The Handmaid’s Tale: a distopia feminista que todos deveriam assistir

The Handmaid’s Tale: a distopia feminista que todos deveriam assistir

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Quando a adaptação da obra O Conto da Aia, de Margaret Atwood, foi anunciada, especulou-se de que forma esse conteúdo base tão rico seria conduzido. Já nos primeiros episódios, a série produzida pela Hulu demonstrava abordar com seriedade e profundidade as discussões levantadas na obra original. E os episódios finais não somente reforçaram a importância de tais temáticas, como mostraram que muito mais ainda pode ser explorado em uma adaptação de qualidade.

The Handmaid’s Tale vai além de todas as expectativas. Constrói um cenário opressivo e polêmico, ultrapassa o livro e conquista os espectadores. Então confiram os motivos para assistir a essa série, que chegou ao final de sua primeira temporada agora em junho e está confirmada para uma segunda, prevista para 2018.

1. Uma protagonista de destaque

A série The Handmaid’s Tale gira em torno de Offred/June (Elisabeth Moss), uma mulher transformada em aia após um golpe que instaura um regime teocrático. June era seu nome na vida em que ela podia ter emprego, lutar por direitos, casar com quem desejasse e ter filhos conforme a sua vontade. Offred tornou-se seu nome na vida em que ela era apenas uma propriedade de procriação do comandante Fred (de onde deriva Offred, “of Fred”) Waterford (interpretado por Joseph Fiennes).

June não era a mais ativista das mulheres, fora amante de Luke antes de se casar com ele, lia revistas de moda, usava maquiagem, era mãe, e talvez por ser tão ordinária – no sentido de ser comum – June seja uma boa protagonista. June mostra que todas as mulheres podem e devem lutar por uma vida melhor, pois mesmo aquelas que não desejam romper completamente com os padrões são afetadas por eles.

Quando toda a liberdade é roubada, não outra saída senão se envolver na luta. E então ela luta, ela subverte a realidade. Cada pequeno passo é um passo no rompimento. Parte dela continua a ser aquela mulher que não imaginava o cerceamento de seus direitos, mas outra parte é aquela mulher feroz que deseja voltar a viver conforme sua própria vontade. E ainda mais que no livro, ela demonstra coragem para lutar conta a opressão.

The Handmaids Tale 1ª Temporada

2. As mulheres e a construção de seu papel

The Handmaid’s Tale coloca em oposição o papel biológico e o cultural da mulher, abordando como a biologia feminina é utilizada como justificativa para o controle sobre o sexo feminino. Em um mundo marcado pela poluição, a infertilidade se alastra e a procriação se torna cada vez mais difícil. As mulheres aptas a gerar são então aprisionadas e disponibilizadas a famílias politicamente relevantes, sob a alegação de uma obrigação divina. A série confronta, assim, a ideia de que a função biológica da mulher é reproduzir e a construção social de seu papel, demonstrando que a perspectiva biológica é, na verdade, utilizada como argumento para uma perspectiva de controle social.

O papel da mulher, então, é construído em torno da ideia de maternidade. As mulheres férteis procriam, as mulheres inférteis, mas bem casadas, criam, e as inférteis, não casadas, servem (na educação de outras mulheres dentro do sistema, nos lares de abastados comandantes ou em ocultos lugares de prazer masculinos). Em todos os casos a sexualidade feminina é atrelada a concepções de cunho machista, sempre vista como objeto de controle dos homens.

The Handmaids Tale 1ª Temporada

3. Mulheres sob diferentes perspectivas

Na adaptação, outras personagens femininas ganham ainda mais destaque do que nos livros. De um lado, há a perspectiva de June, uma aia cuja missão é procriar. E a perspectiva de mais aias é explorada, como a de Ofglen/Emily (Alexis Bledel) e Janine (Madeline Brewer). Todavia, também se analisa a perspectiva de Moira (Samira Wiley) e, bastante importante, de Serena Joy (Yvonne Strahovski), esposa do comandante Waterford.

A série revela ainda mais de Serena Joy que o livro, e é de importância para observar que até mesmo as mulheres que apoiam um sistema opressor são vítimas dele. Serena Joy era uma porta voz do movimento que instaurou o golpe. Escrevia livros e inspirava pessoas. Quando o golpe foi consumado, foi obrigada a se calar, ainda que tenha aceitado esta condição.

The Handmaids Tale 1ª Temporada

4. Uma obra sobre mulheres, para mulheres e feita por mulheres

O enredo principal de The Handmaid’s Tale é a opressão contra as mulheres em mundo distópico em que as condutas contemporâneas adquirem novos contornos. E ninguém melhor para falar da opressão do que o próprio oprimido. Margaret Atwood é reconhecida por se alinhar às ideias feministas, ainda que critique também o próprio movimento quando em desacordo com algo que considere hipócrita. E suas obras refletem sua crítica à sociedade patriarcal.  Contudo, também no projeto de adaptação há um número considerável de mulheres participando, como podemos ver no post da Samantha Brasil. Dos 10 episódios da série, 8 foram dirigidos por mulheres.

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Ainda, maior parte das personagens são femininas e possuem grande destaque. A produção deu maior destaque às personagens secundárias que o livro, o que enriqueceu bastante a obra. E sororidade não falta em uma história em que as mulheres precisam se unir contra um sistema. O último episódio é um forte exemplo do sentimento de união feminina em prol de uma causa maior.

The Handmaids Tale 1ª Temporada

5. Diversidade das personagens

The Handmaid’s Tale não somente dá destaque às mulheres como preza a diversidade. Ao menos duas personagens recorrentes são explicitamente homossexuais, Emily e Moira, e, ainda que a temática não seja tão aprofundada, não passa ignorada. A caracterização das duas personagens como homossexuais, pelo contrário, é explorada quando o passado das personagens é abordado, sem cair nos comuns clichês da construção de personagens LGBT. Não obstante, há relevantes personagens negros na história, como a melhor amiga de June, Moira, e o marido dela, Luke (O-T Fagbenle).

The Handmaid's Tale

6. Questionamentos sociais

O ponto principal é certamente a opressão contra as mulheres. Todavia, mais assuntos são abordados ao longo da série. No plano de fundo do cenário distópico há a crise ambiental que provoca a infertilidade humana. Também há a discussão da influência da religião no Estado. Abordam-se, ainda, as relações entre diferentes nações, a crise econômica e social, a verdadeira preocupação social do poder e a monetarização da vida humana. A série é , portanto, bastante abrangente.

The Handmaids Tale 1ª Temporada

7. Um mundo além do livro

Aquilo em que a série mais ganha em relação ao livro é na sua abordagem mais esférica. O livro consiste em uma narrativa de June/Offred sobre sua vida e, portanto, não consegue abarcar pensamentos que não sejam do conhecimento dela. Apesar de possuir um prólogo exterior a June, pouco é de fato explicado sobre o que se deu antes e depois dela e com outros personagens. A série, por sua vez, consegue alcançar fatos que não foram alcançados pelo livro. Ela aprofunda os contornos políticos do golpe que instaura o regime teocrático, dá mais profundidade aos personagens já destacados na obra original e explica situações que foram deixadas em aberto.

The Handmaids Tale 1ª Temporada

O que foi deixado de fora

Alguns pontos foram deixados de lado, talvez porque ainda sejam abordados em momentos posteriores ou não. Pouco se falou, por exemplo, da mãe de June, uma ativista supostamente levada para as colônias. Também não se abordou muito o tratamento fornecido a pessoas de outras religiões. Tampouco foi referida a parte final da história, que ultrapassa temporalmente a vida de June e apresenta uma perspectiva interessante sobre a visão história da sociedade. Ainda assim, os pontos pouco abordados e as modificações realizadas no conteúdo não interferem na qualidade da obra.

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Aqueles que se depararam com uma adaptação de um livro, por vezes, encontraram adaptações que fugiam completamente do enredo e em nada se assemelhavam à história original. Por óbvio, The Handmaid’s Tale,  ainda que bastante fiel, não o é integralmente, o que é difícil, sobretudo por não se tratar de uma série de apenas uma temporada. Mas a adaptação insere os pontos mais relevantes da obra original e consegue expressar a essência do livro de Margaret Atwood. As cenas que ultrapassam os contornos da história original agregam em muito no conteúdo.

Portanto, quem gostou do livro certamente irá amar a série, e quem não gostou tem uma chance de gostar, tendo em vista a dinâmica diferente. É, sem dúvidas, uma série excelente, com boas atuações, bom roteiro, boa direção, trilha sonora adequada, que passa no teste de Bechdel e levanta necessários questionamentos sobre a sociedade.


O Conto de Aia

Autora: Margaret Atwood

Editora Rocco

Tradução: Ana Deiró

368 páginas

Onde comprar: Amazon


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Autora

135 Posts

Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
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