Yellowjackets: mistério, violência e feminilidade

Yellowjackets: mistério, violência e feminilidade

Olá mundo, eu sou sua garota selvagem” é o verso que compõe o refrão de uma das mais icônicas músicas da banda The Runaways, cujo início e fim se deu na década de 70. Em suas canções há um misto de revolta e emancipação apresentado em um ritmo frenético. Essa estética e maneira de narrar trajetórias femininas é muito semelhante ao que encontramos na série estadunidense Yellowjackets. A série conta sobre um time de futebol feminino do colegial que sofre um acidente de avião na viagem para uma final de campeonato. Entretanto, dezenove meses separam o que sabemos sobre o acidente e o desconhecido.

Em um paralelo com o o presente (2021), Yellowjackets constrói uma trama não linear que facilita a construção das personagens, detalhe no qual o roteiro mais se dedica. O mistério maior não é apenas o que aconteceu na floresta, no tempo em que as meninas esperavam pelo resgate, como também a compreensão dos acontecimentos pessoais das protagonistas.

Compreender como elas chegaram daquele ponto inicial (em 1996, antes do acidente) até o ponto atual de suas vidas, é o mistério que em definitivo prende os telespectadores durante toda a temporada. Assim, aparentemente, apenas 4 delas restaram: Misty (Christina Ricci e Sammi Hanratty), Thaissa (Tawny Cypress e Jasmin Savoy Brow), Shauna (Melanie Lynskey e Sophie Nélisse) e Natalie (Juliette Lewis e Sophie Thatcher).

AVISO: O TEXTO CONTÉM SPOILERS DA PRIMEIRA TEMPORADA DE YELLOWJACKETS

Amizade feminina na série Yellowjackets
Cena do seriado Yellowjackets | Imagem: Showtime

A série ainda usa fórmulas já conhecidas da literatura ou do audiovisual. Alguns poderão encontrar semelhanças entre Senhor das Moscas de William Golding ou o seriado Lost. Dessa maneira, Yellowjackets apresenta um bom suspense, sem deixar de lado a ideia central do amadurecimento de garotas e a vida de mulheres adultas.

SÍNDROME DA CABANA EM YELLOWJACKETS

A síndrome da cabana, ou febre da cabana como também é conhecida, enquadra uma série de transtornos causados pelo isolamento social severo. Não é preciso apelar para a ficção para exemplificar as consequências do isolamento social, uma vez que a pandemia do Covid-19 já demonstrou a quantidade de sequelas físicas e emocionais que a ausência da socialização pode trazer. A série Yellowjackets apresenta essa síndrome crescer de maneira gradual nas personagens, as quais, isoladas na floresta, começam a ter delírios e tomar decisões que seriam inaceitáveis na sociedade.

No terror/suspense de Stephen King, O Iluminado, Jack Torrance, protagonista da obra, é alertado que a Febre da Cabana poderia trazer à tona uma violência que nem ele imaginava ter. Mas Yellowjackets não se passa em um hotel, e as personagens que descobrem uma terrível tendencia à violência são jovens meninas. Contudo, intrigas e traições estão presentes em cada um dos dez episódios. É evidente que a crueldade das personagens está presente não apenas nos momentos que se passam na floresta.

A síndrome da cabana em Yellowjackets
Cena da série Yellowjackets | Imagem: Showtime
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A maneira como a série trabalha os traumas resultantes daqueles dezenove meses em que elas ficaram na floresta é excepcional. E é a fonte real do horror ali gerado. Os traumas da infância e da adolescência ecoam para a vida adulta de cada uma. A série, portanto, nos convida a pensar: até que ponto você iria para enterrar seus traumas? A violência revelada no momento mais obscuro não seria a face mais crua do ser?

Dessa forma, Yellowjackets faz com que o isolamento na floresta não seja o único ambiente extremo que mulheres precisam enfrentar. A sociedade como um todo também funciona como um desafio enorme.

PEQUENOS GRANDES TRAUMAS

Uma das primeiras cenas da série indica que um clã canibal vive na floresta. E mais, conforme acompanhamos o episódio, fica claro que o clã é na verdade, o time de futebol Yellowjackets. Cabe, ao restante da temporada, mostrar como elas chegam a esse ponto. Entretanto, nem tudo é o que parece.

Alguns eventos sobrenaturais retratados na obra podem ser apenas efeitos de alucinógenos. Alguns problemas casuais da vida adulta podem encobrir na verdade, um ritual sangrento. O contraste entre a realidade do acidente, no passado, e o momento atual da vida delas é magistral. Demonstra a força das nossas escolhas da juventude e a coragem com a qual precisamos lidar com as suas consequências.

Por outro lado, com um tom quase cômico em alguns momentos, Yellowjackets erra um pouco na hora de equilibrar a leveza e o suspense. Mas o saldo total é positivo, pois ver os conflitos maternos das versões adultas de Shauna e Thaissa, ao mesmo tempo que acompanhamos chantagem, pessoas misteriosas e cultos canibais é no mínimo…divertido.

Yellowjackets aborda a feminilidade em várias fases da vida, de mulheres completamente diferentes. Ela faz referência e presta homenagem à estética dos anos 90, além da nova onda feminista que cresceu junto ao punk, aos movimentos sociais da década de 70, dentre outros. A obra se importa em trabalhar a amizade entre mulheres, a descoberta de suas sexualidades e a superação de seus traumas.

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Pequenos grandes traumas em Yellowjackets
Sophie Thatcher e Sophie Nélisse no set de “Yellowjackets” | Imagem: Showtime

Portanto, não é fácil “perdoar” ou justificar a maioria das escolhas das personagens da série. Mesmo aquelas que não estão relacionadas à violência na floresta ou canibalismo. Dessa forma, todas elas, Misty, Thaissa, Nat e Shauna, são falhas. E é assistindo tais erros que notamos o quão profunda é a sua humanidade.

FEMINILIDADE ATRAVÉS DAS DÉCADAS

Yellowjackets também rompe com certos estereótipos, tais como aqueles relacionados ao arquétipo da Mulher Selvagem. Embora ele seja trabalhado na série de maneira indireta, a intuição de Lottie (Courtney Eaton), por exemplo, parece ser atribuído a um dom natural feminino.

Assim como Shauna também possui suas habilidades com lâminas e Jackie (Ella Purnell) sua capacidade de liderar, as meninas se descobrem na floresta, e junto disso, sua feminilidade. Contudo, o aspecto selvagem da feminilidade delas é desconstruído ao longo da temporada, ao passo que se torna mais complexo e tangível.

Yellowjackets e a feminilidade através das décadas
Tawny Cypress, Christina Ricci, Melanie Lynskey e Juliette Lewis em “Yellowjackets” | Imagem: Showtime

Por fim, Yellowjackets conta uma história violenta em muitos sentidos, e é bem sucedida no que se propõe. Thaissa passa seus traumas para o filho, inconscientemente. Shauna não é o que se espera de uma “mãe de família” e assume não gostar mais da pessoa que sua filha se tornou. Misty é solitária e sofre com baixa autoestima. Natalie é uma ex-viciada que está lidando com o luto de um dos seus melhores amigos.

Sendo assim, a feminilidade poucas vezes anda em tamanha sintonia com o lado assustador das histórias como acontece em Yellowjackets. Aqui, garotas podem apenas ser garotas, em seu lado mais assustador, frágil e bonito.

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Autora:

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Estudante de Letras na Universidade de São Paulo, apreciadora de boas histórias e exploradora de muitos mundos. Seus sonhos variam entre viajar na TARDIS e a sociedade utópica onde todos amem Fleabag e Twin Peaks.
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