Brasileiras que fizeram história na música: Elza Soares

Brasileiras que fizeram história na música: Elza Soares

Elza Gomes da Conceição Soares, conhecida apenas como Elza Soares, é uma cantora carioca, nascida e criada na favela da Moça Bonita, em Padre Miguel. Consagrada nos mais diversos gêneros musicais, como Samba e Música Popular Brasileira (MPB), em seus 80 anos de vida, 65 deles dedicados a carreira artística, a sambista possui uma história de lutas (passou fome, três de seus filhos morreram, sofreu violência doméstica) e realizações (foi eleita em 1999, pela rádio BBC Londres, a cantora brasileira do milênio). Por esses e outros motivos que iremos apresentá-la ao longo dessa matéria. Elza é a nossa segunda homenageada da série “Brasileiras que fizeram história na música”, que busca resgatar cantoras que são/foram importantes para os gêneros musicais nacional.

Vinda de uma família humilde, filha do operário Avelino Gomes Soares e da lavadeira Rosária da Conceição Soares, as responsabilidades foram-lhe atribuída desde a infância. Enquanto ainda era uma criança, a cantora já trabalhava e aos 13 anos casou-se. Com 14 anos foi mãe pela primeira vez e viu-se na obrigação de sustentar um filho. Foi neste momento que Elza deu os primeiros passos em sua carreira musical.

Ao participar de um programa na Rádio Tupi ganhou a premiação em dinheiro e utilizou para pagar os remédios de seu primogêntio, que na época estava doente e posteriormente faleceu.  Aos 15, uma segunda tragédia abala a vida da artista, a morte do segundo filho, por fome. Passado alguns anos, aos 21 era viúva com 5 crianças para criar e sustentar sozinha, época em que trabalhou como empregada doméstica para suprir suas necessidades. Entre os episódios difíceis na vida da compositora, está o sequestro de sua filha Dilma. Ela deixava a menina aos cuidados de um casal para trabalhar, até que um dia eles a sequestraram. Elza só reencontrou Dilma anos depois, quando já era adulta.

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Aos 27 e já atuante na música, a compositora conheceu o jogador Garrincha, após quatro anos de namoro casou-se, e com ele viveu por mais 16. Teve um único filho com o jogador, batizado com o mesmo nome do pai, Manoel Francisco dos Santos Filho, que durante um acidente de carro morreu aos 9 anos. No começo do relacionamento Elza sofreu muitas retaliações e preconceitos, pois Garrincha era divorciado e alguns a apontaram como pivô da separação. As hostilidades se intensificaram após a cantora regravar a música “Eu sou a outra”, na qual tanto a imprensa quanto a população fizeram duras críticas à artista, pois consideraram a letra uma afronta a ex-mulher de Garrincha. O casamento chegou ao fim após brigas violentas entre o casal, motivadas pelo alcoolismo do jogador e o ciúme exagerado que mantinha pela esposa.

Elza Soares e Mané Garrincha
Fonte: Reprodução/acervo O Globo

Carreira Musical

Como já mencionado acima, a artista começou sua carreira nos anos 50, no programa “Calouros em desfile”, na rádio Tupi, comandado por Ary Barroso. No final da década, Elza já ganhava o cenário internacional com uma turnê de um ano pela Argentina.

Nos anos 60, a cantora lançou 13 discos. A música “Se acaso você chegasse”, parte de seu primeiro álbum, fez com que Elza se tornasse popular. O LP “A Bossa Negra” continha o sucesso “Boato”, considerado como um dos maiores sucessos da artista. A década ainda consagrou canções como “Cadeira vazia”, “Só danço samba” e “Mulata Assanhada”.

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Nos anos 70, Elza prossegue lançando discos a todo o vapor. O primeiro disco é “Sambas & mais sambas”, no qual a cantora gravou a música de Jorge Ben “Mas que nada”, que acumula mais de 366 mil visualizações no Youtube. O álbum “Elza pede passagem” também traz grandes sucessos, “Maria vai com as outras” é um exemplo. A artista continuou a lançar discos e no total foram 9 só na década. Durante esse período Elza fez uma turnê pelos Estados Unidos e Europa.

Nas décadas seguintes (80 e 90), a produção de discos que anteriormente era a todo vapor, apresentou uma queda significativa. O período de recessão pode ser explicado por problemas de saúde de Elza e pelo desleixo da gravadora. Em 1984, a sambista faz uma participação com Caetano Veloso, no álbum “Velô” e lança a canção “Língua”. Em 1999, a artista recebe o título de “Cantora do Milênio”, concedido pela Rádio BBC de Londres. Para os anos 2000, grandes conquistas estavam por vir.

Logo no início do milênio, ela estreou uma série de shows de vanguarda, dirigidos por José Miguel Winiski. Em 2002, o álbum “Do Cóccix até o Pescoço” rendeu a cantora uma indicação ao Grammy. O disco, além de retornar Elza Soares ao samba, possui vários aspectos interessantes, o principal deles é a a mistura de estilos musicais e das variadas facetas do samba.

“Hoje é dia de festa” e “Haiti” são regravações que a artista fez. A primeira é composição de Jorge Ben Jor, e a segunda de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Ambas as canções trazem melodias diferentes das originais, sendo que na de Ben Jor são observadas traços do soul, e a Veloso e Gil ressurge com batidas justapostas, característica marcante do rap.

Em 2007, Elza interpretou o Hino Nacional Brasileiro, na abertura dos Jogos Pan-americanos e lançou o disco “Beba-me”, cujo repertório é composto por canções cantadas pela artista desde os anos 60. “Beija-me” e “O neguinho e a senhorinha” são alguns dos exemplos. A vida da cantora foi tema do longa-metragem “My name is Now, Elza Soares”, produzido pela jornalista Elizabete Martins Campos. O filme foi indicado para o “Prêmio Netflix 2016” e foi destaque no “Rio Internacional Film Festival”, indicado para as categorias: melhor filme, melhor direção, melhor roteiro e melhor fotografia.

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“A mulher do fim do mundo”, lançado em 2015, é um dos maiores sucessos da carreira de Elza Soares. O álbum é bem aclamado pela crítica, foi eleito como um dos 50 melhores discos de 2016, pela site musical estadunidense “Pitchfork”, e é composto apenas por músicas inéditas. O clipes de “Mulher do fim do mundo” possui mais de 2 milhões de visualizações no Youtube. E o que explica tamanho sucesso? A mensagem de liberdade, de emancipação e de luta das canções.

Letras com discursos de combate a preconceitos

Além de possuir uma carreira com inúmeras realizações, Elza Soares aparece em nossa série porque interpreta canções que trazem à tona temáticas que foram, por muito tempo, marginalizadas pela sociedade, como o racismo e a violência contra a comunidade LGBT+.

“O neguinho gostou da filha da Madame. Que nós tratamos de sinhá. Senhorita também gostou do Neguinho. Mas o Neguinho não tem dinheiro pra gastar. A madame tem preconceito de cor. Não pôde evitar esse amor. Senhorita foi morar lá na Colina. Com o Neguinho que é compositor.” O Neguinho e a Senhorita, Noel Rosa e Abelardo Silva.

“O neguinho e a senhorita” é uma regravação feita por Elza Soares, na década de 60. A canção composta por Noel Rosa e Abelardo Silva, nos remete a histórias do período escravocrata, pois o pronome de tratamento “sinhá” era usado pelos escravos quando iam se dirigir a suas patroas. A narrativa que se desenrola durante a música é a do amor proibido entre um homem negro e pobre, e uma mulher branca e rica. Para dificultar mais ainda o romance, a sogra do rapaz era racista e desaprovava o namoro. Apesar dos obstáculos, o casal consegue ficar junto e a jovem sai de casa para viver com o moço.

Para entendermos a importância da canção, precisamos pensar em alguns pontos. Primeiro é o contexto em que a música foi gravada pela cantora, bem no início da Ditadura Militar, período marcado por uma perseguição a militantes negros, onde as autoridades temiam que a luta pela igualdade racial crescesse no país, influenciada por movimentos como o dos Panteras Negras.

Um segundo aspecto ainda ligado ao contexto da época, é a subversão dos padrões que a canção retrata: um homem negro e pobre se relacionando com uma menina branca e rica. Se hoje é difícil vermos relacionamentos entre pessoas de classes sociais diferentes, imagina nos anos 60?

“Benedito que não foi encontrado. Deu perdido pra tudo que é lado. Esse nego que quebra o quebranto. Filho certo de tudo que é santo… Ele que surge naquela esquina. É bem mais que uma menina. Benedita é sua alcunha. E da muda não tem testemunha.” Benedita – Celso Sim, Joana Barossi e Fernanda Diamant.

“Benedita” é uma das interpretações de Elza Soares para o álbum “A mulher do fim do mundo”, lançado em 2015. A canção é bem enigmática e não deixa explícito, no primeiro momento. Sua real intenção é contar a história de uma transexual. A música mostra as dificuldades que é se viver em um país que, em 2016, foi apontado como o que possui a maior taxa de assassinato de transexuais do mundo, de acordo com o relatório da ONG “Transgender Europe”.

A canção passa por grandes momentos: primeiramente, Benedito é mostrado como valente, um sobrevivente que parece estar foragido da polícia. “Benedito não foi encontrado, deu perdido pra tudo que é lado”. Nos versos seguintes, podemos compreender que ele é uma vítima dos poderes e desmandos policiais. “Benedito é uma fera ferida, traz na carne uma bala perdida”.

No segundo momento surge a Benedita, e logo descobrimos que seu trabalho é na prostituição. “Ela que surge na esquina, é bem mais que uma menina, Benedita é sua alcunha, e da muda não tem testemunha”. Na terceira abordagem da música, Benedita é surpreendida pela polícia, “na surdina preparam o ataque”, pois estava em seu local de trabalho, conhecido por coexistir sexo e drogas. Por fim, mesmo sendo coagida e agredida, ela dá a volta por cima “vem armada, não rendida”.

Elza Soares é uma das “brasileiras que fizeram história na música”. Por sua história de vida, excentricidade e maestria, através de sua forma de cantar e por defender bandeiras de lutas históricas – como o combate ao racismo e a lgbtfobia – a cantora se tornou um dos maiores ícones do samba e da música brasileira, o que nos mostra a força da “mulher do fim do mundo”.

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Estudante de jornalismo, feminista e mineira. Entrou pro Jornalismo para conhecer o mundo e se descobriu pesquisadora estudando o feminejo. É fã de séries, principalmente as de super heroínas, gosta de Oasis e ama documentários.
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