profere que “não há amigas aqui. A verdade é que vigiamos umas as outras”, referindo-se à desconfiança nutrida por Ofglen, a priori. Esta, por sua vez, confirma “eles fazem isso muito bem. Fazem-nos desconfiar umas das outras”.

Ainda no último episódio, June é a primeira a deixar cair a pedra que deveria ser lançada contra Janine, e quando julgava está sozinha em seu ato de resistência, June presencia um exército de mulheres taciturnas que compartilham de sua iniciativa e também se eximem de apedrejar Janine. Com um arco emocional forte, as aias retornam do salvamento, marchando juntas, em comunhão. O que sugere a reflexão de que a desconstrução de um regime opressor como o patriarcado só pode ser trilhada por meio do florescer do sentimento de empatia entre mulheres e da auto-organização como enfrentamento ao sistema.

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The Handmaid’s Tale

Com base no pensamento de BEAUVOIR (2000), não há salvação individual, assim a emancipação feminina não se dá isoladamente, em face da impossibilidade de se tornar livre se ao redor as outras não o são. Sendo assim, a narrativa seriada lança luz sobre o empoderamento das mulheres que só pode existir coletivamente, já que ninguém se liberta sozinho/a e autonomia perpassa pelo autoconhecimento de que a mulher pode escolher seu próprio destino não sendo condicionado ao reducionismo biológico.

A série também nos instiga apensar, que apesar das muitas conquistas de direitos, obtidas através de uma longa história de luta, sob a bandeira do feminismo ou feminismos, nenhum direito é perene. Principalmente, quando se tratam de direitos humanos e liberdades das minorias historicamente oprimidas, eles podem retroceder a qualquer momento, ainda mais em tempos de intolerância, pensamentos rasos e ódio.


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Autora

Jornalista, pós-graduada em Comunicação, Semiótica e Linguagens Visuais, estudante de Direito, militante femimista, autora do livro A Árvore dos Frutos Proibidos, desenhista, cinéfila e eterna aprendiz na busca do aprender a ser.
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