Byzantium - Uma Vida Eterna: vampiros e patriarcado | CRÍTICA
Byzantium – Uma Vida Eterna: vampiros e patriarcado

Byzantium – Uma Vida Eterna: vampiros e patriarcado

O horror é um gênero para o qual muita gente torce o nariz. Afinal, o conceito de se divertir com doses seguras de medo não é para todo mundo. Porém, o horror pode ser usado muito além do que apenas assustar. Monstros e criaturas dos mais variados tipos aparecem frequentemente na literatura, no cinema e na televisão, através de veículos para discutir questões que vão desde saúde mental até opressões estruturais. Lançado em 2012, o filme Byzantium: Uma Vida Eterna recorre ao mito dos vampiros para falar sobre tradição e patriarcado.

Dirigido por Neil Jordan (Entrevista com o Vampiro), Byzantium é baseado na peça de teatro A Vampyre Story (em português: Uma História de Vampiro), de Moira Buffini. A autora assina também o roteiro do filme. A trama acompanha a história de duas vampiras entre os séculos XVIII e XXI. Perseguidas por homens misteriosos, Clara (Gemma Arterton) e sua filha, Eleanor (Saoirse Ronan), se escondem em uma cidade costeira. Porém, o envolvimento de Eleanor com um rapaz local pode colocar em risco o segredo das duas.

Aviso: o texto a seguir contém spoilers do filme
Saoirse Ronan como Eleanor Webb em Byzantium
Saoirse Ronan como Eleanor Webb | Imagem: reprodução

Byzantium não pode ser considerado um filme de terror. Não há sustos nem momentos de angústia extrema. Contudo, o filme toma emprestado um elemento clássico do horror – a figura do vampiro – para contar uma história sobre classe, gênero e colonialismo.

“E foi assim que eu nasci”

A história de Clara e Eleanor é narrada em off pela personagem de Ronan. Guardiã de um segredo que não consegue suportar, ela escreve e reescreve sua história várias e várias vezes. Em seguida, joga as páginas ao vento. São as palavras de Eleanor que nos levam de volta à virada do século XVIII para o XIX, em que se desenrola a história de Clara, como ela se tornou vampira e o que a levou a transformar a própria filha.

Entretanto, a versão contada por Eleanor tem algumas lacunas. A jovem não sabe, por exemplo, que existem outros vampiros além dela e da mãe, e, portanto, não sabe ao certo do que elas estão fugindo quando se mudam de cidade em cidade.

Gemma Arterton em Byzantium
A história de Clara e Eleanor se desenrola entre o século XVIII e o XXI | Imagem: reprodução
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Com saltos temporais frequentes entre o passado e o século XXI, o filme nos apresenta Clara como uma stripper que perde o emprego após roubar e agredir um cliente. Em seguida, ela é perseguida por um homem que parece saber mais sobre ela e Eleanor do que ela gostaria. Sem explicar quase nada para a filha, Clara ordena que ela arrume as malas, e as duas partem para uma cidade no litoral da Inglaterra. Lá, Eleanor conhece Frank (Caleb Landry Jones), um jovem com leucemia por quem ela se apaixona.

Mas a nova cidade de Eleanor e Clara também guarda algo do passado das duas. Foi lá que Clara conheceu Darvell (Sam Riley) e Ruthven (Johnny Lee Miller), dois oficiais do exército inglês que representaram tanto a sua ruína quanto a sua salvação. Após ser violentada e vendida para um bordel, Clara deu à luz uma filha que entregou aos cuidados de um orfanato privado. Anos depois, por meio de Darvell e Ruthven, ela entra em contato com um mapa para uma caverna com poderes secretos que mudará para sempre a sua vida.

Em Byzantium, nem todos podem ser imortais

Enquanto esteve viva, Clara nunca se livrou de Ruthven. Após voltar da guerra, o oficial que a estuprou voltou repetidas vezes ao bordel em que a deixou. Um dia, ambos foram visitados por Darvell, que havia morrido e agora tinha consigo um mapa para um local secreto que garantiria a imortalidade a quem o visitasse. O mapa era um presente para Ruthven, mas Clara acerta um tiro no oficial e o toma para si.

Após a transformação de Clara, entendemos como se estrutura a comunidade vampírica no universo de Byzantium. Por ser não apenas uma mulher, mas uma prostituta sem linhagem nobre, Clara é rechaçada pelos outros vampiros. É um julgamento baseado inteiramente em gênero e classe. Ruthven, apesar de ter roubado toda a fortuna de Darvell após a morte do amigo, era considerado digno de se tornar imortal. Afinal, era um homem e um oficial do exército. Portanto, merecia desfrutar da eternidade.

Vampiros, história e dominação em Byzantium
Clara é rechaçada pelos outros vampiros após a transformação | Imagem: reprodução

A irmandade dos vampiros é uma sociedade secreta elitista e machista, regida por um código próprio. Após a transformação de Clara, Savella (Uri Gavriel) e Werner (Thure Linhardt) lamentam a entrada de uma mulher tão “sem educação” para o seu seleto clubinho, mas se veem obrigados a permitir que ela continue vivendo. Afinal, Clara não fez nada para violar as regras da irmandade. Até o dia em que ela transforma a filha.

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Para se vingar de Clara, Ruthven vai atrás de Eleanor no orfanato e a estupra com o intuito de contaminá-la com a doença da qual está morrendo. Embora não seja nomeada ao longo do filme, pelos sinais apresentados pelo personagem, é possível supor que ele sofre de sífilis. Desesperada, Clara mata Ruthven e leva a filha para a caverna marcada no mapa de Darvell. É aí que os seus problemas começam, pois, segundo o código dos vampiros, mulheres não podem criar. Eleanor, portanto, é “uma aberração”.

O vampirismo, em Byzantium, é tratado como um conhecimento secreto ao qual apenas homens de uma determinada classe social podem ter acesso. As regras que regem o mundo dos vampiros não diferem tanto assim das normas da maçonaria ou até mesmo de outras sociedades não tão secretas que procuram barrar o acesso ao conhecimento como forma de preservar uma hierarquia social. A partir do momento em que Clara é criada pela ação de um homem, já não há mais o que fazer. Ela já possui o conhecimento secreto. Porém, é importante que ela não o passe adiante para outras mulheres.

Eleanor e Frank em Byzantium
Eleanor e Frank | Imagem: reprodução

O fim do filme coloca um questionamento interessante: e quando a mulher passa adiante o conhecimento para um homem? Agora ciente de tudo que sua existência significa, Eleanor leva Frank à caverna para transformá-lo em um imortal. Embora não seja de uma linhagem nobre, Frank é um homem e, portanto, não representa uma ofensa para a irmandade dos vampiros. Contudo, por ter sido criado por uma mulher, é também uma aberração. Qual seria, portanto, o seu lugar nessa sociedade de imortais?

Vampiros, história e dominação em Byzantium

Embora a questão de gênero seja a que mais chama atenção em Byzantium, é importante não desconsiderar outros aspectos da trama. Quando Clara é apresentada por Darvell aos outros vampiros, por exemplo, a primeira pergunta que eles fazem é a respeito de sua linhagem. Ou seja, sua transformação até poderia ser tolerada desde que ela fizesse parte de uma determinada classe social. A opressão não se dá a partir de apenas um elemento, mas por vários fatores combinados.

Também é interessante prestar atenção no relato de Ruthven a respeito da batalha em que Darvell sofreu os ferimentos que o levaram. O oficial conta para Clara que eles haviam sido mandados para a Irlanda para reprimir uma rebelião. É uma cena que ecoa nos momentos finais do filme, em que Savella relembra a época em que lutou nas Cruzadas.

Sam Riley como Darvell
Sam Riley como Darvell | Imagem: reprodução

Mesmo que não seja essencial para a compreensão da história, vale notar que Byzantium é um filme irlandês. Saoirse Ronan é a mais conhecida atriz irlandesa da atualidade, e o currículo de Neil Jordan conta com diversos filmes que abordam a opressão inglesa no país, como Michael Collins – O Preço da Liberdade e Café da Manhã em Plutão. Portanto, os vampiros da irmandade, em Byzantium, são apresentados como agentes dessa exploração colonialista.

A figura do vampiro pode representar muitas coisas. Nos romances paranormais como Crepúsculo e True Blood, as criaturas da noite são objetos de desejo. Já em Entrevista com o Vampiro, o tema central é a solidão de uma vida eterna. Ambos aspectos do mito do vampiro aparecem em Byzantium, mas o principal, no filme, é a figura do vampiro como testemunha e agente da história.

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Ao contrário do que muitos pensam, a história não está presa ao passado. Nós a vemos todos os dias e temos nossas vidas afetadas por ela. Em Byzantium, a história está presente tanto no antigo orfanato transformado em escola que Eleanor frequenta quanto nos homens que, em pleno século XXI, barram o acesso a determinados saberes a mulheres, estrangeiros e pessoas de classe baixa.

Gemma Arterton como Clara no século XXI
Gemma Arterton como Clara no século XXI | Imagem: reprodução

Todavia, negar a história pode ter efeitos mortais. Eleanor insiste em recontar sua história e em ver os traços do passado no presente. Clara, por outro lado, prefere ignorá-los. É um embate de opiniões que acaba fazendo com que Eleanor se arrisque mais do que deveria sem saber dos perigos que a cercam. É só quando ela entende a verdadeira dimensão das ações de sua mãe, que Eleanor é capaz de se aceitar e tomar as rédeas da própria vida.

A história, diz Byzantium, deve ser encarada de frente. Só assim nós podemos parar de repeti-la e avançar.


Edição e revisão por Isabelle Simões.

Escrito por:

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Tradutora, jornalista, escritora e doutoranda em Linguística, na área de Análise do Discurso. Gosta de cinema, de ficção científica, de cinema de ficção científica e de batata. Queria escrever quando crescesse e, agora que cresceu, continua querendo.
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