“Rua do Medo” dita novas regras do horror

“Rua do Medo” dita novas regras do horror

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Rua do Medo foi o centro das atenções de amantes de terror e usuários da Netflix nas últimas 3 semanas. Com a proposta inovadora de lançar uma trilogia com filmes semanais, como se fossem episódios de 2 horas, o streaming conseguiu despertar a maior motivação para o consumo de uma produção audiovisual: a curiosidade. 

Só quem viveu a experiência sabe o burburinho causado pela espera dos filmes e como o dia 24 de julho ficou vazio sem aparições de Deena (Kiana Madeira) e Sam (Olivia Scott Welch). Baseados nos livros R. L. Stine, escritor abertamente gay, co-escritos e dirigidos por Leigh Janiak, os três filmes de Rua do Medo renderam um ótimo entretenimento e reafirmaram a importância de protagonistas LGBTQIA+ em filmes de horror – e em filmes no geral, é claro. É como disseram pela internet: “‘Fear Street’ becomes Queer Street” (Rua do Medo virou Rua Queer). 

Rua do Medo: 1994 – Parte 1

"Rua do Medo" dita novas regras do horror

A trilogia de Rua do Medo inicia com o longa-metragem 1994 – Parte 1, a primeira parada na viagem no tempo do horror que as três obras de Leigh Janiak se propõem. Na trama, somos introduzidos a Shadyside, uma cidadezinha que parece amaldiçoada, cercada de acontecimentos macabros. A protagonista é Deena (Kiana Madeira), uma adolescente no ensino médio que terminou recentemente um relacionamento com Sam (Olivia Scott Welch), porque a namorada se muda para Sunnyvale, a vizinha próspera. O reencontro das duas ocorre em uma vigília após uma nova tragédia abater Shadyside. No entanto, o que parecia ser mais um desastre na cidade maldita revela-se como o começo de um grande pesadelo para Deena e seu grupo.

O filme é repleto de referências não apenas aos filmes, mas também aos livros de R.L. Stine, autor da série que originou as adaptações. Para introduzir a história, a sequência de abertura protagonizada por Heather (Maya Hawke) faz alusão a um dos principais lançamentos do horror na década de 90: Pânico, de Wes Craven, lançado em 1996. Para além do assassino mascarado que remete a Ghostface, o psicopata da franquia de Craven, todo início com telefonemas e perseguições reverenciam as cenas protagonizadas por Drew Barrymore em Pânico.

Cena de abertura de Rua do Medo: 1994 - parte 1
Cena de abertura do primeiro filme da trilogia | Foto: Netflix (reprodução)

Após o acidente na volta da vigília que deixa Sam no hospital, as circunstâncias em Shadyside ficam cada vez mais sinistras. Assassinos conhecidos (e mortos) do passado da cidade começam a ressurgir, perseguindo o grupo formado pelo casal, pelo irmão mais novo de Deena, Josh (Benjamin Flores Jr.) e mais dois amigos do colégio, Kate (Julia Rehwald) e Simon (Fred Hechinger). Os jovens tentam então solucionar o mistério que envolve o local, retomando a lenda da bruxa Sarah Fier, que será explorada nos capítulos seguintes.

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protagonistas lésbicas no cinema de horror
Sam (Olivia Scott Welch) e Deena (Kiana Madeira) | Foto: Netflix (reprodução)

Como todo bom slasher, subgênero do horror moderno que surgiu nos anos de 1970 e que canonizou diversos títulos no cinema como O massacre da serra elétrica (1974) e Halloween (1978), Rua do Medo traz o protagonismo da juventude feminina para as telas. São as adolescentes que gritam, que fogem, que presenciam as mortes e que contra-atacam quando chega a hora.

Ao mesmo tempo, também são elas as mais violentadas e violadas, principalmente pelo contexto conservador que o slasher surge e pelo olhar masculino que tomava conta das câmeras. Rua do Medo: 1994 – parte 1 se firma como um exemplar do subgênero, no entanto, não segue fielmente todos os clichês já estabelecidos, subvertendo várias regras do horror. Entre elas, destacam-se a formação de um casal lésbico pelas protagonistas, além de acertar em não sexualizar as garotas em tela e em não associar sexo a punição, como ocorre frequentemente nos slashers.

1994 – parte 1 funciona bem como introdução da ligação entre as três partes. Mergulhado no slasher com pitadas de horror sobrenatural e de bruxaria, com uma trilha sonora digna dos anos 90 e uma boa quantidade de gore, o longa de Janiak abre as portas para a trilogia que foi um refresco na produção do streaming, que muitas vezes não é muito atrativa. Seus personagens são carismáticos, a narrativa é cheia de referências, bem amarrada e consegue criar curiosidade nos espectadores para que queiram assistir aos próximos. 

Sam (Olivia Scott Welch) e Deena (Kiana Madeira)
Sam e Deena | Foto: Netflix (reprodução)

Rua do Medo: 1978 – Parte 2

Quando olhamos para o segundo filme, Rua do Medo: 1978 – Parte 2, encontramos mais das já esperadas referências ao terror clássico – dessa vez ao da década de 1970, mas, mais do que isso, temos um ritmo diferente. Essa é uma história contada pelo luto. Uma Ziggy adulta (Gillian Jacobs) se abre, após muita resistência emocional, e nos leva até 1978, ao acampamento de verão. 

Conforme vai narrando, retrocedemos no tempo com ela e lá vemos uma Ziggy adolescente (Sadie Sink) que sofre bullying dos jovens de Sunnyvale, a cidade vizinha. Mas o bullying, embora seja um dos pontos importantes da trama, não é o foco de Ziggy, que está ali com Deena, Josh e uma Sam possuída, em 1994, para contar como sua irmã morreu naquele acampamento. 

Trilogia Rua do Medo
C. Berman narrando sua história de 1978 em 1994 para Josh e Deena | Foto: Netflix (reprodução)

É o trauma que move Ziggy. Quase duas décadas se passaram e ela mal sai de casa. Fechou-se para o mundo – é obscuro para nós a forma como ganha a vida, mas o filme nos mostra que seu único contato emocional é seu cachorro. O resto é vigilância contra a maldição da bruxa. Não é à toa, portanto, que esse filme possui um ritmo mais devagar em relação ao primeiro. Além de ser dessa maneira por emular os próprios filmes de horror de 1970, como Halloween, que demora um bom tempo até chegar à parte da matança em si, estamos mergulhando no trauma de Ziggy.

Portanto, se no primeiro filme somos jogadas em uma situação que não entendemos, acompanhando um bando de adolescentes que estão tão confusos quanto nós sob a sombra da lenda de uma bruxa, no segundo já sabemos um pouco mais e permanecemos como espectadoras, espiando pela janela do tempo os acontecimentos de uma geração anterior, também marcada pela perda. A diferença é que dessa vez os assassinatos deixaram uma sobrevivente: Ziggy, a nossa narradora. 

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Foi inteligente da diretora fazer isso. É um respiro para nós, que havíamos entrado de cabeça em um slasher sobrenatural sem grandes explicações no primeiro filme. Agora, finalmente, temos um tempo para sentar e examinar os fatos.

Fato 1: a cada geração há um serial killer em Shadyside. Fato 2: ninguém vive para contar a história. Fato 3: exceto por uma sobrevivente, a do acampamento de verão de 1978. Fato 4: todos os assassinos eram pessoas tranquilas que não haviam feito mal a ninguém antes. Fato 5: a lenda de Sarah Fier, a bruxa que supostamente amaldiçoou Shadyside e possui alguns moradores locais de tempos em tempos para cometer assassinatos sacrificiais, permeia a cabeça das pessoas. Fato 6: mas todos acreditam que isso é uma piada e que Shadysiders são campeões em serial killers por serem pessoas à margem da sociedade. Fato 7: existe algo de sobrenatural nos assassinatos e parece que Deena e seus amigos estão sendo punidos por se aproximarem da verdade. 

Ziggy em 1978
Ziggy em 1978 | Foto: Netflix (reprodução)

Existem muitas camadas de horror nesse filme. Uma delas é a geracional: os moradores de Shadyside parecem presos a uma existência de derrota, algo de que não conseguem escapar. Isso perpassa questões socioeconômicas. Se shadysiders são derrotados, Sunnyvale é próspera. E não apenas isso: as pessoas de lá fazem questão de humilhar os vizinhos mais pobres, mais desfavorecidos.

Existe, portanto, um sentimento de revolta nas personagens, que não são capazes de sair daquele ciclo de perdas, pois parece não haver o que fazer. Se você é shadysider, você é amaldiçoado. E, para além das mortes, a coisa mais assustadora desses filmes é nos fazer ver como jovens tão cheios de sonhos são sugados para a máquina do capitalismo – que só privilegia quem já tem privilégios e descarta todo o restante como algo inútil. 

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Ziggy e Nick Goode em Rua do Medo: 1978
Ziggy e Nick Goode em 1978 | Foto: Netflix (reprodução)

Rua do Medo: 1978 – Parte 2 é mais pesado do que o primeiro porque ali reside não apenas o luto, mas o peso do tempo e do saber que, não importa o que aconteça, você já perdeu. É significativo, portanto, que a pessoa a morrer que levou nossa narradora a nos contar a história e a viver traumatizada fosse justamente sua irmã “perfeita”, Cindy (Emily Rudd), subvertendo um dos piores tropos do horror, especialmente do slasher: o da jovem que morre após transar.

Ela permaneceu virgem, se esquivando das investidas do namorado, pois tinha planos de ter uma vida “certinha” – e morreu mesmo assim. Quer transassem ou não, quer fizessem boas escolhas acadêmicas ou na carreira ou simplesmente decidissem viver sem regras, quem nasce em Shadyside está condenado. Não há escapatória para os desajustados. 

O assassino do camping Nightwing
O assassino que persegue os adolescentes do camping Nightwing | Foto: Netflix (reprodução)

Rua do Medo: 1666 – Parte 3

Rua do Medo: 1666 – Parte 3 traz a verdade à tona. E é claro que a verdade é misógina e lesbofóbica. A ambientação do terceiro filme nos leva à uma vila do século 17, construída com base em referências e influências de folk horror como A Bruxa (2016), A Vila (2004), As Bruxas de Salém (1996) e O Novo Mundo (2005). 

A trama é orientada pela história de Sarah Fier (Kiana Madeira/Elizabeth Scopel), tendo como foco principal seu romance com Hannah Miller (Olivia Scott Welch), filha do pastor da vila. O amor é fundamental na história por fazer com que as espectadoras se identifiquem com facilidade. Dessa forma, diferente do que acontece com a matança nos anteriores, todas nos deparamos com o amor em algum momento.

Como era de se esperar, tudo prosperava para os moradores do vilarejo. Sarah consegue fazer com que a leitoa dê a luz à todos os filhotes com vida, as colheitas vão bem e não há nenhuma desordem aparente no local até que Sarah e Hannah se beijam. Pronto, o pecado havia sido cometido e o diabo convidado a pisar nas férteis terras de Union. Depois disso, larvas aparecem nos alimentos, a água parece estar contaminada e aquela leitoa come todos os filhotes. O caos se instaura como acontece em outras representações de histórias de bruxas daquele século. 

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Sarah e Hannah em 1666
Sarah e Hannah em 1666 | Foto: Netflix (reprodução)

Em meio a este infortúnio vemos os homens da vila decidindo que o melhor a se fazer é enforcar as garotas, que sabiamente tentam fugir mas acabam sendo capturadas. Todo o ódio direcionado às amantes faz com que o terror fictício de Rua do Medo: 1666 – Parte 3 se mescle ao terror da vida real. Inúmeras mulheres que amam outras mulheres são mortas, espancadas e estupradas em qualquer país do mundo e em uns a violência chega a ser ainda maior. 

Nem assassinos brutais seriam perseguidos como Sarah e Hannah foram e esta é a grande faceta religiosa retratada no longa: os subalternos amedrontam a igreja e ameaçam sua posição enquanto instituição de poder, ainda mais na época em que o filme é ambientado. A crítica fica bastante explícita quando Sarah diz não ter medo do diabo, mas sim de uma mãe que não aceita a filha e deixa que a persigam. 

Rua do Medo
O povo de Union não consegue aceitar o beijo entre as duas jovens e acreditam estarem amaldiçoados | Foto: Netflix (reprodução)

Entre as cenas de pequenos escapes e romance e as de terror real, se esconde a verdade. O diabo realmente andava pelas terras de Union, mas quem havia o convidado não foi Sarah ou Hannah com suas demonstrações afetivas: foi o sábio e bem quisto Solomon Goode (Ashley Zukerman) – os sobrenomes da trilogia inclusive têm muito a dizer, já que a sonoridade de Goode se aproxima à de good, “bom”, e Fier é bem parecido com fear, “medo”. 

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Sarah é entregue a seus perseguidores pelo “bonzinho” depois da descoberta (feita inclusive na caverna que aparece no segundo filme) e, ao lado de sua amada, se prepara para o enforcamento. Em um misto de aflição e do que chamariam de nobreza, Sarah confessa seu suposto crime e é assassinada. Seu corpo é removido por seus amigos para que tenha um enterro minimamente digno e a determinação em mostrar aos outros a verdade nos leva de volta à 1994.

Imediatamente as cores mudam e nos localizamos na década de 90 mais um vez, agora com Deena sabendo de toda a verdade sobre a “bruxa” e a real maldição de Shadyside. O encaminhamento final é bem costurado e todos os quatro envolvidos na caça à Nick Goode (Ashley Zukerman), herdeiro e propagador da maldição, no Shadyside Mall têm motivos sinceros para estarem ali: Ziggy se sente traída, Deena e Josh sabem da verdade e Martin (Darrell Britt-Gibson) conhece todos os detalhes do shopping e descobre que havia sido incriminado por Goode. Os elementos neon ficam mais fortes e conseguem criar uma atmosfera necessária para que você seja absorvida pelo desfecho do filme, possibilitando também algumas modificações no cenário. Ao passo que a luz negra é acendida, revela manchas de sangue misturado em tinta – o desejo dos assassinos.    

Josh, Deena e Ziggy em Rua do Medo: 1994
Josh, Deena e Ziggy em 1994 prontos para o plano final | Foto: Netflix (reprodução)

Um destaque divertidíssimo desse momento é a brilhante ideia de atirar sangue nos assassinos que aparecem para que lutem um contra o outro, e funciona! O plano audacioso quase salva Ziggy, Josh e Martin, mas com uns bons minutos restantes, é claro que teríamos mais lutas bem performadas e corajosas até o tão esperado desfecho. Deena, contudo, acerta Nick no olho, assim como o pastor Cyrus matou o irmão de Sarah e outras onze crianças em 1666. A caverna se transforma, os assassinos viram pó e Sam e Deena saem pela casa de Goode. 

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Martin e Josh em Rua do Medo: 1994
Martin e Josh em 1994 prontos para o plano final | Foto: Netflix (reprodução)

A primeira coisa que acontece quando as duas põe o pé na rua é um acidente de carro. Esse fato não tem tanto sentido a princípio, porém um ponto importante a ser observado é que a maldição mantida por Goode fez com que todos os crimes e problemas ficassem no lado de Shadyside, transformando Sunnyvale numa cidade pacífica. Mas com o fim da maldição, acaba também a tranquilidade de Sunnyvale, que se torna novamente uma cidade propensa a acidentes e crimes como todas as outras. 

Outras curiosidades que costuram perfeitamente a trama e valem a pena destacar são: Kate chama suas drogas de “mirtilos” em 1994 e em 1666 as jovens vão atrás de mirtilos alucinógenos na casa da viúva; a saída da caverna utilizada por Sarah Fier é a mesma utilizada por Cindy em 1978; além de Goode, outros sobrenomes também aparecem em 1666 como Berman; quando Ziggy está trancando Tommy na livraria a porta emperra como acontece com Heather no primeiro filme; e por último, Deena faz um colete à prova de balas e facadas com os livros de R. L. Stine. 

O legado da trilogia Rua do Medo

Para além das referências deliciosas à slashers, folk horror e literatura de horror, é possível que a maior contribuição da trilogia Rua do Medo seja a representação do amor entre duas jovens de forma tão intensa e sincera, norteando toda a história da trilogia.

Ver pessoas LGBTQIA+ como heroínas e sobreviventes é extremamente significativo dentro de um gênero que, por muito tempo, as retratou como vilãs ou as tinha nos filmes só para morrerem. A diretora, o escritor e o elenco demonstram a importância de representar subalternos e excluídos como protagonistas – e aqui vale lembrar que os cinco sobreviventes finais são um retrato disso: Ziggy era completamente excluída da sociedade, seja por opção ou não, Josh é um nerd negro, Martin é um jovem negro que vivia sendo preso, e Deena e Sam formam um casal homoafetivo

“Nós tivemos essa chance de contar um novo tipo de história com novos tipos de protagonistas que normalmente não vivem muito tempo nesses filmes, e isso pra mim é a parte mais excitante desta trilogia. Eu espero que as pessoas assistam e percebam que podemos contar mais destas histórias. Nós não precisamos contar a mesma trama de novo e de novo, nós podemos ter uma mulher negra e queer como protagonista”, declara Janiak em entrevista.


O texto foi escrito em conjunto por Juliana, VivianMia. Edição e revisão por Isabelle Simões.


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