Wendy Torrance: a essência de "O Iluminado", de Stephen King
Wendy Torrance: a essência de “O Iluminado”

Wendy Torrance: a essência de “O Iluminado”

O Iluminado é prestigiado até hoje como uma das maiores obras de terror do século XX, tanto a obra original, escrita pelas mãos de Stephen King, quanto sua adaptação para o cinema sob o olhar de Stanley Kubrick. O livro reverencia a literatura de Edgar Allan Poe e inspira histórias pelas próximas gerações nas mais diversas artes. No entanto, a maioria dos autores, diretores e roteiristas que fizeram e fazem parte da construção do legado de O Iluminado são homens, e nem sempre compreendem um dos mais fundamentais elementos da história do livro: Wendy Torrance (Shelley Duvall). O pilar da família Torrance, a heroína de todo o conflito, a personagem forte e complexa que dá impulso para que tudo aconteça.

Muitas histórias, especialmente as criadas por homens (como é o caso de O Iluminado), possuem esse apagamento da figura feminina ou uma distorção de sua relevância narrativa. No terror, os estereótipos de gênero ainda estão começando a se desconstruir. Assim, começa a se abrir espaço para que mulheres não sejam apenas criaturas frágeis e assustadas. Ou pelo contrário, seres terríveis e obcecados, responsáveis por propagar o mal.

E contando a história de Wendy, seu esposo alcoólatra e seu filho com poderes sobrenaturais, que passam a viver em um hotel no meio das geladas montanhas do Colorado, O Iluminado não é, nem de longe, uma história sobre fantasmas, exceto aqueles que vivem dentro de nós. Mas o que esta obra de 1977 pode nos ensinar sobre a figura feminina neste gênero da literatura e do cinema?

Shelley Duvall como Wendy Torrance em "O Iluminado"
Shelley Duvall como Wendy Torrance para o filme “O Iluminado” | Imagem: reprodução
Aviso: o texto contém spoilers de O Iluminado (livro e filme) e de Doutor Sono

Wendy Torrance, esposa e mãe dedicada

Primeiramente, quem é Wendy Torrance? Quando Jack Torrance (Jack Nicholson) consegue o emprego de zelador do Hotel Overlook em um ponto isolado das montanhas, ele, sua esposa e o filho Danny (Danny Lloyd), se mudam para lá. Mas é claro que há algo errado: a última família que passou pelo mesmo teve um fim trágico, sendo que o zelador assassinou as filhas, a mulher e depois se suicidou. Haveria algo macabro no hotel? Ou apenas a loucura nascida do confinamento absoluto?

O padrão da história é que são sempre os homens que cedem aos encantos do Overlook, sempre os pais, esposos, que perdem para suas vaidades e sacrificam suas amadas famílias para conseguirem calar as vozes dos fantasmas ou alcançar a glória prometida. Wendy, portanto, sofre com o comportamento de Jack que antes era ocasionado pela bebida, e passa então a ser causado pelo hotel.

O Hotel Overlook se aproveita da fraqueza de Jack e o impulsiona a libertar uma violência que já existia dentro de si. A força ou a fraqueza das mulheres que são mães estão sempre sendo representadas através do amor que elas nutrem pelos filhos. Porém, essa não é a questão em O Iluminado. No fim, o que Wendy Torrance enfrenta não é muito diferente do que as mulheres precisam enfrentar no mundo real.

Leia também >> Minha Coisa Favorita é Monstro: o terror político de Emil Ferris
Jack Nicholson como Jack Torrance em "O Iluminado"
Jack Nicholson como Jack Torrance no filme O Iluminado | Imagem: reprodução

Wendy, tola e descontrolada

A adaptação do livro de 1980 pode ser muito bem aceita pela crítica, mas uma coisa é fato: o desenvolvimento de Wendy Torrance ao longo das mais de 400 páginas de O Iluminado foi ignorado quase que totalmente pelo diretor e roteirista Stanley Kubrick e a corroteirista Diane Johnson. A Wendy do filme é a clássica figura feminina que grita e corre quando a cena de terror se inicia. É uma personagem submissa e retratada como fraca, utilizada apenas como figurante no conflito entre Jack x Danny.

Um dos pontos centrais da trama original de O Iluminado é o tema da família. Stephen King claramente deposita muito de sua própria história ali, contando como homens que não demonstram afeto criam filhos que não sabem se relacionar. Mas toda a carga dramática se perde quando Jack Torrance deixa de ser um homem complexo que ama a família e passa a ser simplesmente um maníaco perseguindo a esposa boba e frágil no filme. A família Torrance, portanto, se torna mais uma representação fútil de famílias em filmes de terror, onde a criança se salva milagrosamente dos fantasmas terríveis da casa assombrada.

Leia também >> The Dark Man: a escuridão que habita em todos nós
Wendy Torrance
Shelley Duvall como Wendy Torrance no filme O Iluminado | Imagem: reprodução

Ao perder a personalidade complexa e bonita de Wendy, O Iluminado de Kubrick perde também sua essência. Stephen King podia ainda estar preso a ideais ultrapassados de seu tempo, mas, sem dúvida, não fez de Wendy um mero artefato para a história de Jack e Danny. King não resumiu Wendy Torrance a uma mãe ou uma esposa, apesar dela ainda ser lembrada dessa maneira por muitas pessoas.

As mulheres nos livros de Stephen King

Em 2013 foi lançada a continuação de O Iluminado, intitulada Doutor Sono. O livro conta a história de Dan (interpretado pelo ator Ewan McGregor no filme) adulto, lidando com traumas do passado e novos inimigos sedentos pelos seus poderes. Wendy já não faz mais parte da história, tendo morrido em algum momento da fase adulta de Dan. No entanto, outra mulher entra na sua vida, e dessa vez é uma menininha de 13 anos: Abra Stone (interpretada pela atriz Kyliegh Curran).

Mais de 30 anos separam um livro do outro, mas é possível considerar tanto Wendy quanto Abra boas representações femininas no horror. Além das duas, há uma nova personagem em Doutor Sono. Trata-se de Rose Cartola (interpretada por Rebecca Ferguson), uma mulher imortal que caça iluminados para sugar suas energias. Uma vilã com motivações próprias e um bom desenvolvimento.

Kyliegh Curran e Rebecca Ferguson em "Doutor Sono"
Kyliegh Curran e Rebecca Ferguson em Doutor Sono | Imagem: reprodução
Leia também >> “De olhos bem fechados” e o patriarcado como fonte do desespero

No entanto, Rose é sexualizada no livro todo. Além disso, há o estupro de outra personagem – Andi Cascavel (Emily Alyn Lind) – sendo utilizado por ela como motivação pessoal para se tornar uma vilã. É inegável que muitas representações femininas nas obras de King sofrem com certos estereótipos, além de pouca visão feminina em suas criações. A primeira grande obra de King é Carrie – A Estranha.

O autor conta que a ajuda de sua esposa Tabitha King na reformulação da personagem foi essencial para a trama. Assim, percebe-se mais uma vez a necessidade e importância de sempre haver mulheres nos processos criativos de personagens femininas.

Tabitha e Stephen King
Tabitha e Stephen King | Imagem: reprodução

É indispensável relembrar a importância das obras de King na literatura de terror. A Wendy Torrance é uma personagem incrível, perseguida pela ideia de uma mãe que projeta nela seus sonhos, um marido agressivo mas do qual ela ama, e um filho que nem sempre ela reconhece como seu. Trata-se, portanto, de uma das mais importantes personagens já criadas por Stephen King.

Em suma, Wendy, Carrie, Abra ou Beverly são uma prova real da evolução na construção de personagens femininas em livros de terror. E espera-se que cada vez mais tenhamos boas adaptações de mulheres fortes enfrentando monstros e rompendo preconceitos em histórias de dar medo.


Edição e revisão por Isabelle Simões.

Escrito por:

7 Textos

Elisa Silveira é uma estudante de Meio Ambiente apaixonada por muitas coisas, como Doctor Who, séries de comédia e literatura. Na maior parte do tempo está estudando ou escrevendo coisas; no tempo livre, sonha com mundos fantásticos.
Todos os textos
Follow Me :