[LIVROS] Sorte: Um caso de estupro – O relato real e doloroso sobre violência sofrida pela autora

[LIVROS] Sorte: Um caso de estupro – O relato real e doloroso sobre violência sofrida pela autora

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Em 1981, a escritora Alice Sebold, então com 18 anos, saiu da casa de um amigo à meia-noite e se preparava para atravessar o Thornden Park, um parque próximo ao alojamento universitário onde morava, na Universidade de Syracuse (uma cidade na região central do estado de Nova York), quando ouviu passos atrás de si. Nos minutos seguintes, o que se passou na entrada de um túnel que levava a um anfiteatro situado dentro do parque mudaria sua vida para sempre, influenciando sua relação com familiares, amigas, namorados e desconhecidos, sua obra, sua autoimagem e sua saúde mental. Ali, no local a que ela se refere no livro apenas como “o túnel”, Alice foi brutalmente espancada e estuprada, e é esse episódio, e o ano subsequente a ele, o pano de fundo para a memória Sorte – Um caso de estupro, escrito em 1999 e lançado no Brasil pela Editora Ediouro em 2003.

O nome do livro, explica Alice, diz respeito ao que ela ouviu de um policial enquanto registrava o crime na delegacia: meses antes, uma mulher havia sido estuprada e esquartejada no mesmo local em que ela fora atacada. Ela, portanto, “tivera sorte”, pois havia saído daquilo tudo viva.

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A escritora Alice Sebold

Desde o início da narrativa, e por todo o livro, Sebold é direta. O texto abre com o episódio de estupro, narrado em detalhes, em toda a sua misoginia. As atitudes e palavras cruéis do estuprador, a luta corporal de Alice com o mesmo para tentar escapar, o sofrimento, a dor física, as estratégias usadas para não morrer e talvez tentar levar a mente para longe dali enquanto o crime ocorria, tudo está ali, sem eufemismos.

Assim como também é narrado o esforço de Alice para manter tudo como antes, e o esforço de sua família para lidar com o que ocorreu. O medo de não ser amada e desejada por nenhum rapaz, os olhares de pena da comunidade onde cresceu, o estigma perante os e as colegas de faculdade, a ignorância e incapacidade dos pais e da irmã de entenderem o que houve também são narrados, ora com raiva, ora com compreensão por parte de Alice, que tenta se curar ao mesmo tempo em que demonstra compaixão por quem não sabe o que dizer a ela.

Alguns meses após ser estuprada, Alice esbarra com o estuprador na rua. Ele, numa atitude debochada, pergunta se não a conhecia de algum lugar. A partir daí, o caso começa a ganhar contornos, trazendo alívio e ao mesmo tempo muita angústia para a autora.

Por conta de um processo de reconhecimento facial mal conduzido e pautado pelo medo e pela coação, o processo é colocado em risco. Posteriormente, o estuprador é levado a júri, e numa noite em que Alice está fora, seu apartamento é invadido e sua melhor amiga é estuprada, gerando novas ondas de sofrimento, culpabilização,  estigmatizações e mágoas de todos os lados.

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A crueldade do processo penal – quem olha para a vítima?

Uma das partes interessantes (por trazer o/a leitor/a para um mundo que somente vítimas e profissionais da área conhecem) e torturantes da narrativa diz respeito à descrição de Alice de seu atendimento no hospital, durante a coleta de provas, e na delegacia, logo após o estupro e ao longo das investigações, assim como o processo penal propriamente dito que ela precisou enfrentar para buscar a responsabilização criminal e a prisão de seu agressor.

E, aqui, a palavra “enfrentar” não é usada sem propósito. O livro demonstra toda a crueldade e misoginia do processamento penal dos crimes de estupro que a vítima precisa encarar para, talvez, ver o agressor julgado, condenado e preso – e embora o processo penal em questão seja o estadunidense (ou do estado de Nova York), o cenário não é muito diferente em outros lugares do mundo.

Ao se debater a importância da responsabilização legal para tais crimes, é preciso refletir também sobre a própria noção de justiça, de cuidado em relação à vítima, de prevenção de novos casos e também como se dará/se é possível a (re) educação dos homens que estupram.

Os diálogos entre Alice e os advogados de defesa do estuprador, e a própria forma pela qual o processo é conduzido no tribunal, mostram uma situação vexatória, cruel e desumana em que a garantia dos direitos do acusado envolve, muitas vezes, o desrespeito aos direitos das vítimas, a negação de sua humanidade, a violação de sua intimidade, do seu direito de ir e vir, de ser o sujeito de sua própria história, o descrédito do seu relato e até mesmo a sua invisibilidade, já que ela se torna apenas um meio de prova para se obter a condenação do criminoso.

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O local, dentro do Thornden Park, onde Alice foi estuprada, em foto atual

“Tornei a entrar no tribunal e subi no banco de testemunhas. Respirei fundo e olhei para cima. À minha frente estava o inimigo. Ele faria tudo o que pudesse para passar uma má impressão de mim – para me fazer parecer estúpida, confusa, histérica. Madison agora podia olhar pra mim. O seu defensor havia chegado. Vi Paquette se aproximar de mim. Olhei bem para ele, vi-o todo: sua baixa estatura, seu terno feio, o suor em seu lábio superior. Em alguma parte de sua vida, ele poderia ter sido um homem decente, mas o que me dominava naquele momento era o desprezo que eu sentia por ele. Madison havia cometido o crime, mas Paquette, ao representá-lo, justificava-o. Ele parecia a própria força da natureza contra a qual eu precisava lutar. Não foi difícil pra mim odiá-lo. […] De repente, percebi o que ele estava fazendo. Todas aquelas perguntas sobre o portão, o ritmo veloz das perguntas sobre de onde eu vinha, para onde ia, quantos metros havia ou não havia. Ele estava tentando me cansar.” Sorte – um caso de estupro, p. 214-215 e 218.

Uma vez que o crime de estupro não tem o mesmo poder destrutivo de um crime contra o patrimônio, o que e como fazer para que o processamento de um seja diferente do processamento de outro sem que isso envolva o desrespeito ao devido processo legal?

Um outro mundo é possível dentro do sistema que hoje temos ou a desumanização e a impessoalidade são inevitáveis para se chegar o mais próximo possível da verdade dos fatos? Quem acolhe e ampara a vítima neste processo?

Estas são questões que se colocam para quem lê o relato de Alice e reflete a respeito de como conseguir justiça para a vítima sem destruí-la neste processo. Em poucas páginas, a autora também cita a síndrome do estresse pós-traumático que a acometeu após o crime, em uma época em que não se falava a respeito do tema e a síndrome sequer era conhecida como tal, e lança luzes sobre a importância de se trabalhar a questão com as vítimas e ampará-las em seu sofrimento.

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Hoje com 53 anos, a autora é uma escritora de sucesso. Além de “Sorte”, escreveu outras obras, como “Uma vida interrompida”, que foi adaptado para os cinemas. O livro, no original “Lovely Bones”, conta a história de Susie Salmon, interpretada no filme pela atriz irlandesa Saoirse Ronan, que, após ser estuprada e assassinada, passa a assistir, do paraíso, sua família e seus amigos seguirem com suas vidas, enquanto ela tem de elaborar a sua própria morte e ajudar os que se encontram do lado de cá a descobrir quem é o estuprador e assassino por meio de pistas deixadas por ela.

Como se vê, o tema da violência contra a mulher tem pautado a obra de Alice. “Sorte”, por vezes, pode incomodar pela linguagem crua, mas é um relato sincero de uma vítima que está fazendo tudo o que pode para sobreviver, num momento em que não havia sequer as redes sociais para que vítimas pudessem desabafar, entender o que houve e encontrar amparo em quem viveu uma situação semelhante.

As páginas finais são um pouco despropositadas e confusas, não agregando muita informação à história, mas o relato em si é ágil, prende a atenção, emociona e merece ser conhecido num momento em que as mulheres buscam visibilizar a violência masculina da qual são vítimas, do ponto de vista das próprias mulheres.

O livro, inclusive, é um bom antídoto contra a culpabilização das mulheres, que sofrem sozinhas por não terem voz e por não se reconhecerem como parte de uma opressão histórica e, infelizmente, muito comum. Afinal, como diz o provérbio africano: “Até que o leão aprenda a escrever, todas as histórias glorificarão o caçador.” Esta, portanto, é a história de uma leoa, para outras leoas.


SorteSorte – Um caso de estupro

Autora: Alice Sebold

Editora: Ediouro

286 páginas

Ano: 2003

Onde comprar: Amazon

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